Uma carta e um abraço

Uma carta na mão e um propósito na cabeça.

E lá estava eu, em pé diante de uma sala lotada, falando a respeito do amor ao próximo. Acredito que cada palavra é uma semente, que pode cair (ou não) em boa terra e gerar bons frutos, se semeada com cuidado e carinho. E passei aquela manhã de janeiro, menos de dois meses atrás, acompanhado por voluntários, na companhia de 45 adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas na Fundação Casa de Taubaté. E não perguntei a nenhum deles que infrações haviam praticado, pois não estava ali como juiz.

E nem como jornalista.

Estava ali Guilhermo Codazzi da Costa, voluntário idealizador do projeto Cartas Perdidas, que tem a missão de espalhar mensagens de fé, esperança, poesia, acolhimento e amor em locais públicos, orfanatos, asilos, hospitais, além de famílias carentes, moradores de rua, etc.

E o que faria o jornalista Guilhermo Codazzi da Costa? Perguntaria.

Pensei muito a respeito desse tema após a polêmica, que tem sido tão comentada nas redes e também nas redações, envolvendo a reportagem de Drauzio Varella no ‘Fantástico’ e o abraço do médico na presa Suzy.

O repórter que fui, tendo visitado inúmeros presídios e unidades da Fundação Casa, também nunca foi ‘juiz’ em suas apurações, porém buscava informar. ‘Jornalismo é precisão’, diz uma máxima repetida à exaustão, como mantra, nas redações jornalísticas. Ao contar a história de um preso, dizer ao público que crimes esse personagem cometeu me parece parte fundamental da apuração.

Dito isso, sem querer vomitar regras, ser ombudsman, muito menos desmerecer a trajetória de Varella, mas para promover o debater, avalio que houve sim um erro jornalístico. É um fato. E qual foi o erro?

A reportagem não cumpriu o seu papel basilar: informar com clareza e transparência. Ao não informar que a presa foi condenada por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos, ela induziu o seu público a entender a história de forma distorcida, como se Suzy não recebesse visitas por ser trans.
Acredito que a justificativa inicial de Varella, de que como médico não agia como juiz e não questionava os seus pacientes sobre sua história de vida, não se sustenta. Meu diagnóstico é que ali estava sendo produzido um material jornalístico, não se tratava de uma consulta médica. E um conteúdo editorial com erro de apuração. É salutar, inclusive, que a emissora e Varella tenham reconhecido o erro, afinal não se pode abraçar as falhas, a transparência na relação com o público é primordial.

A polêmica tem ainda outras facetas. Em um momento delicado, em que governos que flertam com o autoritarismo atacam a liberdade de imprensa diariamente, o caso dá munição para milícias digitais atacarem o jornalismo e fazerem uso político do episódio, inclusive com uso de fake news — como, por exemplo, a história mentirosa de que Varella teria aspirações políticas. Há também o reforço de estigmas contra trans, que sofrem sim preconceito no país, seja dentro ou fora do sistema prisional.

Agora, o abraço foi um erro? Merece polegar pra cima ou pra baixo?

O voluntário Guilhermo Codazzi da Costa, particularmente, abraçaria Suzy, Drauzio, principalmente a família do menino brutalmente assassinado e abraçaria você também, esteja agora concordando comigo ou me crucificando. O Guilhermo cidadão cristão também faria o mesmo que o doutor ateu fez, não no exercício da prática jornalística e sim no exercício do que entende ser o amor incondicional ao próximo, ensinado pelo filho de um carpinteiro da Galileia, que dizia que devemos perdoar 70×7 (que dá mais do que 490) e andava ao lado também de ladrões, prostitutas, cobradores de impostos, adúlteros e outros grupos marginalizados.

“Estive na prisão, e foste me ver”. (Mateus 25:36)

O amor e o perdão são sempre a melhor notícia do dia. Um abraço a todos!

P.S. 1. As cartas dos adolescentes da Fundação Casa serão levadas para um asilo de Pindamonhangaba. Os idosos responderão e vamos criar uma troca de correspondência entre essas gerações tão diferentes.

P.S. 2. Que tal escrevermos cartas para a família do menino?

P.S. 3. Em 2020 queremos tirar do papel também o envio de cartas para unidades do sistema prisional e outros públicos. Já atendemos asilos, orfanatos, hospitais, população de rua e ajudamos parceiros na tentativa de facilitar a adoção de cães abandonados, entre outras ações.

2 pensou em “Uma carta e um abraço

  1. Guilhermo, quando surgiu essa polêmica a respeito do abraço do dr. Drauzio a Susy eu fiquei alarmada com a falta de sensibilidade das pessoas. Me lembrei da pesquisa que fiz e dos depoimentos para compor o livro biográfico de Franz de Castro Holzwarth. Franz não só ia aos presídios como também recebia em seu apartamento os prisioneiros que tinham cometido muitos crimes. Vale lembrar o Kringer, criminoso que se converteu por causa de um abraço e que era um dos piores criminosos em São José dos Campos na década de 1970. Aprendi muito com Franz, visitei penitenciárias, abracei criminosos. Aprendi que o abraço cura feridas. Você bem sabe disso, suas Cartas Perdidas são Abraços Encontrados.

  2. Caro, prezado e querido amigo. Fiz questão de dar um DEZ para o Dr. Dráusio Varela no programa ROBERTO MATIAS A HORA DA VERDADE na TVI Rádio e TV Imprensa no sábado dia sete de março por sua brilhante atitude de humanidade e respeito às pessoas. Concordo plenamente com o seu posicionamento. Forte abraço!

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