Palavras são como pássaros. Liberte-as!

Dou a minha palavra.

Podem perguntar para os meus amigos ou para o Julio, meu irmão. Quando moleque, eu tinha coração de capotão. Passava o dia todo na rua, vestido com a camisa 10 do Timão e tendo nos pés uma bola Dente de Leite, indo de campinho em campinho atrás de uma partida. Modéstia à parte, eu era bom de bola. Os clássicos contra o time da rua de baixo, no melhor estilo ‘golzinho de tijolo’, era digno de Copa Libertadores, tamanha era a rivalidade. Assim era, pelo menos, na nossa imaginação. E por falar em imaginação e fantasia, sonhava ser jogador de futebol e ganhar a vida fazendo gols, muitos gols alvinegros por aí. É, nada mal, não é? Mas…

Bom, faltou perna (e, vou admitir, futebol) para isso, para a felicidade da Fiel torcida corintiana, diga-se a verdade. Então, como a bola deixou de ser uma opção, o caminho foi ganhar a vida com as palavras. Primeiramente, falando de esportes. Depois, já vivendo a vida nas redações, escrevendo a respeito de temas variados.

Tomei gosto pelas palavras, por esculpir palavras, como faz o carpinteiro, por exemplo. Descobri, com o auxílio de mestres como o poeta Pablo Neruda (1904-1973), que as palavras são como pássaros, que fazem o ninho dentro do nosso peito. “A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei”, dizia Manoel de Barros, um dos gênios da nossa literatura.

Entre 2012 e 2013, com a ajuda daquela para quem endereço todas as minhas palavras, comecei a espalhar cartas por aí, em espaços públicos, contendo poemas, crônicas… enfim, palavras.

Nascia o projeto ‘Cartas Perdidas’, que já rendeu dois livros.

No entanto, eu posso dizer hoje que, finalmente, essas cartas se encontraram. Na última semana, com a ajuda de uma linda corrente do bem, formada por artistas, atletas e voluntários, reunimos aproximadamente 450 cartas de amor para Brumadinho. Doamos milhares e milhares de palavras, capazes de aquecer o coração, de alimentar a alma e curar feridas.

E essas mensagens serão entregues neste domingo às famílias.

Nos últimos tempos, quando eu ‘perco’ uma carta por aí, deixo no envelope a seguinte frase: ‘A carta contém centenas de palavras e e as palavras são como pássaros. Liberte-as’. Só nos resta responder à pergunta: seria o nosso coração uma gaiola ou um par de asas?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *