A verdadeira voz do Vale

De quem é a voz?

De quem é a voz impressa nas páginas de OVALE?

De quem é a voz que viraliza nas plataformas do jornal, o líder de alcance e engajamento nas redes sociais de todo o Vale do Paraíba, com mais de 150 mil seguidores? De quem é a voz que questiona supersalários, votações ‘vapt-vupt’ feitas na calada da noite, contratos suspeitos firmados pelo poder público, obras e promessas em atraso, farras com o dinheiro público?

De quem é a voz daqueles que, em nome da transparência, foram até os tribunais para garantir, por exemplo, que os taubateanos soubessem as patuscadas praticadas com dinheiro público por parlamentares?

Tem político comendo quatro rodízios por aí, enquanto outro lancha seis sanduíches e ainda encontra espaço para tomar refrigerante, suco e um café. Tem gente que se lambuza com o dinheiro do contribuinte. E, nesses casos, de quem é a voz que investiga, apura com isenção e exatidão, com a pluralidade obrigatória ao bom jornalismo?

De quem é a voz que, com ética e respeito ao contraditório e ao pluralismo da informação séria, expõe, traz à luz dos fatos o que os políticos tentam desesperadamente manter debaixo do tapete? De quem é a voz que brada, por vezes isoladamente, por jornalismo independente, apartidário e absolutamente imparcial?

De quem é a voz daqueles que lutam diariamente para trazer à luz o que é mantido às sombras? Afinal, a democracia morre na escuridão. E ainda há muita coisa escusa por aí, não é verdade?

Afinal, de quem é a voz?

Nestes tempos de fake news, quando este tão violento tsunami de boataria invade nossa timeline, o jornalismo crítico, imparcial e independente torna-se, absolutamente, imprescindível. Absolutamente.

Até porque, se existe imprensa séria, por outro lado e falando muito francamente, há também a imprensa de péssima qualidade, que ao invés de informar os leitores, busca confundi-los. Nas ruas de Taubaté, de forma folclórica, já se acostumou a denominar esta prática como ‘imprensa movida a rango’. Já tem até gente defendendo essa farra das viagens oficiais na Câmara — aquela paga com dinheiro público.

Como se vê, além das notícias falsas, o leitor ainda precisa driblar lobos travestidos em pele de cordeiro, veículos que na prática, de costas para o interesse público, operam como assessoria de imprensa.

Será que andam com a barriga cheia? Mas também, por outro lado, do que vale a voz que ninguém ouve? O leitor, atento aos fatos, já tem os ouvidos treinados para identificar a voz da credibilidade.

Por isso, para separar o joio do trigo, o jornalismo sério e crítico, que prima pela verdade acima de qualquer interesse, é imprescindível. Afinal de contas, quem se curva diante dos opressores, mostra o traseiro aos oprimidos.

OVALE, orgulhosamente, empunha a bandeira do jornalismo crítico e imparcial no Vale. Como dizem os mais novos, é um jornalismo ‘top’.  Afinal, “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que publique. Todo o resto é publicidade”. De quem é a voz? É sua, leitor. Ela é nossa.

Esta é a verdadeira voz de OVALE.

 

Pé de moleque, coração de capotão

Todo pé de moleque tem coração de capotão, chuta uma bola de meia e veste a ’10’ da Seleção, pintando fantasia no chão de terra batida e ilusão. E o coração de capotão bate-bate dentro do peito de um campinho qualquer. Bola? Bom, ela pode ser de papel, plástico, capotão, ser oval, redonda. Aceita-se qualquer esfera que — tão gentilmente — aceite a honra de ser a pelota da vez.

Vale desde a laranja caída, esquecida no fim da xepa na feira de domingo, até o colorido balão da festinha de aniversário, repleto de ar e esperança. É, como se vê, a bola nem mesmo uma bola precisa ser. Ali, naquele campinho, pouco importava se ela era de couro ou oficial, à prova d’água ou sei lá o que.

No coração de capotão, as bolas — todas elas — são feitas de uma mesma matéria-prima, prezado leitor. De pé de moleque.

Talvez por isso, ainda mantenha este espaço especial para as lembranças mais doces dos tempos em que a praça do Bom Conselho, em Taubaté, era palco do bate-bola da turma.

Isso, como meus fios de cabelo branco já denunciam, ocorreu no fim dos anos 80 e início dos 90 ali o bicho pegava! A vida naqueles tempos era definida na base do 10 minutos ou dois gols. No asfalto, com um tijolo ou um pedregulho, fazíamos as linhas, que, inutilmente, delimitavam o nosso campinho de sonhos.

Sim, inutilmente. Afinal, como limitar o espaço onde, no melhor estilo Coutinho/Pelé, a realidade tabelava com a nossa imaginação? Coitadas das linhas, tortas como as pernas de Garrincha e incapazes de nos parar, como os marcadores que estatelavam-se no chão atrás do Mané.

Naquele campo, fui o camisa 10. Me vesti de Pelé, Maradona, Zico, Neto e outros. Fui o maior craque do (meu) mundo de menino. Sem importar-me com os placares. Ou com o tempo — seja o tempo do relógio ou o tempo do céu. Podia ser debaixo do sol. Ou de chuva. E aí, vamos jogar? Não havia tempo ruim. Nem o primeiro e nem o segundo. E as traves eram feitas de tijolos ou chinelos, que de maneira polivalente também podiam ser usados como luva pelos goleiros.

A escalação do meu time tinha meu irmão Julio, Dimas, Fernando e Chiquinho (ele era da rua do Colégio, mas compramos seu passe por um punhado de balas). Esse era o ‘Time da Praça’. Mais tarde, chegaram nomes como o de Lu e Hil, Gordo e Sandrinho.

Ali, amizade e companheirismo trocavam passes com uma precisão germânica. Éramos um por todos e todos por um. O tempo, porém, é tão implacável quanto o matador diante do arqueiro.

No cronômetro da vida, todos crescemos. Cada um de nós pegou seu caminho. Uns foram pela ponta direita. Outros pela esquerda ou pelo meio. Há até quem já tenha deixado o campo de jogo, sendo substituído pela ausência.

Mas nem todo o tempo é capaz de apagar essas memórias. Afinal, determinadas partidas não têm fim. Elas continuam sendo jogadas aqui dentro do meu peito, tabelando com meu coração de capotão. Essas partidas imortais batem bola no campinho de terra batida chamado saudade.

 

O ‘7 a 1’ nosso de cada dia

Fora das quatro linhas, o Brasil deu vexame na Copa do Mundo. O 7 a 1 da vez não é culpa de Neymar, Tite, Paulinho, Thiago Silva, Marcelo, Alisson e companhia, que seguem fortes na luta pelo hexacampeonato, como um dos favoritos no Mundial, apesar da estreia bem decepcionante frente ao escrete suíço. Mas quem são os vilões da vez? Eles vestem a camisa do preconceito, machismo, discriminação e outros sentimentos que já deveriam ter recebido o cartão vermelho faz muito, mas muito tempo. Um dos lances mais comentados da Copa até o momento é um vídeo filmado por brasileiros com uma jornalista russa, assediada pelos torcedores. Nas imagens, eles aparecem ridicularizando a moça que parece não compreender o sentido das frases ofensivas gritadas, em coro e em português. O caso (ou melhor, a agressão), assim como outros similares, provocou revolta nas redes sociais — apesar de ter ainda quem tenha saído em defesa dos torcedores, com o argumento de que era só ‘brincadeira’.

O MPF (Ministério Público Federal) instaurou inquérito criminal para apurar se os brasileiros filmados assediando a mulher cometeram crime de injúria.

Requisitadas com rito de urgência e prioridade, as investigações vão permitir a identificação dos envolvidos neste episódio. Para a Procuradoria da República no Distrito Federal, a conduta dos brasileiros ofendeu a dignidade da mulher ainda não identificada, expondo-a à humilhação pública por meio de um comportamento “nitidamente machista e discriminatório”.

A investigação foi aberta tendo como base a Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, que define o comportamento preconceituoso contra as mulheres. O Brasil e demais signatários do acordo devem observar e zelar pelos direitos humanos e liberdades fundamentais em igualdade de condições entre homens e mulheres.

Os ministérios do Turismo e do Esporte se apressaram em condenar o comportamento dos brasileiros. Na Rússia, o ministro do Esporte, Leandro Cruz da Silva, disse que a atitude dos brasileiros filmados ridicularizando a moça envergonharam todo o Brasil, desdenhando da receptividade da população russa.

O comportamento dos torcedores foi condenável. E eles devem ser punidos. Mas fica uma pergunta: quem os escalou? Aqueles torcedores são parte de um Brasil ainda machista e discriminatório. É preciso, de uma vez por todas, dar um cartão vermelho para o preconceito..

 

Qual a nota da Seleção?

Brasil x Suíça pelo primeiro jogo da Copa do Mundo 2018. Lucas Figueiredo/CBF

Alisson (5): Poderia ter saído no lance do gol suíço.

Danilo (4): Tímido no apoio. Seleção perde muito sem Daniel Alves, ficando capenga, priorizando exageradamente o lado esquerdo.

Thiago Silva (6,5): Melhor que seu companheiro de zaga, atuação segura. No primeiro tempo quase marcou o segundo gol brasileiro.

Miranda (4): Mal posicionado, apesar do empurrão de Zuber.

Marcelo (6): Sobrecarregado. Ficou praticamente com a obrigação de organizar as jogadas da Seleção.

Casemiro (7): Melhor jogador brasileiro. Saiu após levar cartão amarelo, com a equipe brasileira sentindo muito a sua ausência.

Willian (5,5): Sem companhia pelo lado direito. Arriscou e tentou criar situações, mas não esteve inspirado.

Paulinho (5): Quase abriu o placar em uma bobeada da defesa suíça, infiltrando-se, como é sua característica. Caiu muito no segundo tempo e saiu para a entrada de Renato Augusto.

Coutinho (6,5): Brasileiro mais lúcido no terço final do campo, apesar da queda de rendimento na segunda etapa. Fez belo gol em uma jogada característica. Perdeu, no entanto, uma boa chance depois.

Neymar (5,5): Visivelmente abaixo da condição física, sem ritmo de jogo. Não se escondeu, mas sofreu com a forte (e por vezes faltosa) marcação da Suíça. Mostrou-se irritadiço.

Gabriel Jesus (4,5): Atuação fraca do atacante do Manchester City, artilheiro da era Tite. Ficou devendo.

* Substituições
Fernandinho (5): entrou no lugar de Casemiro, com atuação discreta. Ainda arriscou chute de fora da área, mas com deficiência.

Renato Augusto (5,5): no lugar de Paulinho, entrou para melhorar o toque de bola, articular jogadas, e retomar o domínio no meio-de-campo. Melhorou a chegada ao campo suíço.

Firmino (5): Entrou no fim e teve uma ocasião de gol, mas falhou na definição.

Tite (5): Seleção sentiu o gol suíço, ficando atordoada em parte do segundo tempo. Substituições no estilo ‘seis por meia dúzia’ não surtiram efeito.

Silêncio de ensurdecer o Maracanã

Dia 18 de outubro de 1964.

O Maracanã, o maior templo do futebol, está pintado de Fla-Flu. A bola desfila pelo tapete verde à procura das chuteiras imortais, deixando hipnotizados os 136.606 torcedores apaixonados. Por 90 minutos, o Rio para. Ainda no primeiro tempo, após passe pelo meio da zaga, Ubiracy recebe e empurra para a rede rubro-negra: 1 a 0 para o Flu. Festa pó de arroz.

Gol! Literalmente, gol de cinema, de Canal 100. Aos 22 anos, o jovem negro calava o Maracanã. “O silêncio da torcida do Flamengo no gol de Ubiracy foi mais ensurdecedor do que a comemoração da torcida tricolor”, escreveu na época Nélson Rodrigues, fanático torcedor do time das Laranjeiras. Com o gol, Ubiracy foi alçado instantaneamente aos status de herói. Ao olimpo. Ao Panteão da bola.

O Flu, embalado, seguiu rumo ao título carioca, com um timecheio de craques, como Carlos Alberto Torres e Didi. Era tempo de fama. Calar o maior estádio do mundo parecia ser a especialidade do jovem atacante. Um ano antes, na partida final do torneio de aspirantes, fez o gol do título contra os flamenguistas, diante de 177 mil torcedores ensandecidos.

Mineiro de Leopoldina, Ubiracy, em seus tempos de glória, conseguiu ofuscar até mesmo o rei, outro filho de Minas Gerais, nascido em Três Corações.

“O público veio ver Pelé, mas viu Ubiracy”, dizia a manchete do jornal após a vitória de 4 a 2 do Fluminense sobre o Santos no Pacaembu pelo Torneio Rio-SãoPaulo de 63. Aquela noite, fez dois gols. Na sequência da carreira, o atleta atuou ainda por equipes do México, onde se tornou ídolo, e Equador. Tempo em que futebol era paixão.

“A gente jogava por amor”, dizia Ubiracy. Mas a fama passou rápido. E 45 anos após ser aplaudido no Maracanã, ele, hoje, vive em silêncio. Aos 66 anos, Ubiracy quase não sai de sua casa, localizada no Parque Três Marias, periferia de Taubaté. Vive com o dinheiro da aposentadoria: cerca de R$ 460. Não conta as suas histórias para os vizinhos, com medo de que pensem que está fantasiando. “Aqui, ninguém me conhece, quando está no auge, tem aplausos, depois, ninguém se lembra de você”, contava. Para aquietar a saudade, lê velhos recortes de jornal.

A memória, seu bem mais valioso, está ameaçada. Em 2009, médicos diagnosticaram que Ubiracy sofre de mal de Alzhei- mer. Às vezes, quando a saudade apertar o peito, senta-se no quintal, só, com os recortes à mão. Por alguns instantes, volta aos tempos de glória. Parece ouvir o coro de 150 mil almas.

Depois, retorna ao presente.

O diagnóstico abateu Ubiracy. Crê que resta-lhe apenas aguardar o tempo passar, até o apito final. Esperar pelo seu minuto de silêncio. Um silêncio capaz de ensurdecer o Maracanã.

** Em tempo: texto publicado no livro Cartas Perdidas em um Mar de Palavras, de 2015. Em maio daquele ano, pouco depois do lançamento, Ubiracy saiu de campo definitivamente. Não houve minuto de silêncio no Maracanã.

Vai ter Copa? ‘7 a 1’ político e o futebol

O ‘7 a 1’ político, disputado no dividido, esburacado e enlameado campo brasileiro, entrou de sola, com todas as travas da chuteira, nas canelas de uma paixão nacional: o futebol. O país do futebol, pentacampeão do mundo, está fracionado também nas arquibancadas do esporte bretão, da mesma maneira que apresenta-se dividido nas arenas do Fla-Flu político. A Copa do Mundo de 2018, disputada na Rússia, terá início nesta quinta-feira e aqui, na terra de Pelé, Ronaldo, Zico e companhia, boa parte da população, simplesmente, não liga a mínima. Zero. Ou melhor: 0 a 0. O interesse do brasileiro em relação ao Mundial foi chutado para a bandeirinha de escanteio. É o que revela pesquisa divulgada pelo Datafolha nesta terça-feira: 53% da população não estão preocupados com o maior evento esportivo do mundo, mesmo com a equipe comandada por Tite e Neymar estando entre as favoritas para a conquista.

Afinal, vai ter Copa?

Em meio à profunda crise moral, ética e política que tanto assola o Brasil, deixando estatelada no chão a esperança como se ela fosse só mais um João para o endiabrado Mané Garrincha, o anjo das pernas tortas, uma descrença geral toma conta de parcela considerável da população.

A corrupção, para os ‘torcedores’ desta ala brasileira, deu um cartão vermelho na paixão pelo jogo. E vale lembrar, a corrupção que assola os ambientes políticos e o mundo da bola, como o Fifagate e a CBF deixam bem claro. “O meu desinteresse pela Copa é por vários motivos e um deles é a corrupção. Em todo o lugar que você está, a corrupção está entrelaçada em tudo, principalmente no futebol. É uma coisa que você vai se chateando”, disse o estudante Tiago Franck, de 25 anos.

O uso da camisa verde e amarela da Seleção em manifestações, além da absoluta certeza de que ‘há outras prioridades’, agrava essa crise com o torcedor. Tantas vezes usado politicamente, o futebol agora parece estar sofrendo por tabela.

É justo, porém, que a seleção de corruptos, além de sugar os cofres públicos, ainda roube do brasileiro uma de suas paixões, uma parte tão integrante de sua cultura?

Essa partida, entre o 7 a 1 político e a paixão pela Seleção, é travada no peito de cada brasileiro. Quem ganhará?

Certo é, no dia em que o brasileiro cobrar de seus políticos da forma que exige de seus craques, a corrupção certamente vai pendurar as chuteiras.

Viva a democracia viva do Brasil

Manifestantes protestam na Esplanada dos Ministérios contra preço dos combustíveis.

Diante daquele paciente acamado, já bastante debilitado, a junta médica analisa detalhadamente todos os exames disponíveis, colocados um a um sobre a mesa, a fim de traçar uma radiografia completa, um diagnóstico preciso, e identificar qual a melhor estratégia para combater a doença. Aquela jovem doente está deitada eternamente em uma maca (ou seria um berço esplêndido?) ao som de um mar de caminhões parados e à luz de um céu profundo, tão profundo quanto a crise moral, política, ética e econômica brasileira. Qual é o nome dela? Democracia brasileira, informa o prontuário.

Combalida, esta jovem tem enfrentado uma série de percalços ao longo dos últimos anos, a ponto de já haver quem a coloque em xeque. Com um pé na cova. Será? Fato é que ela está adoecida, infestada por parasitas engravatados que, protegidos pelo foro privilegiado e outras tantas regalias, sugam o sangue de uma nação tão marcada por injustiças, desigualdade e miséria de toda a sorte.

Nos últimos anos, a sociedade brasileira assiste com perplexidade o tsunami de lama que varre as mais altas esferas da República, os mais altos escalões do poder, revelando nefastos esquemas de corrupção que desviam bilhões e bilhões de reais dos cofres públicos. E esse show de horrores, encenado no Distrito Federal e em tantas outras Brasílias espalhadas por aí, gerou um desabastecimento da esperança do eleitor, quase uma ‘pane seca’ na confiança do brasileiro — isso fica claro quando quase um terço do eleitorado optou pelo voto em branco, anulou ou absteve-se na eleição de 2014.

Em meio à crise de crença que o país enfrenta, já desde 2013 há nas ruas — e principalmente nas redes, novas arenas modernas — grupos que defendem a necessidade de uma intervenção militar, mesmo após a barbárie vivida pelo Brasil durante a ditadura — que começou com uma intervenção temporária e durou sombrios 21 anos (1964 até 1985), com centenas de assassinatos e a prática de tortura como política institucional, corrupção, censura à imprensa, restrição aos direitos políticos e às liberdades individuais. Não aprendemos a lição?

A intervenção militar não encontra guarida na Constituição Federal, no Estado de Direito e é ainda uma ofensa à história do Brasil. Mas é democrático. O pedido pela intervenção militar só é manifestado e ouvido porque vivemos em uma democracia. É como diz aquela frase: posso não concordar com o que você diz, mas defendo até a morte o seu direito de dizer o que você pensa.

Se a democracia brasileira está doente, a intervenção militar é o remédio?

Dar esse medicamento à democracia brasileira é como mandar o jovem paciente para a câmara de gás para curá-lo de sua doença.

A democracia, é claro, de ajustes. Que alteremos o remédio então. Ou troquemos o médico. Mas mantê-la viva é imprescindível. Inegociável. Que a jovem democracia brasileira se restabeleça distante dos porões do autoritarismo.

Afinal, a democracia (e com ela a liberdade) morre na escuridão.

O rei está nu em Brasília

Presidente da República, Michel Temer embarca na Aeronave Presidencial VC1 após Solenidade de Abertura Oficial da 84ª ExpoZebu. Foto: Marcos Corrêa/PR

Fugindo da Justiça, um bandido esconde-se em um reino e decide fingir ser um alfaiate, para manter-se oculto naquelas novas terras. E logo o forasteiro, sempre afeito a golpes e tramoias, espalhou aos quatro ventos que, de forma quase mágica, havia inventado uma roupa espetacular, inovadora, que só as pessoas inteligentes poderiam ver. Foi um alvoroço só, com aquela história correndo à boca miúda por todo o reino, chegando até aos ouvidos vaidosos do rei. O monarca então ordenou que o alfaiate fosse chamado ao palácio, onde encomendou um traje de gala feito com esse tecido nobre visível apenas pelos sábios. E o farsante, dando corda aos devaneios palacianos e sempre atento para ganhar aquele dinheiro fácil, topou e recebeu um baú com os materiais necessários para confecção da roupa — tecidos nobres, rolos e rolos de linha de ouro, entre outros itens.

E o bandido colocou-se diante do tear, fingindo ali trabalhar arduamente para criar o traje real.

Todos que por ali passavam, indagados pelo alfaiate malandro, afirmavam que a roupa estava ficando exuberante, pois ninguém queria parecer tolo, já que o traje só poderia ser visto por pessoas inteligentes. Mas e quando aquela encomenda ficaria pronta? O rei, que já estava impaciente, convocou o tecelão ao castelo. O bandido, então, levou ao rei o novo traje real, pondo-o sobre a mesa. ‘Que linda!’, exclamou o dono da coroa. Todos ao redor, temendo o estigma de burro, seguiram na mesma linha, elogiando o trabalho feito pelo costureiro.

O rei, então, preparou uma festa de grandes proporções no reino e usou sua roupa invisível. No meio da parada, vestindo apenas esse novo traje, o monarca foi interpelado por uma criança, que gritou: o rei está nu!

Esse conto de autoria do dinamarquês Hans Christian Andersen foi publicado em 1837, mas é atual no Brasil de Michel Temer. Em Brasília, capital de palácios decorados por devaneios e delírios do poder, ocupados por uma bajuladora corte fisiológica, o rei está nu. A crise de abastecimento provocada pela paralisação de caminhoneiros deixa claro que a sociedade não reconhece a autoridade de seu presidente.

Trocando em miúdos, pode-se afirmar hoje que a palavra de Temer e nada têm o mesmo peso.

Ontem, em uma reunião com a cúpula do Congresso Nacional, Temer pediu união. Nos bastidores, parlamentares já decretam o que todos já sabem: o governo terminou. Não precisa nem mesmo ser tão inteligente assim para ver. O rei está nu. E fica a dúvida: além de monarca, seria o emedebista também um alfaiate?.

 

A casa que mora dentro de mim

Rua David Maria Monteiro Gomes, nº 150.

O GPS analógico do meu coração, invariavelmente, indicava este endereço aos meus pés cansados quando eu precisava recalcular a rota. Botar a casa em ordem.

Ali, naquele sobrado, vivia uma parte de mim.

A casa dos meus avós paternos sempre foi o meu segundo lar.  Lá, o relógio andava sem nenhuma pressa, a bordo do carro de boi que habitava o quadro preferido da Dona Nívia, que enfeitava a antessala. Mas jamais faltou tempo para os netos.

E não havia só tempo. Havia café. O melhor de todos, uma marca da minha avó. Além do mobiliário, que se mantinha inalterado década após década, havia também sempre uma cama, um cobertor, um agasalho, um abraço, uma comida deliciosa e uma palavra de conforto. Ah, e na despensa, Coca-Cola, Bis e bala Paulistinha. E também, é claro, tinha boas histórias, que o Doutor Hélcio, meu avô, contava com um brilho nos olhos inconfundível. Adorava sua biblioteca, com mais de 3.000 livros. “Um dia ainda caso com essa mulher!”, ele costumava dizer, só para provocar minha avó.

Ali, desde que me conheço por gente, morava minha família. Minhas lembranças.

Era o ponto de encontro. Nosso lar, onde meus irmão Julio, Marina e Malu crescemos.

Recordo-me que foi lá, ainda menino, que caí em uma roseira e minha avô, com doçura e zelo, cuidou de mim, tirando todos os espinhos. E me ensinando que o perfume da rosa, cuja cor ela tanto amava, valia o risco. Cai e levanta-se.

Lembro-me com carinho de quando fazíamos caça ao tesouro, espalhando pistas pela casa e partindo em busca do prêmio, em geral feito de chocolate.

No Natal, sempre celebrado lá, o saco de presentes era escondido também e tínhamos que procurar por ele. Minha irmã diz, inclusive, ter visto o Bom Velhinho certa vez, por isso encontrou as prendas tão rapidamente… uhum…

Mas a principal memória que guardo dali é que antes de irmos para a escola, que ficava ali pertinho, minha avó nos colocava diante de um quadro com a imagem de Jesus e rezava. Depois, fazia um sinal da cruz no nosso peito e dizia que aquilo nos dava uma armadura invisível, nos tornávamos soldados de Cristo. Até hoje acredito piamente nisso. E a sala da minha casa tem um quadro igual aquele. E antes de sair de casa, mantenho esse mesmo ritual.

Entre 2014 e 2015, Dona Nívia e Doutor Hélcio decidiram-se mudar pro anda de cima.

E agora? Agora, a casa nº 150 da rua David Maria Monteiro Gomes está à venda.

Mas afinal, do que mesmo ela é feita? De tijolos, cimento e tinta? Ou amor? Lembranças? De Julio, Marina, Malu, Fernanda e tantos outros?

Por isso, não há motivo para lamentações. Afinal, aquela casa vai sempre existir. Vai agora apenas mudar de lugar.

Depois de vivermos nela, porém, é hora dela viver dentro de nós.

Então que seja bem-vinda.

Vó, o café já tá na mesa. Tem pão quentinho. Vô, vou ali na biblioteca e já volto. Conta aquela história pra mim? Sem pressa, a casa é de vocês.

Caminhões de R$ 0,20

Junho de 2013. Após o anúncio do reajuste na tarifa do transporte público na capital paulista, uma série de manifestações toma as ruas da maior cidade brasileira. Após a violenta reação policial, os protestos ganham força e, rapidamente, feito rastilho de pólvora, se espalham pelo estado e por todos os cantos do país. Inicialmente restrito à questão dos ônibus, o movimento logo aglutinou uma variedade incalculável de bandeiras, como, por exemplo, combate à corrupção, reforço no combate ao crime, aposentados, intervenção militar, mais saúde e educação, contra o governo Dilma Rousseff (PT), então presidente, entre outros. Era a chamada voz das ruas, que, depois de anos e anos sufocada no peito, bradou alto, depois de encontrar no reajuste nas passagens de ônibus um pretexto para protestar. Não era, como dizia um dos milhares e milhares de slogans usados durante o movimento, só por R$ 0,20. Mas e agora, cinco anos depois, é apenas pelo preço do combustível?

Óbvio que não.

A paralisação organizada pelos caminhoneiros, assim como em 2013 aconteceu com os R$ 0,20, transporta em sua carroceria um sentimento que está engasgado no coração brasileiro, castigado por anos e anos com escândalos de corrupção, precariedade nos serviços, injustiças de toda a sorte, além de uma crise econômica profunda, que ceifou milhões de empregos e rebaixou o poder de compra da população.

Em meio a esse caldeirão, nesse copo cheio de tanto inconformismo e descrença, o aumento no preço do combustível — mais um aumento — foi a gota d’água,a exemplo de junho de 2013. Trata-se de um fato catalisador, que abre a porteira da indignação.

Cinco anos atrás, além da revogação do aumento na tarifa dos ônibus, o governo anunciou uma série de medidas, em resposta às vozes das ruas. Entre elas estão, por exemplo, a medida que tornava corrupção crime hediondo, e também o arquivamento da PEC que propunha proibir o Ministério Público de investigar.

Como em 2013, há um vácuo de representatividade. Isso explica, por exemplo, a falta de uma voz que centralize a inconformidade latente. Ou o fato dos caminhoneiros que estão nas estradas do país terem ignorado o acordo de entidades da categoria firmado com o governo do presidente Michel Temer (MDB).

Aos poucos, outras vozes se levantam, orbitando a pauta dos caminhoneiros. Ao discursar na sexta-feira, Temer deixou claro que, assim como em 2013, o governo ainda não compreende os brados das ruas. Não foi por R$ 0,20.E hoje não é só pelo preço do diesel ou pelos caminhões. Na carroceria, milhões e milhões de caminhoneiros transportam uma carga pesada: o grito sufocado do povo brasileiro.