O menino que fui nas eleições que já se passaram

Dia 5 de junho de 1989.

Com os olhos vidrados na tela de nossa surrada tevê, aparelho que transportava um planeta inteiro para a sala da minha casa graças àquelas granuladas imagens em preto e branco, o menino que eu fui assistia paralisado a cena histórica: de peito aberto, desarmado, um jovem estudante desafiava uma coluna de tanques de guerra na praça da Paz Celestial, na capital chinesa. Naquele dia, que entrou para os registros da História como o ‘Massacre da Praça da Paz Celestial’, milhares decidiram sair às ruas de Pequim e outras cidades para protestar contra o regime, a corrupção e a crise econômica, agravada pelos altos índices de desemprego e de inflação. O jovem destemido que parou os tanques, apelidado de ‘rebelde desconhecido’, teve sua imagem vista em todo mundo.

O seu paradeiro, assim como a sua identidade, ainda são mistérios até hoje, 29 anos depois.

Naquele ano, marcado também pela queda do muro que separou a Alemanha em duas por longos 28 anos, o menino que eu fui fez, aos 8 anos, a sua primeira cobertura eleitoral. Era um trabalho escolar, na disciplina de Estudos Sociais. Depois de um hiato de 29 anos, os brasileiros voltariam a votar para presidente. Com um caderno nas mãos, lembro-me de que eu percorri a pé, sozinho, comitês de candidatos, então espalhados pela Taubaté da minha infância. Imagens esparsas, que resistem à memória fraca, dizem que havia uma muvuca, jingles e distribuição de santinhos, além adesivos e camisas dos candidatos. Ah, e muitas promessas.

Vinte e nove anos depois, era o momento do eleitor reencontrar-se com a democracia. Depois do término do nefasto período ditatorial, em que liberdades haviam sido cassadas e pessoas caçadas, perseguidas, torturadas e mortas brutalmente, era tempo de crise econômica e descontentamento profundo e crescente com a política — o Congresso e o presidente José Sarney, do MDB, tinham alto índice de rejeição no país.

Agora, para minha surpresa, 29 anos depois, o menino que eu fui bateu à porta da minha consciência. Depois de ver, em 1989, mais um capítulo da trama ‘O salvador da pátria’, o garoto me procurou por essas bandas, de 2018, e com uma expressão pra lá de confusa pediu-me para entrar. Nem bem adentrou a sala dos meus pensamentos, já falou pelos cotovelos a respeito daqueles acontecimentos decisivos de 1989.

De um lado da disputa eleitoral, ele dizia, havia um candidato de um partido nanico, que prometia caçar marajás e livrar o Brasil da ameaça comunista. Do outro, um homem chamado Lula, que dizia a todos ser diferente dos demais, porém que os adversários diziam estar preso a uma companheirada que poderia dar PT no Brasil.

Tentei explicar ao menino que fui que, como a história mostrará a ele, salvador da pátria só mesmo na novela. E que, 29 anos depois, ao invés de derrubar muros e erguer pontes, o Brasil está dividido. E o rebelde desconhecido? A luta contra o autoritarismo segue imprescindível. Nos despedimos com um abraço. Antes de ir, ele então me perguntou: quando é que o futuro vem?.

 

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