Nas ruas de São Francisco

Depois de muito tempo distante, meus olhos voltaram a percorrer a cidade onde nasci e fui criado. Disposto a explorar este retorno interior, percorri ruas e avenidas de Taubaté na manhã deste domingo para observar a vida passar (e achar um bom café). Encontrei muitas as portas fechadas. E fui andando, andando, andando… e vendo que — implacável — o tempo deixou marcas profundas em minha terra.

Onde está, afinal, a velha residência da praça Santa Terezinha, com arquitetura alemã, que quando garoto eu imaginava ser a casa da Branca de Neve? Virou farmácia. E aquele prédio lindo no centro, um ícone taubateano? Tornou-se igreja. Quantas igrejas e farmácias surgem a todo instante. Serão elas suficientes para acudir a sociedade adoecida?

Pensei com meus botões: eu conheço a cidade a ponto de enxergar nela além do que os olhos veem. Vejo o que já não mais está lá. Será que ela, após tantos anos, me vê também? Me reconhece?

Fui até a Catedral de São Francisco das Chagas, na praça Dom Epaminondas — onde nasceu Taubaté, batizada originalmente como São Francisco das Chagas de Taubaté, em 1645, mesma data da construção da igreja. Sentei-me no último banco.

Hoje, a missa era especial. Havia uma cerimônia de batismo coletivo.
Quantas crianças já foram batizadas ali? Quantas vidas se cruzaram? Quantos casamentos Deus, com a aliança do espírito santo, já abençoou debaixo daquele teto, repleto de afrescos? Fiz uma prece.
Sai antes do fim da missa. Tomei um café e, antes de ir pra casa, fiz mais uma prece na igreja que foi palco do meu próprio batizado, na praça Santa Terezinha.
Voltando para casa, me dei conta de que a palavra batismo esteve no cerne do meu dia. Batismo: é o primeiro sacramento do cristianismo, que apaga o pecado original de quem o recebe e a este confere o caráter de cristão.
Isso me lembrou de um trecho da história de São Francisco.
Há um belo trecho, em que ele está na cadeia e começa a ler o evangelho. E percebe que é preciso voltar a ver com o coração.
Confira:
“Mas é possível ver com o coração?”, questionou Francisco.
“Basta amar tudo aquilo em que seus olhos pousarem”, respondeu seu colega.
“E se o que eu olhar for injusto e impuro?”, perguntou Francisco.
“O importante é que seu olhar seja puro”, respondeu o prisioneiro.
E me lembrou também que todo dia é um renascimento.
E que as ruas por onde andei, eu levo no meu olhar.
* Abaixo trecho do poema “Nas ruas por onde andei”, que estará no próximo livro do editor-chefe de OVALE.

“Nas ruas por onde andei
Tentando me encontrar
As pegadas que deixei
Eu bem sei
Já não estão lá
Nas ruas por onde andei
Ou na areia à beira mar
Nem o vento bem eu sei
É capaz de apagar
As ruas por onde andei
Eu levo no meu olhar”

1 pensou em “Nas ruas de São Francisco

  1. Sabe, Guilhermo!A sua paixão pela escrita me encanta!Gosto do cronista que toma as mãos do leitor e o leva a percorrer com ele todos os meandros do seu texto.Vai desnudando a paisagem,e cobrindo aquilo tudo com a emoção do momento!É linda essa maneira de escrever!
    Parabéns!

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