Nas ruas da cidade que foi minha

Passo a passo, minhas pegadas ficam demarcadas no compasso do tempo — mesmo nesse tempo tão repleto de contratempos, de notas dissonantes e fora de tempo, nesses tempos de pandemia.

A pé, depois de tanto tempo em isolamento, percorro passo a passo as veias abertas da velha cidade que foi minha, mas que, de concreto, já não é mais.

Ao caminhar pela minha terra natal, a já quase quatrocentona Taubaté, os meus pés acariciam a face oculta da rua e, pisando de leve sobre os ladrilhos gastos pelas invernais estações do tempo e melancolia, me levam a passear pelas alamedas da memória. E, nesse entroncamento entre ontem, hoje e um amanhã à espreita, ali na esquina, parto logo cedo em busca de um café e jornal, enquanto meu olhar espanta-se diante das mudanças profundas impostas pelos ponteiros da vida no cenário da terra onde nasci e cresci. Mas onde está a cidade que foi minha?

Na praça Santa Terezinha, ali tão perto de casa, havia um casarão construído respeitando a arquitetura alemã, assemelhando-se a uma daquelas simpáticas cabanas dos contos de fada — meus irmãos (Marina e Julio) e eu, por sinal, por anos acreditávamos que ali viviam a Branca de Neve e os sete anões. Mas, o imóvel hoje ‘era uma vez’. Tornou-se pretérito, dando lugar a uma insossa e tristonha farmácia de um tão combalido azul, apesar de ainda ser conjugado no presente dentro de mim. Ele segue de pé em minha lembrança, enquanto eu sigo a pé.

E caminhando daqui para lá e de lá para cá, encontrei portas fechadas, além de outras farmácias e igrejas, como a que ocupa hoje o espaço daquele antigo cinema onde eu quase nasci, no meio de uma sessão noturna de sexta-feira em 1981.

Minha mãe conta que em cartaz estava o filme “Apertem os cintos, o piloto sumiu”. Admito que eu prefiro a versão paterna, de que a telona do Cine Palas exibia ‘O iluminado’ naquela noite de 30 de janeiro.

Mas, voltando ao trailer desta minha vida em cartaz, percorro a pé uma cidade que muda a todo o momento.

E tem remédio?

Esta é a receita do ‘progresso’, diz o outro na prece do desenvolvimento. Seria saudosismo? Não sei. Afinal, o que é bom mesmo para a memória?

Esqueci. Que pecado. Só me lembro que…

A pé, após tanto tempo afastado, eu percorro passo a passo as veias abertas da cidade que foi minha, mas que hoje, de concreto, já não é mais.

Depois de tantos anos, porém, a reconheço onde ninguém mais a vê, no contrapé da obviedade erguida à vista de todos, tijolo por tijolo.

E ela me reconhece também?

Aposto que quando me vê, ali naquelas ruas, pensa o mesmo.

E nessa esquina da cidade que foi minha e hoje, de concreto, já não é mais, os meus pensamentos guardam morada na sombra de uma jabuticabeira que, após anos de frutos, hoje dá saudade.Uma saudade doce, colhida na pontinha do pé.

O tempo todo.

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