Dia da Saudade

Férias: meus primos Santiago e Bruno, eu e meu irmão Julio

Dia 3 de março de 2018.

É hoje. Ela completa 18 anos, chega à maioridade. Nos conhecemos bem. Eu, que a vi nascer e crescer forte e vigorosa, posso dizer que estaremos sempre juntos. Afinal, eu não existo sem ela e a recíproca é verdadeira. Somos parte integrante um do outro. Sou sua morada e sinto que busco refúgio nela também, principalmente em noites como a de hoje, solitárias e chuvosas. Sem ela, eu já não me reconheceria mais no espelho, de tão entranhada que está em mim.

Hoje é aniversário da saudade. E não se trata de qualquer uma não. É especial.

Nesta data, a saudade do meu primo Bruno, irmão que a vida me deu, se torna adulta. Ele morreu feito um passarinho, aos 17 anos, um dia antes de chegar à maioridade (o que aconteceria em 4 de março de 2000), depois de anos de uma luta árdua e corajosa pela vida. Quando o perdi, ela nasceu.

É inacreditável pensar que neste fim de semana, em que nossa família recorda a data de vida e morte do Bruno, passarei a ter tido mais a companhia de sua ausência do que de sua presença. O tive comigo por 17 anos e 364 dias. Sinto sua falta há 17 anos e 364 dias.

No começo, quando ela surgiu com força incontrolável, lembro-me de que a saudade trazia a tiracolo uma revolta raivosa. Por quê? Esse questionamento martelava e martelava a sua cabeça e, por mais que a pergunta fosse repetida à exaustão, a resposta não vinha. E é melhor acostumar-se, porque ela não virá jamais. O que se avizinha aos poucos é a sensação de que o tempo faz, de alguma forma, os sentimentos se acomodarem dentro de você. Adaptam-se para que você, mesmo ferido, siga em frente. E assim, a revolta vai perdendo lugar aos poucos, abafada pela roda viva da rotina, transfigurando-se em uma espécie de aceitação inaceitável.

E fica a saudade.

Que por vezes é amarga pra chuchu, embrulha o estômago e preenche tudo com um vazio contundente, pontiagudo e severo. Já em outras ocasiões, ela é doce, como nas lembranças das férias escolares, dos jogos de botão ou quando passarinhos visitam a janela do meu quarto sempre que sonho com o Bruno.

Nessa data, em que presença e ausência se encontram em mim, chego à conclusão de que nós somos co(R)pos meio cheios e meio vazios. Do que?

Do que carregamos conosco, no alforge da caminhada da vida, e do que deixamos pelo caminho. Ao pensar sobre meu irmão de coração, percebo que é possível manter-se presente mesmo quando ausente.

Você tem estado presente? Ou tem sido ausente?

A cada dia decidimos, ao levantar da cama, se viveremos um dia a mais ou a menos. Se nós vamos preencher de vida a metade vazia do co(R)po ou acabaremos por nos embriagar do nosso próprio veneno. Sinceramente, não sei.

Só sei que é hoje. Dia 3 de março de 2018. Se eu nasci em 30 de janeiro, dia da saudade, ela renasce em mim todos os dias. E hoje ela completa 18 anos. Dezoito anos de uma saudade que já nasceu grande e hoje é de maior.

Maior do que nunca.

João 11:25

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