Nuvens no céu, jogo de dados e Covid na urna

“Política é como nuvem, Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Apesar de chavão, a frase de Magalhães Pinto (1909-1996), velha raposa da política mineira, é cirúrgica e atual, ainda mais em 2020, quando um dia dura uma semana em meio à pandemia da Covid-19.

Tudo pode mudar abruptamente neste Brasil solapado por três crises severas: a Covid-19, a sua consequência avassaladora na economia e Jair Bolsonaro.

E como anda São José?

OVALE, dando início à maior cobertura de sua história, largou na pole, publicando com exclusividade a foto das nuvens que pairam sobre o céu da política joseense. O levantamento OVALE/ Paraná Pesquisas, publicado no último dia 13, mostrou quais são as cartas sobre a mesa.

Revelando a fotografia, observando os negativos, lendo nas entrelinhas, é possível verificar o embate isolamento e flexibilização como o pano de fundo.

Após mais de três meses de quarentena, apesar dos apelos feitos pelas autoridades científicas, o apoio ao distanciamento social, visto no início do processo, foi minado pelo discurso do Palácio do Planalto — o capitão apostou na artificial dicotomia saúde versus economia.

Em abril, pesquisa da prefeitura mostrou apoio de 82% da população às medidas de isolamento. Dois meses depois, levantamento de OVALE mostrou uma mudança drástica: 64,5% dos joseenses a favor da reabertura do comércio. Isso mesmo com a explosão no número de casos e mortes, em um país que já enterrou mais de 55 mil vidas ceifadas pela Covid-19.

Essa alteração, que também influenciou governantes, permeou a pesquisa. Defensor maior da reabertura, o presidente é avaliado em São José como ótimo ou bom por 39,4%. Bolsonaro é aprovado por 51,6%.

Principal antagonista de Bolsonaro, o governador João Doria (PSDB) segue por um caminho contrário: sua gestão foi reprovada por 50,4%. Atento aos humores da sociedade, o governo Doria recalculou a rota devido à queda de avaliação. Se em maio a palavra da vez era lockdown, ela foi substituída por ‘reabertura consciente’ no mês de junho.

Em São José, o prefeito Felicio Ramuth (PSDB), que já em abril iniciou a defesa de uma reabertura gradual, teve aprovação de 69,9% na pesquisa.

O tucano lidera a corrida pelo Paço, com 40,8% na intenção de votos — na pesquisa estimulada.

A defesa da flexibilização trouxe, por ora, dividendos políticos ao prefeito, favorecido também pela ausência de um nome forte ligado ao presidente, que pudesse ‘herdar’ o ativo, e ainda pela falta de uma sombra, de um adversário que — ao menos hoje — mostre-se competitivo.

Com o aumento no número de casos e mortes de Covid-19, Felicio atenuou o discurso e adotou novas medidas, como restringir o comércio não-essencial no fim de semana.

Revelada a foto do céu de São José, resta agora saber como as nuvens se movimentarão até a eleição e qual será o impacto da pandemia nas urnas.

O silêncio de um coração que parou de bater

Um.

Um amor.

Um amor de 40 anos.

Antonio e Glória conheceram-se nos tempos de faculdade, no Rio de Janeiro. Juntos, criaram uma linda família, com Felipe e Gabriela, filhos que lhes deram as netas Giovanna e Sophia.

O coração de Antonio Zumpichiatti, fanático pelo Fluminense, parou de bater.

Ele é só um número?

Uma.

Uma cozinheira.

Uma cozinheira de mão cheia!

Dona Francelina Ferreira, 77 anos, tinha uma forma especial de demonstrar carinho. Dedicada, tinha um superpoder: “Sabia fazer a melhor polenta frita do mundo”, conta a neta Suelen.

O coração da Francelina, moradora de Santa Isabel, parou de bater. Ela é só um número?

Um.

Um ás.

Um ás do baralho.

O paulistano João Tavares, 81 anos, era considerado o melhor jogador de baralho de todos os tempos. Porém, há algo que ele fazia melhor: ser marido, pai e avô. Descia morros em caixas de papelão com os filhos, assistia filmes com os netos.

O coração do João, o ás do baralho, parou de bater.

Ele é só um número?

Uma.

Uma energia.

Uma energia vital.

Era o que movia a taubateana Erika Regina Leandro dos Santos, 39 anos. Uma batalhadora, aprendeu cedo a encarar a vida de frente, sem jamais deixar de sorrir. Era aquela pessoa que, em cinco minutos, tornava-se a melhor amiga de todos.

O coração de Érika, a dançarina da alegria, parou de bater.

Ela é só um número?

Um.

Um coração.

Um coração alvinegro.

Doutor, eu não me engano, o coração do Seu Arnaldo Rodrigues Filho era corintiano. Mas, aos 74 anos, também cabia neste peito espaço para a caridade, lá na igreja de Santa Teresinha da Saúde, em São Paulo.

O coração do Arnaldo, fanático pelo Timão, parou de bater.

Ele é só um número?

Um.

Um Pai Nosso.

Um Pai Nosso, uma Ave Maria.

Religiosa, Gracinda de Castro Neves, 94 anos, só dormia depois do sussurro do Pai Nosso e da Ave Maria. Sorridente, era amada por seus quatro filhos, seis netos e já quatro bisnetos.

O coração de Gracinda, querida por todos, parou de bater.

Ela é só um número?

Um.

Um herói.

Um herói de jaleco.

O médico Alex Bello, 53 anos, amava salvar vidas. Mas o coração dele parou de bater.

Ele era só um número?

Não.

É uma das faces da pandemia da Covid-19, que já ceifou mais de 27 mil vidas no país.

Antonio, Erika, Alex, Francelina, João, Arnaldo, Gracinda… e tantos outros não são números. São um. São únicos.

Cada um deles era o Brasil.

Era um coração que parou.

Era cada um de nós..

Por quem os sinos dobram em são José?

Por quem os sinos dobram?

Deitado em seu leito, onde repousava o corpo cansado, palco de uma dura batalha travada na entre vida e morte, o poeta John Donne (1572 – 1631) escutava o som vindo do campanário.

Era a pergunta que seguia-se, feita por pessoas próximas, por quem por ali passava.

Trocando em miúdos, de forma resumida, o questionamento era: ‘quem morreu?’. O tilintar indicava uma morte.

Em sua obra intitulada Meditações, de 1624, o escritor e reverendo britânico publicou aquele que é seu poema mais conhecido, que resiste aos séculos e ainda segue sendo recitado nos dias atuais. E ele diz:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Traduzindo: não pergunte quem morreu, pois se um homem morreu, morreu também um pedaço de toda a humanidade.

Nos dias atuais, o sino dobra à exaustão em meio à luta contra a pandemia do novo coronavírus, que já matou aproximadamente 150 mil pessoas em todo o mundo. É a maior crise global desde a Segunda Guerra Mundial.

E quanto vale uma vida?

Segundo um estudo da Unifesp (Universidade Estadual Paulista), os casos da Covid-19 no interior paulista estão três semanas atrás dos números registrados na capital. “Então não é hora de relaxar a quarentena. Estamos vivendo a maior calamidade pública desde a gripe espanhola”, diz o professor Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, da Faculdade de Medicina da Unesp.

E nesse cenário tão crítico, que deverá se agravar nas próximas semanas, a Prefeitura de São José, contrariando a ciência, o Estado e a OMS (Organização Mundial da Saúde), cedeu à pressão do comércio e flexibilizou as regras para o isolamento social — única arma contra o vírus.

É o maior erro deste governo.

Por quem os sinos dobram?

Eles dobram por ti. Blém-blém….

Ensaio sobre a cegueira e a quarentena do amor invisível

Ensaio sobre a cegueira.

Ao percorrer as ruas vazias, observando pessoas com máscaras e o corre-corre quase apocalíptico para os supermercados, logo me vem à memória a obra do escritor português José Saramago (1922-2010), publicada no ano de 1995 e levada às telas do cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles 13 anos depois. Na história, o mundo se vê abalado por uma epidemia: a ‘treva branca’. A doença, que espalha-se de forma incontrolável, tira a visão de seus infectados. Em quarentena, a sociedade cega percebe-se reduzida à essência humana, em uma viagem às trevas. Os tempos são sombrios. Saramago destacava a responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam.

Fechar os olhos para ver.

Na história, a humanidade, com toda a tecnologia e civilidade que se orgulha de ter criado, em pouco tempo libera os instintos mais animalescos. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, escreveu o genial português.

Falando em cegueira, seria uma visão pessimista da nossa realidade? “Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo”, responderia o Nobel de Literatura.

Fechando os olhos, o que veremos dentro de nós, em 2020, tendo adiante uma crise tão severa, agravada por um governo cegado por sua ineptidão? Que natureza vai emergir no nosso peito?

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”, sentenciou. “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Seria eu mais otimista?

Diante de um cenário tão grave, com milhares de vidas em risco e risco de colapso econômico, ser otimista é algo impensável.

No entanto, ao fecharmos nossos olhos para ver, acredito que é possível refletirmos sobre muitos aspectos. O que não víamos, mas agora enxergamos?

Serão meses de confinamento e rígidas (e corretíssimas) orientações para que evitemos abraços, beijos e até mesmo um aperto de mãos. Há quarentena de amor?

Tal sentimento, que pode se traduzir de variadas formas, estava mesmo circulando livremente?

Você o via nas esquinas?

Mascarado, talvez? Ou no olhar de estranhos que se cruzavam na fila do oftamologista? Recuperar a lucidez, resgatar o afeto. Agora cegos, voltaremos a ver o amor?

NOTINHAS

ISOLAMENTO

Para evitar risco a idosos do Lar São Vicente de Paulo, em Santana, grupo Cartas Perdidas trocou as visitas por vídeos.

TRADUÇÃO

Afinal, o amor é o melhor remédio e multiplica-se quando compartilhado. Há palavras que são como abraços bem dados.

SARAMAGO

“O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio”. Qual é o seu sonho?

Uma carta e um abraço

Uma carta na mão e um propósito na cabeça.

E lá estava eu, em pé diante de uma sala lotada, falando a respeito do amor ao próximo. Acredito que cada palavra é uma semente, que pode cair (ou não) em boa terra e gerar bons frutos, se semeada com cuidado e carinho. E passei aquela manhã de janeiro, menos de dois meses atrás, acompanhado por voluntários, na companhia de 45 adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas na Fundação Casa de Taubaté. E não perguntei a nenhum deles que infrações haviam praticado, pois não estava ali como juiz.

E nem como jornalista.

Estava ali Guilhermo Codazzi da Costa, voluntário idealizador do projeto Cartas Perdidas, que tem a missão de espalhar mensagens de fé, esperança, poesia, acolhimento e amor em locais públicos, orfanatos, asilos, hospitais, além de famílias carentes, moradores de rua, etc.

E o que faria o jornalista Guilhermo Codazzi da Costa? Perguntaria.

Pensei muito a respeito desse tema após a polêmica, que tem sido tão comentada nas redes e também nas redações, envolvendo a reportagem de Drauzio Varella no ‘Fantástico’ e o abraço do médico na presa Suzy.

O repórter que fui, tendo visitado inúmeros presídios e unidades da Fundação Casa, também nunca foi ‘juiz’ em suas apurações, porém buscava informar. ‘Jornalismo é precisão’, diz uma máxima repetida à exaustão, como mantra, nas redações jornalísticas. Ao contar a história de um preso, dizer ao público que crimes esse personagem cometeu me parece parte fundamental da apuração.

Dito isso, sem querer vomitar regras, ser ombudsman, muito menos desmerecer a trajetória de Varella, mas para promover o debater, avalio que houve sim um erro jornalístico. É um fato. E qual foi o erro?

A reportagem não cumpriu o seu papel basilar: informar com clareza e transparência. Ao não informar que a presa foi condenada por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos, ela induziu o seu público a entender a história de forma distorcida, como se Suzy não recebesse visitas por ser trans.
Acredito que a justificativa inicial de Varella, de que como médico não agia como juiz e não questionava os seus pacientes sobre sua história de vida, não se sustenta. Meu diagnóstico é que ali estava sendo produzido um material jornalístico, não se tratava de uma consulta médica. E um conteúdo editorial com erro de apuração. É salutar, inclusive, que a emissora e Varella tenham reconhecido o erro, afinal não se pode abraçar as falhas, a transparência na relação com o público é primordial.

A polêmica tem ainda outras facetas. Em um momento delicado, em que governos que flertam com o autoritarismo atacam a liberdade de imprensa diariamente, o caso dá munição para milícias digitais atacarem o jornalismo e fazerem uso político do episódio, inclusive com uso de fake news — como, por exemplo, a história mentirosa de que Varella teria aspirações políticas. Há também o reforço de estigmas contra trans, que sofrem sim preconceito no país, seja dentro ou fora do sistema prisional.

Agora, o abraço foi um erro? Merece polegar pra cima ou pra baixo?

O voluntário Guilhermo Codazzi da Costa, particularmente, abraçaria Suzy, Drauzio, principalmente a família do menino brutalmente assassinado e abraçaria você também, esteja agora concordando comigo ou me crucificando. O Guilhermo cidadão cristão também faria o mesmo que o doutor ateu fez, não no exercício da prática jornalística e sim no exercício do que entende ser o amor incondicional ao próximo, ensinado pelo filho de um carpinteiro da Galileia, que dizia que devemos perdoar 70×7 (que dá mais do que 490) e andava ao lado também de ladrões, prostitutas, cobradores de impostos, adúlteros e outros grupos marginalizados.

“Estive na prisão, e foste me ver”. (Mateus 25:36)

O amor e o perdão são sempre a melhor notícia do dia. Um abraço a todos!

P.S. 1. As cartas dos adolescentes da Fundação Casa serão levadas para um asilo de Pindamonhangaba. Os idosos responderão e vamos criar uma troca de correspondência entre essas gerações tão diferentes.

P.S. 2. Que tal escrevermos cartas para a família do menino?

P.S. 3. Em 2020 queremos tirar do papel também o envio de cartas para unidades do sistema prisional e outros públicos. Já atendemos asilos, orfanatos, hospitais, população de rua e ajudamos parceiros na tentativa de facilitar a adoção de cães abandonados, entre outras ações.