Carta de despedida para dona Elsa

Somos cartas perdidas.

Como se fôssemos uma página em branco, nascemos pelas mãos de remetentes conhecidos, pelo menos na maioria das vezes, e em seguida iniciamos uma viagem na direção do imprevisível, rumo às mãos de um destinatário incógnito. Estamos sendo escritos todos os dias, com a única certeza: não seremos jamais obras completas.

Neste sábado, ao lado de voluntários, farei a entrega de centenas de cartas para idosos de um asilo de São José. E a mais bela correspondência, escrita pelo jornalista José Guilherme Rodrigues Ferreira, tinha como destino a argentina Elsa Miranda, de 91 anos.

Nesta sexta, minutos depois da carta chegar a mim, o asilo comunicou-me sobre a morte dela. Isso me fez refletir. Nós somos cartas perdidas, porém no caminho nos encontramos? No caminhar, que pedras encontramos? E que tipo de carta escrevemos? De amor?

Hoje, com o aval do remetente, transcrevo a carta da Doña Elsa:

“Cada persona es un mundo. E é por isso que a senhora deve ter muitas histórias para contar… lembramos de muitas coisas de nossa vida. De outras nem tanto. Mas o jogo da vida é esse mesmo: recordações e esquecimentos, barulhos e silêncios.

Dessa frase ‘cada persona es un mundo’ eu me lembro bem: está registrada numa foto que tirei em Buenos Aires, de um cartaz pregado na parede. Às vezes a gente lembra das coisas passadas por meio de fotos. Mas podemos lembrar também por meio de sabores e aromas. O célebre escritor francês Marcel Proust se lembrava de todos os contornos da infância quando mergulhava seus bolinhos na sua chávena de chá.

O que a senhora recorda quando saboreia um alfajor?! Ele é capaz de levar a senhora à sua cidade de Centeio, em Santa Fé?

Gosto das planuras, labirintos, cheiros e sons argentinos. Conheci a Argentina, a sua alma, primeiramente pelos livros. Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Bioy Casares e Ricardo Piglia são meus preferidos. E gosto de Xul Solar, o pintor das escadinhas que nos levam às alturas. Gosto dos endereços argentinos, como eles são tratados, coordenados para não haver dúvida, para que os encontros ocorram. Cortázar abre seu livro ‘Os prêmios’ assim: ‘Era no London, esquina de Peru com a Avenida de Mayo’.

Acompanha essa carta um planisfério. Gosto dos mapas que mostram a física da Terra muito mais do que os mapas com as fronteiras políticas. Gosto quando tudo é uma coisa só, é claro com as montanhas e os relevos de cada ponto. A senhora se lembra das lagunas de Santa Fé? Sem as fronteiras, elas também são minhas. A senhora empresta o rio Salado pra mim?

Uma amiga minha, quando viajava, trazia sempre na mala uma pedrinha do lugar onde esteve. E reunia tudo num grande recipiente de vidro — todas a pedrinhas ali, de lugares diferentes, irmanadas, sin fronteiras. Um mundo! Imagino a Doña Elsa como um seixo lisinho que rolou aqui para São José para alguma coleção de pedrinhas irmanadas. Um beijo carinhoso, José Guilherme”..

No Morro da Imaculada

Naquela noite de garoa, era tudo sereno

Ele fã de Lennon. Ela de McCartney. Dois solitários debaixo do céu de estrelas e bandeirolas. É dia de arraial. Ela filha do rei, aquela flor que a gente assopra e então o perfume da primavera vem. Vem de Curvelo. Ela vem. É primeira, pequenina e leva no nome o D de destino. O espírito das plantinhas do mato, as ondas imensas do mar. Ele, rapaz caipira, traz no alforje palavras não ditas, um álbum de família e a canção do povo de algum lugar. De uma terra tão querida, com céu azul e águas claras, na estrada do Canindé, onde a água faz chuá chuá diante de um imenso jardim. Um jardim de fantasia, com espelho d’água. É bonito demais!

“No Morro da Imaculada tem, divino, congada e moçambique também, no Morro da Imaculada a sorte é daqueles que andam com os sinos de São Salomão”

Frutos da terra, pela primeira vez estão os dois ali, de papo pro ar, a andar a pé lado a lado, pela rua de pedra e sonhos guaranys. Como numa romaria por entre as barraquinhas da quermesse, que vendem de garapa a tutu com torresmo, aprendem que a poeira é ouro em pó. Ao som de Renato Teixeira, torcem para que o relógio dê um tempo, fazendo com que o curto trajeto seja cumprido sem pressa. Como Deus em seu tear. Ao gosto do coração e nas asas do vento. Pé ante pé, eles caminham um bocado de anos em poucos minutos. Sessenta léguas em um dia. Se conheciam, mas jamais tinham-se visto. Agora, irmãos de Lua. Um só. Era luz. Amor divino, amizade sincera e uma leve guarânia.

“Figuras de sonho que as mãos de viola transformam em enfeites de cor. Singelos duendes de um de barro
Que dona Edwirges moldou.”

Ela então, singeleza como uma pequena figura de barro, lhe disse: “sabia que você tem os olhos do Paul?”. Ele perguntou se deveria encarar aquilo como um elogio, já que o beatle hoje parece o Quico, do Chaves. E no Morro da Imaculada os dois riram. Juntos, pela primeira vez. “E quando o dia nascer, trazendo a alvorada brasileira e as pedras no caminho, terá sido tudo isso nada além de um sonho?“, pensou o rapaz de alma sertaneja, que trazia nos olhos profundos de menino da porteira uma velha história e um rio de lágrimas.Tinha medo. Medo do que? Amor, leva eu, ele pedia. Riram juntos outras tantas vezes. Destinos enlaçados pela poesia de Pablo Neruda.

“Se chove no Morro da Imaculada as moças desenham com cinzas um sol no chão que assim a chuva vai logo embora deixando um arco-íris lindo pra enfeitar o céu”

Depois da curva da estrada, em uma casinha branca ao pé da serra, tingiram os lábios com o vermelho da amora. E ao lado da casa de um caboclo, de nome Chico Mineiro, vizinho de Zé Ponte e Zé Pereira, entenderam que o cavalo bravo é que domou o temporal, aprendendo a viver como um guardião da floresta. Êta mundo bão! Tocando em frente, em transformação, compuseram uma doce canção que hoje o violeiro toca em sua chalana, rio abaixo. No rio de três nascentes: terra, mar e ar. Os dois tornaram-se uva e vinho, trigo e pão. O sertão e o mar. O ser tão amar.

“Corto de sapo sapinho-aranhão
Bicho de toda nação,
Três brotos de alecrim da Guiné
Para o que der e vier”

Dançariam tango na fila do cinema, caminhariam de pijama pela Paulista e vasculhariam a feira de trocas, em busca de uma barganha. Disputariam o futebol na sala, criariam seus próprios jogos. Cairiam, levantariam. Criariam um universo particular. Ela se tornaria sua casa, sua igreja e família. Juro. Eram Igreja Matriz, com missa do padre Evaristo. Na noite dos sinos, era o nome dela que ele chamava. Voa comigo? Me conta uma história? Minha história? A história do funeral do lavrador, que levava no peito a sina de violeiro e a tristeza do Jeca. Que saudade!

“E violeiro violai que é domingo
Imaculada tradição dos puros figureiros
E violeiro violai que é domingo
Imaculada tradição dos puros figureiros”

Por falar em saudades… veio um tempo obscuro na vida daquele pobre pássaro humano, brasileiro errante. Com um nó na garganta, o adeus. Quando a nuvem passa e o amor se vai, o que era doce acabou? Que saudade, que saudade danada! Dez anos depois, o amor que nasceu no Morro da Imaculada hoje é representado por duas figuras de barro, que seguem lado a lado no alto do armário, em meio a roupas de outras estações. Uma representa o John e a outra o Paul.


Tantas vezes me mataram
Tanta vezes eu morri
Mas agora estou aqui
Ressuscitando”

Naquela noite de garoa, era tudo sereno. Ele fã de Lennon, ela de McCartney. Lado A e lado B de uma linda canção. Tatuada na alma. Com agulha de vitrola. Ainda hoje, ele manda para ela o recado: quero você. Sabe que o amor tem muitas maneiras de parecer que morreu, compadre meu dizia, que amor é coisa de ateu. Graças a Deus! E depois de tanto tempo, em meio a um mar de palavras, ele pede a Deus apenas uma chance. Uma chance de para a sua amada mostrar o seu olhar, seu olhar, seu olhar…

Agradeço ao meu destino
E a essa mão com um punhal
Porque me matou tão mal
E eu segui cantando

Texto traz em negrito nomes de músicas do repertório de Renato Teixeira, poeta da nossa música

Palavras são como pássaros. Liberte-as!

Dou a minha palavra.

Podem perguntar para os meus amigos ou para o Julio, meu irmão. Quando moleque, eu tinha coração de capotão. Passava o dia todo na rua, vestido com a camisa 10 do Timão e tendo nos pés uma bola Dente de Leite, indo de campinho em campinho atrás de uma partida. Modéstia à parte, eu era bom de bola. Os clássicos contra o time da rua de baixo, no melhor estilo ‘golzinho de tijolo’, era digno de Copa Libertadores, tamanha era a rivalidade. Assim era, pelo menos, na nossa imaginação. E por falar em imaginação e fantasia, sonhava ser jogador de futebol e ganhar a vida fazendo gols, muitos gols alvinegros por aí. É, nada mal, não é? Mas…

Bom, faltou perna (e, vou admitir, futebol) para isso, para a felicidade da Fiel torcida corintiana, diga-se a verdade. Então, como a bola deixou de ser uma opção, o caminho foi ganhar a vida com as palavras. Primeiramente, falando de esportes. Depois, já vivendo a vida nas redações, escrevendo a respeito de temas variados.

Tomei gosto pelas palavras, por esculpir palavras, como faz o carpinteiro, por exemplo. Descobri, com o auxílio de mestres como o poeta Pablo Neruda (1904-1973), que as palavras são como pássaros, que fazem o ninho dentro do nosso peito. “A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei”, dizia Manoel de Barros, um dos gênios da nossa literatura.

Entre 2012 e 2013, com a ajuda daquela para quem endereço todas as minhas palavras, comecei a espalhar cartas por aí, em espaços públicos, contendo poemas, crônicas… enfim, palavras.

Nascia o projeto ‘Cartas Perdidas’, que já rendeu dois livros.

No entanto, eu posso dizer hoje que, finalmente, essas cartas se encontraram. Na última semana, com a ajuda de uma linda corrente do bem, formada por artistas, atletas e voluntários, reunimos aproximadamente 450 cartas de amor para Brumadinho. Doamos milhares e milhares de palavras, capazes de aquecer o coração, de alimentar a alma e curar feridas.

E essas mensagens serão entregues neste domingo às famílias.

Nos últimos tempos, quando eu ‘perco’ uma carta por aí, deixo no envelope a seguinte frase: ‘A carta contém centenas de palavras e e as palavras são como pássaros. Liberte-as’. Só nos resta responder à pergunta: seria o nosso coração uma gaiola ou um par de asas?

A vida é um sopro e hoje é dia de viver

É fato. Toda manhã, quando levantamos da cama, nos deparamos com o dilema: viveremos um dia a menos ou um dia a mais?

Todos os dias fazemos a opção de viver ou morrer um pouco.

Há ainda, claro, uma terceira opção também, em que se vive em letargia, paralisado, em coma emocional profundo. Neste caso, não há morte — uma vez que o indivíduo em questão nem viveu.

Acredito que todas as manhãs, inconscientemente, nós respondemos à vida se somos (e temos) um co(r)po meio cheio ou um co(r)po meio vazio.

Meio cheio de tudo.

Ou meio cheio de cor, vibração e energia. Meio vazio, daquele tipo de vazio que dói e corrói. Ou meio vazio, daquele vazio que não vê a hora de ser desbravado, transformado.

Não seria a vida, justamente, um copo meio cheio e meio vazio?

A resposta estaria, caro leitor, no que fazemos com ela?

Na maneira como nós lidamos com os ‘abacaxis’ que a vida deixa pelo caminho?

Para uns, os dias vêm e vão.

Para outros, os dias vêm em vão, como folhas mortas pelo chão. Somos como as quatro estações: verão, outono, inverno e a primavera. Somos trem e estação. Dia de seguir?

Oscar Niemeyer costumava dizer: ‘A vida é um sopro, um minuto. A gente nasce, morre. O ser humano é um ser completamente abandonado’.

Portanto, caro leitor, se a vida é um sopro, assopre!

Assopre com toda a sua força, a plenos pulmões!

Assopre um balão e faça com que ele voe alto! Ou assopre bolinhas de sabão pelo ar. Tanto faz, mas assopre. Opte sempre por um dia a mais.

Afinal, cada dia é único.

Assim como você. Afinal, a poesia está nos olhos de quem vê. De quem vê a vida com olhos de criança. A vida é um sopro? Assopre essa vida!

* Abaixo, poema de Pablo Neruda que, com sua ironia, traz grandes reflexões:

‘A Vida. A vida, a vida é coisa lenta. Por isso há que pensar de imediato em deixar que passe sem saber que passa.

Há que deixar de fora todos os demais, há que se meter a gente mais dentro de si mesma. Quando a chuva principia a cair, há que ter uma casa e um telhado e uma braseira. Depois, se chega o bom tempo, que haja uma arvorezinha verde sob a qual descansar.

Há outros homens no mundo, é verdade.

Os portos distantes trazem e levam homens ruivos, de outras terras em que também há sóis e chuvas. Pois bem, esses que chorem. Já se trabalhou bastante para lhes dar o que não se pode dar. Trabalha-se, é claro, depois a gente se acostuma a trabalhar. Os vícios o amor tudo há que deixar de fora. O amor, também o amor. Lá na juventude era bom; sempre havia uma coisa oculta e perfumada que estalava pela boca e pelas veias; agora não.

Agora, menino, agora temos que viver. Deixa tudo de fora, tudo. E conserta o teu telhado, que já começa a chover’..

Abelhinha, sonhando alto com seus óculos de grau

Bruno de camisa preta, ao meu lado, durante a primeira comunhão da minha irmã Marina e da minha prima Malu, no Santuário de Santa Teresinha, em Taubaté

‘Quero ver os meus sonhos’.

Assim meu primo Bruno, ainda com aquele olhar puro e doce de criança, respondia à pergunta que lhe faziam insistentemente: afinal, por que você dorme de óculos?

Desde cedo o Abelhinha, como nós o chamávamos, usava óculos fundo de garrafa, com a armação preta e bem grossa — era parecida com a da Chiquinha, do ‘Chaves’.

Recordo-me dele, com seus 4 ou 5 anos, já com os óculos até mesmo na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, onde morava a família da minha mãe — avós, tios e primos, muitos e muitos primos.

Mas a palavra primo não define com precisão aquilo que éramos. Nós, que me desculpe o Aurélio e os demais léxicos, sempre fomos irmãos. Inseparáveis. Eu de janeiro de 1981, ele de março de 1982, juntinho com o meu irmão Julio, que completava o nosso time.

Crescemos juntos. Nós aqui, ele lá no Rio. Mais do que isso, aprendemos a sonhar juntos. E sonhávamos muito, mas muito alto.

Um exemplo?

Bruno e eu jogaríamos no Corinthians, time do meu coração, e Flamengo, um dos amores dele. Juntos, obviamente. Mais tarde, o futebol e nossas caneladas deixaram claro que o ideal seria mudar de plano e, por isso, passamos a sonhar em ganhar a vida com jornalismo esportivo.

Anos mais tarde, no entanto, ele foi diagnosticado com câncer. Foi uma dura batalha, dolorosa para todos. Quatro anos, até que ele se foi feito um passarinho em 2000 — um dia antes de fazer 18 anos.

Desde aquele tempo, guardei no peito a vontade de poder participar, contribuir de alguma forma, com crianças e adolescentes que enfrentam essa dura batalha.

Este ano, aqui dentro da redação de OVALE, surgiu a ideia de criarmos uma ‘corrente do bem’ envolvendo jornal, galeria Victor Hugo e dezenas de artistas para o benefício do Gacc (Grupo de Assistência à Criança com Câncer), entidade que atende 500 crianças e adolescentes com a doença.

Foto do lançamento da exposição Mãos à Obra, realizado na Galeria Victor, parceira do jornal OVALE no projeto em benefício do hospital do Gacc, em São José. Foto de Gilberto Freitas.

O poeta Raul Seixas cantava que o sonho que se sonha só é só um sonho, mas o sonho que se sonha junto é realidade. E em um tempo com tanta divisão, a solidariedade uniu dezenas de pessoas dispostas a praticar a arte de amar o próximo, como a si mesmas.

Vez ou outra, encontro o Bruno quando adormeço. Espero vê-lo hoje. Ei, Abelhinha, não esqueça os óculos. Porque o sonho vai ser lindo.

A era da pós-verdade: 1984 ou 2018?

Winston Smith ganhava a vida trabalhando arduamente no Ministério da Verdade, órgão estratégico para o onipresente e onipotente regime político totalitário de Oceania. O trabalhador, sempre sob os olhos vigilantes do Grande Irmão, aquele que tudo vê, tem como função a propaganda do partido responsável pelo superestado e também o chamado ‘revisionismo histórico’: ele reescreve artigos de jornais do passado, para que o registro histórico sustente, corrobore, legitime, apoie a ideologia que o líder prega no presente. Traduzindo: ele faz com que o presente caiba no passado, nem que para isso seja preciso torturar fatos e manipular informações. O Ministério ainda destrói todos os documentos que não foram editados ou revisados, eliminando, assim, qualquer prova que poderia mostrar que o Estado esteja mentindo. Neste ambiente, que é ininterruptamente monitorado pela ‘Polícia do Pensamento’, desenrola-se a sufocante e perturbadora trama de ‘1984’, clássico da literatura mundial, obra-prima do escritor George Orwell.

A obra, que foi escrita em 1948 e criou termos como Big Brother e outros, figurou na lista de livros mais vendidos dos Estados Unidos depois da vitória do republicano Donald Trump, em 2016, na campanha eleitoral que cunhou expressões como, por exemplo, pós-verdade, fake news e fatos alternativos. Lá como cá, o pleito foi marcado e manchado por terrorismo digital, com a disseminação de mentiras — um importante agravante registrado no caso norte-americano, foi o vazamento de dados do Facebook para empresa de marketing político (a informação era usada para detectar o eleitor indeciso e agir sobre ele) e a interferência estrangeira.

No Brasil, país onde o presidente da Corte Suprema já reclassificou o golpe militar de 1964 como ‘movimento de 64’, o conceito de pós-verdade (quando, na tentativa de moldar a opinião pública e influenciá-la com mentiras, fraudes e truques, os fatos possuem menos influência que apelos feitos às emoções e às crenças pessoais) e de fatos alternativos têm imperado nessa disputa eleitoral.

Neste cenário, bombardeado e infernizado pelas já tão perniciosas fake news, há, infelizmente, muito pouco espaço para a discussão programática. Porém e o kit gay? Certamente dele uma boa parcela do eleitorado ouviu falar, apesar dele jamais ter existido. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ordenou que o candidato Jair Bolsonaro (PSL) retire do ar uma publicação que acusa seu rival Fernando Haddad (PT) de ser criador desse kit que não existe e jamais existiu.

São todos iguais, mas uns mais iguais do que os outros?

O fenômeno, no entanto, parece ser ambidestro, apesar do número maior de queixas relacionadas à candidatura do ex-militar. Esse mesmo tribunal, por exemplo, determinou nesta terça-feira que a campanha petista retirasse o conteúdo que acusa Bolsonaro de ter votado contra a Lei Brasileira de Inclusão — ele, na verdade, votou contra um dos destaques.

No país marcado pelos fatos alternativos, uma verdade absoluta é que, em 1984 e em 2018, a verdade está duramente ameaçada.

É verdade, há um ataque de mentiras à democracia

Foto: José Cruz/Agência Brasil

É fato. Em uma tragédia anunciada, as fakes news interferiram — e ainda vão interferir mais — nas eleições brasileiras, transformando-se em uma arma cada vez mais letal à democracia, capaz de provocar — ou potencializar — uma onda de desinformação e histeria coletiva, além de pânico, medo, violência e intolerância em escala assustadora e preocupante. Trata-se de um modelo de terrorismo cybernético praticado contra a liberdade de opinião e pensamento, que já havia mostrado todo o seu poderio destrutivo mundo a fora, como nas últimas eleições nos Estados Unidos, México e no Brexit, ou na onda de violência em países como Índia e Sri Lanka, entre outros exemplos. No Brasil, já há pesquisas indicando que 75% dos brasileiros temem que o seu voto seja influenciado por notícias falsas. São três quartos de um eleitorado bombardeado diariamente por mentiras e boatos plantados estrategicamente, com o objetivo de demonizar determinados candidatos e beneficiar outros. Estão roubando a sua opinião.

As fake news, que têm 70% mais chances de viralizar, ‘bombar’ do que teria uma notícia verdadeira, encontraram nas redes sociais — ou hoje antissociais — um terreno propício para propagarem-se feito uma praga.

Nos EUA, nas eleições de 2016, a rede social Facebook foi a plataforma mais utilizada para a disseminação das notícias falsas na campanha de Donald Trump e foi jogada para dentro do escândalo da Cambridge Analytica — a companhia de marketing político que usou dados de 87 milhões de perfis para influenciar sua escolha.

No Brasil, apesar de também se propagar no Facebook, as fake news possuem como carro-chefe o aplicativo WhatsApp, que tem o impressionante número de 120 milhões de usuários no país.

O Whats é atualmente uma ferramenta muito presente no dia a dia da população. Segundo os dados do Datafolha, um percentual de 61% dos eleitores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) se informam pelo aplicativo. O número é de 38% em relação a Fernando Haddad (PT). É muita coisa.

E a estratégia de espalhar notícias falsas nesse ambiente, infelizmente, tem se mostrado eficaz.

Mas e por quê? A mensagem é entregue dentro da bolha em que vive aquela — principalmente nos grupos familiares, de pessoas da confiança do receptor, de acordo com estudos recentes. Isso é ainda agravado pela dificuldade que uma parte da população tem para interpretar textos — somente 22% dos brasileiros que chegaram até a universidade têm condição plena de compreender e se expressar, revela o Indicador de Analfabetismo Funcional.

Esse clima de intolerância, que é turbinado pelas fakes news, está materializado na triste escalada de violência. Já são 56 agressões ou ameaças nos últimos dias, segundo os dados da Agência Lupa, sendo 50 ligados a simpatizantes de Bolsonaro e 6 de Haddad.

Até aqui, o Brasil tem mostrado-se absolutamente incompetente para coibir o problema.

Não se engane.

Nossa democracia hoje está sob ataque, um duro ataque de mentiras. É verdade. É preocupante.

É fato, isso não é fake.

Memes, debates e ‘Zap Zap’ na briga pelo voto

Debate. A eleição é o ponto máximo do sistema democrático, uma oportunidade indispensável para que a sociedade possa debater quais são seus principais problemas e que soluções pretende adotar, que prioridades deve definir e que linhas traçar para trilhar o caminho do futuro. É a hora de colocar frente a frente as mais diferentes correntes de pensamento político e ideológico, confrontar as visões por vezes antagônicas e diametralmente opostas que temos para a realidade de um mesmo país. Neste pleito de 2018, que tem papel fundamental para os rumos de uma nação mergulhada até o pescoço em uma crise política e econômica, nunca se debateu tanto. Infelizmente, quando o assunto é a corrida presidencial, principalmente neste segundo turno, o debate se restringe apenas às redes sociais, infestadas de ódio e amplamente contaminadas pelas fake news. Mas e o confronto entre os candidatos, cadê?

Infelizmente, ao que tudo indica, o eleitor brasileiro não terá a oportunidade de ver os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto frente a frente, discutindo, argumentando, discordando, questionando um do outro ao vivo em um debate.

Aliás, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) podem encerrar a disputa no dia 28 sem terem duelado nenhuma vez — no início da campanha, quando seu adversário chegou a comparecer a debates, o petista ainda não havia sido lançado pelo seu partido; depois, o capitão da reserva deixou de comparecer aos confrontos após ter sido vítima de um atentado em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro.

Depois de Bolsonaro argumentar que não podia participar dos debates por recomendação médica, hoje é evidente que trata-se, neste momento, de uma estratégia de campanha.

De acordo com o Ibope, em pesquisa que foi divulgada nesta segunda-feira, o candidato do PSL tem 59% das intenções dos votos válidos, contra 41% do petista — uma larga vantagem faltando 12 dias para a eleição.

Com a faca e o queijo na mão, por que arriscar? É o que defende a estratégia de campanha, ciente de que o ex-militar é conhecido por frases infelizes e polêmicas, que, em tese, poderiam provocar danos à candidatura.

Ele tem optado por fazer lives nas redes sociais — onde não está diante do contraditório — e participar de programas de televisão selecionados por sua equipe.

Quem perde é o eleitor, a democracia. Quer ver debate?

Por enquanto, neste 2º turno, só mesmo se for no WhatsApp.

Just another brick in the wall

O muro. Invisível porém palpável, o muro é construído tijolo por tijolo, dia depois de dia, de forma lenta e dolorosa, tendo o discurso de ódio e a ignorância como argamassa. O muro, pintado com a cor do extremismo ideológico ambidestro, divide os pais e filhos. Mães e filhos. Irmãos. Amigos. Parentes. Opõe ‘nós’, de um lado, e ‘eles’, de outro. Escava, no peito da mãe terra, trincheiras onde planejava-se a edificação de pontes para o futuro. Secciona e amputa. Tortura fatos, dissemina a confusão, a mentira, a barbárie e a histeria coletiva. Expõe preconceitos, incentiva o patrulhamento ideológico e coloca os iguais em lados diferentes, como inimigos — e não opositores. As eleições brasileiras, como se evidencia tanto nas redes sociais quanto no dia a dia fora delas, aprofundaram a divisão no país. Partido, um Brasil partido após a grave crise econômica, política, moral e que assassina o mito de que somos um povo cordial.

Essa divisão foi notícia na noite de terça-feira, quando o baixista Roger Waters, ex-líder da icônica banda Pink Floyd, apresentou-se em São Paulo para 45 mil fãs, em um show da turnê ‘Us Them’. O astro do rock, mundialmente conhecido por clássicos como ‘The Wall’ e outros tantos, foi vaiado e aplaudido ao criticar o candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Acirrada, a campanha eleitoral tem se mostrado uma guerra sem trégua. Notícias falsas, discurso de ódio contra as minorias, tiros disparados contra a caravana de Lula, o absurdo atentando contra Bolsonaro, troca de socos e pontapés entre os militantes, o assassinato de Moa do Katendê, brigas no Facebook, fake news…

Todos esses formam um conjunto de exemplos, just another brick in the wall. Apenas um tijolo a mais na construção do muro que nos divide. No entanto, diferentemente do que diz a letra de ‘The Wall’, isso é sinal de we need education.

E democracia.

O menino que fui nas eleições que já se passaram

Dia 5 de junho de 1989.

Com os olhos vidrados na tela de nossa surrada tevê, aparelho que transportava um planeta inteiro para a sala da minha casa graças àquelas granuladas imagens em preto e branco, o menino que eu fui assistia paralisado a cena histórica: de peito aberto, desarmado, um jovem estudante desafiava uma coluna de tanques de guerra na praça da Paz Celestial, na capital chinesa. Naquele dia, que entrou para os registros da História como o ‘Massacre da Praça da Paz Celestial’, milhares decidiram sair às ruas de Pequim e outras cidades para protestar contra o regime, a corrupção e a crise econômica, agravada pelos altos índices de desemprego e de inflação. O jovem destemido que parou os tanques, apelidado de ‘rebelde desconhecido’, teve sua imagem vista em todo mundo.

O seu paradeiro, assim como a sua identidade, ainda são mistérios até hoje, 29 anos depois.

Naquele ano, marcado também pela queda do muro que separou a Alemanha em duas por longos 28 anos, o menino que eu fui fez, aos 8 anos, a sua primeira cobertura eleitoral. Era um trabalho escolar, na disciplina de Estudos Sociais. Depois de um hiato de 29 anos, os brasileiros voltariam a votar para presidente. Com um caderno nas mãos, lembro-me de que eu percorri a pé, sozinho, comitês de candidatos, então espalhados pela Taubaté da minha infância. Imagens esparsas, que resistem à memória fraca, dizem que havia uma muvuca, jingles e distribuição de santinhos, além adesivos e camisas dos candidatos. Ah, e muitas promessas.

Vinte e nove anos depois, era o momento do eleitor reencontrar-se com a democracia. Depois do término do nefasto período ditatorial, em que liberdades haviam sido cassadas e pessoas caçadas, perseguidas, torturadas e mortas brutalmente, era tempo de crise econômica e descontentamento profundo e crescente com a política — o Congresso e o presidente José Sarney, do MDB, tinham alto índice de rejeição no país.

Agora, para minha surpresa, 29 anos depois, o menino que eu fui bateu à porta da minha consciência. Depois de ver, em 1989, mais um capítulo da trama ‘O salvador da pátria’, o garoto me procurou por essas bandas, de 2018, e com uma expressão pra lá de confusa pediu-me para entrar. Nem bem adentrou a sala dos meus pensamentos, já falou pelos cotovelos a respeito daqueles acontecimentos decisivos de 1989.

De um lado da disputa eleitoral, ele dizia, havia um candidato de um partido nanico, que prometia caçar marajás e livrar o Brasil da ameaça comunista. Do outro, um homem chamado Lula, que dizia a todos ser diferente dos demais, porém que os adversários diziam estar preso a uma companheirada que poderia dar PT no Brasil.

Tentei explicar ao menino que fui que, como a história mostrará a ele, salvador da pátria só mesmo na novela. E que, 29 anos depois, ao invés de derrubar muros e erguer pontes, o Brasil está dividido. E o rebelde desconhecido? A luta contra o autoritarismo segue imprescindível. Nos despedimos com um abraço. Antes de ir, ele então me perguntou: quando é que o futuro vem?.