A vida é um sopro e hoje é dia de viver

É fato. Toda manhã, quando levantamos da cama, nos deparamos com o dilema: viveremos um dia a menos ou um dia a mais?

Todos os dias fazemos a opção de viver ou morrer um pouco.

Há ainda, claro, uma terceira opção também, em que se vive em letargia, paralisado, em coma emocional profundo. Neste caso, não há morte — uma vez que o indivíduo em questão nem viveu.

Acredito que todas as manhãs, inconscientemente, nós respondemos à vida se somos (e temos) um co(r)po meio cheio ou um co(r)po meio vazio.

Meio cheio de tudo.

Ou meio cheio de cor, vibração e energia. Meio vazio, daquele tipo de vazio que dói e corrói. Ou meio vazio, daquele vazio que não vê a hora de ser desbravado, transformado.

Não seria a vida, justamente, um copo meio cheio e meio vazio?

A resposta estaria, caro leitor, no que fazemos com ela?

Na maneira como nós lidamos com os ‘abacaxis’ que a vida deixa pelo caminho?

Para uns, os dias vêm e vão.

Para outros, os dias vêm em vão, como folhas mortas pelo chão. Somos como as quatro estações: verão, outono, inverno e a primavera. Somos trem e estação. Dia de seguir?

Oscar Niemeyer costumava dizer: ‘A vida é um sopro, um minuto. A gente nasce, morre. O ser humano é um ser completamente abandonado’.

Portanto, caro leitor, se a vida é um sopro, assopre!

Assopre com toda a sua força, a plenos pulmões!

Assopre um balão e faça com que ele voe alto! Ou assopre bolinhas de sabão pelo ar. Tanto faz, mas assopre. Opte sempre por um dia a mais.

Afinal, cada dia é único.

Assim como você. Afinal, a poesia está nos olhos de quem vê. De quem vê a vida com olhos de criança. A vida é um sopro? Assopre essa vida!

* Abaixo, poema de Pablo Neruda que, com sua ironia, traz grandes reflexões:

‘A Vida. A vida, a vida é coisa lenta. Por isso há que pensar de imediato em deixar que passe sem saber que passa.

Há que deixar de fora todos os demais, há que se meter a gente mais dentro de si mesma. Quando a chuva principia a cair, há que ter uma casa e um telhado e uma braseira. Depois, se chega o bom tempo, que haja uma arvorezinha verde sob a qual descansar.

Há outros homens no mundo, é verdade.

Os portos distantes trazem e levam homens ruivos, de outras terras em que também há sóis e chuvas. Pois bem, esses que chorem. Já se trabalhou bastante para lhes dar o que não se pode dar. Trabalha-se, é claro, depois a gente se acostuma a trabalhar. Os vícios o amor tudo há que deixar de fora. O amor, também o amor. Lá na juventude era bom; sempre havia uma coisa oculta e perfumada que estalava pela boca e pelas veias; agora não.

Agora, menino, agora temos que viver. Deixa tudo de fora, tudo. E conserta o teu telhado, que já começa a chover’..

Abelhinha, sonhando alto com seus óculos de grau

Bruno de camisa preta, ao meu lado, durante a primeira comunhão da minha irmã Marina e da minha prima Malu, no Santuário de Santa Teresinha, em Taubaté

‘Quero ver os meus sonhos’.

Assim meu primo Bruno, ainda com aquele olhar puro e doce de criança, respondia à pergunta que lhe faziam insistentemente: afinal, por que você dorme de óculos?

Desde cedo o Abelhinha, como nós o chamávamos, usava óculos fundo de garrafa, com a armação preta e bem grossa — era parecida com a da Chiquinha, do ‘Chaves’.

Recordo-me dele, com seus 4 ou 5 anos, já com os óculos até mesmo na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, onde morava a família da minha mãe — avós, tios e primos, muitos e muitos primos.

Mas a palavra primo não define com precisão aquilo que éramos. Nós, que me desculpe o Aurélio e os demais léxicos, sempre fomos irmãos. Inseparáveis. Eu de janeiro de 1981, ele de março de 1982, juntinho com o meu irmão Julio, que completava o nosso time.

Crescemos juntos. Nós aqui, ele lá no Rio. Mais do que isso, aprendemos a sonhar juntos. E sonhávamos muito, mas muito alto.

Um exemplo?

Bruno e eu jogaríamos no Corinthians, time do meu coração, e Flamengo, um dos amores dele. Juntos, obviamente. Mais tarde, o futebol e nossas caneladas deixaram claro que o ideal seria mudar de plano e, por isso, passamos a sonhar em ganhar a vida com jornalismo esportivo.

Anos mais tarde, no entanto, ele foi diagnosticado com câncer. Foi uma dura batalha, dolorosa para todos. Quatro anos, até que ele se foi feito um passarinho em 2000 — um dia antes de fazer 18 anos.

Desde aquele tempo, guardei no peito a vontade de poder participar, contribuir de alguma forma, com crianças e adolescentes que enfrentam essa dura batalha.

Este ano, aqui dentro da redação de OVALE, surgiu a ideia de criarmos uma ‘corrente do bem’ envolvendo jornal, galeria Victor Hugo e dezenas de artistas para o benefício do Gacc (Grupo de Assistência à Criança com Câncer), entidade que atende 500 crianças e adolescentes com a doença.

Foto do lançamento da exposição Mãos à Obra, realizado na Galeria Victor, parceira do jornal OVALE no projeto em benefício do hospital do Gacc, em São José. Foto de Gilberto Freitas.

O poeta Raul Seixas cantava que o sonho que se sonha só é só um sonho, mas o sonho que se sonha junto é realidade. E em um tempo com tanta divisão, a solidariedade uniu dezenas de pessoas dispostas a praticar a arte de amar o próximo, como a si mesmas.

Vez ou outra, encontro o Bruno quando adormeço. Espero vê-lo hoje. Ei, Abelhinha, não esqueça os óculos. Porque o sonho vai ser lindo.

A era da pós-verdade: 1984 ou 2018?

Winston Smith ganhava a vida trabalhando arduamente no Ministério da Verdade, órgão estratégico para o onipresente e onipotente regime político totalitário de Oceania. O trabalhador, sempre sob os olhos vigilantes do Grande Irmão, aquele que tudo vê, tem como função a propaganda do partido responsável pelo superestado e também o chamado ‘revisionismo histórico’: ele reescreve artigos de jornais do passado, para que o registro histórico sustente, corrobore, legitime, apoie a ideologia que o líder prega no presente. Traduzindo: ele faz com que o presente caiba no passado, nem que para isso seja preciso torturar fatos e manipular informações. O Ministério ainda destrói todos os documentos que não foram editados ou revisados, eliminando, assim, qualquer prova que poderia mostrar que o Estado esteja mentindo. Neste ambiente, que é ininterruptamente monitorado pela ‘Polícia do Pensamento’, desenrola-se a sufocante e perturbadora trama de ‘1984’, clássico da literatura mundial, obra-prima do escritor George Orwell.

A obra, que foi escrita em 1948 e criou termos como Big Brother e outros, figurou na lista de livros mais vendidos dos Estados Unidos depois da vitória do republicano Donald Trump, em 2016, na campanha eleitoral que cunhou expressões como, por exemplo, pós-verdade, fake news e fatos alternativos. Lá como cá, o pleito foi marcado e manchado por terrorismo digital, com a disseminação de mentiras — um importante agravante registrado no caso norte-americano, foi o vazamento de dados do Facebook para empresa de marketing político (a informação era usada para detectar o eleitor indeciso e agir sobre ele) e a interferência estrangeira.

No Brasil, país onde o presidente da Corte Suprema já reclassificou o golpe militar de 1964 como ‘movimento de 64’, o conceito de pós-verdade (quando, na tentativa de moldar a opinião pública e influenciá-la com mentiras, fraudes e truques, os fatos possuem menos influência que apelos feitos às emoções e às crenças pessoais) e de fatos alternativos têm imperado nessa disputa eleitoral.

Neste cenário, bombardeado e infernizado pelas já tão perniciosas fake news, há, infelizmente, muito pouco espaço para a discussão programática. Porém e o kit gay? Certamente dele uma boa parcela do eleitorado ouviu falar, apesar dele jamais ter existido. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ordenou que o candidato Jair Bolsonaro (PSL) retire do ar uma publicação que acusa seu rival Fernando Haddad (PT) de ser criador desse kit que não existe e jamais existiu.

São todos iguais, mas uns mais iguais do que os outros?

O fenômeno, no entanto, parece ser ambidestro, apesar do número maior de queixas relacionadas à candidatura do ex-militar. Esse mesmo tribunal, por exemplo, determinou nesta terça-feira que a campanha petista retirasse o conteúdo que acusa Bolsonaro de ter votado contra a Lei Brasileira de Inclusão — ele, na verdade, votou contra um dos destaques.

No país marcado pelos fatos alternativos, uma verdade absoluta é que, em 1984 e em 2018, a verdade está duramente ameaçada.

É verdade, há um ataque de mentiras à democracia

Foto: José Cruz/Agência Brasil

É fato. Em uma tragédia anunciada, as fakes news interferiram — e ainda vão interferir mais — nas eleições brasileiras, transformando-se em uma arma cada vez mais letal à democracia, capaz de provocar — ou potencializar — uma onda de desinformação e histeria coletiva, além de pânico, medo, violência e intolerância em escala assustadora e preocupante. Trata-se de um modelo de terrorismo cybernético praticado contra a liberdade de opinião e pensamento, que já havia mostrado todo o seu poderio destrutivo mundo a fora, como nas últimas eleições nos Estados Unidos, México e no Brexit, ou na onda de violência em países como Índia e Sri Lanka, entre outros exemplos. No Brasil, já há pesquisas indicando que 75% dos brasileiros temem que o seu voto seja influenciado por notícias falsas. São três quartos de um eleitorado bombardeado diariamente por mentiras e boatos plantados estrategicamente, com o objetivo de demonizar determinados candidatos e beneficiar outros. Estão roubando a sua opinião.

As fake news, que têm 70% mais chances de viralizar, ‘bombar’ do que teria uma notícia verdadeira, encontraram nas redes sociais — ou hoje antissociais — um terreno propício para propagarem-se feito uma praga.

Nos EUA, nas eleições de 2016, a rede social Facebook foi a plataforma mais utilizada para a disseminação das notícias falsas na campanha de Donald Trump e foi jogada para dentro do escândalo da Cambridge Analytica — a companhia de marketing político que usou dados de 87 milhões de perfis para influenciar sua escolha.

No Brasil, apesar de também se propagar no Facebook, as fake news possuem como carro-chefe o aplicativo WhatsApp, que tem o impressionante número de 120 milhões de usuários no país.

O Whats é atualmente uma ferramenta muito presente no dia a dia da população. Segundo os dados do Datafolha, um percentual de 61% dos eleitores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) se informam pelo aplicativo. O número é de 38% em relação a Fernando Haddad (PT). É muita coisa.

E a estratégia de espalhar notícias falsas nesse ambiente, infelizmente, tem se mostrado eficaz.

Mas e por quê? A mensagem é entregue dentro da bolha em que vive aquela — principalmente nos grupos familiares, de pessoas da confiança do receptor, de acordo com estudos recentes. Isso é ainda agravado pela dificuldade que uma parte da população tem para interpretar textos — somente 22% dos brasileiros que chegaram até a universidade têm condição plena de compreender e se expressar, revela o Indicador de Analfabetismo Funcional.

Esse clima de intolerância, que é turbinado pelas fakes news, está materializado na triste escalada de violência. Já são 56 agressões ou ameaças nos últimos dias, segundo os dados da Agência Lupa, sendo 50 ligados a simpatizantes de Bolsonaro e 6 de Haddad.

Até aqui, o Brasil tem mostrado-se absolutamente incompetente para coibir o problema.

Não se engane.

Nossa democracia hoje está sob ataque, um duro ataque de mentiras. É verdade. É preocupante.

É fato, isso não é fake.

Memes, debates e ‘Zap Zap’ na briga pelo voto

Debate. A eleição é o ponto máximo do sistema democrático, uma oportunidade indispensável para que a sociedade possa debater quais são seus principais problemas e que soluções pretende adotar, que prioridades deve definir e que linhas traçar para trilhar o caminho do futuro. É a hora de colocar frente a frente as mais diferentes correntes de pensamento político e ideológico, confrontar as visões por vezes antagônicas e diametralmente opostas que temos para a realidade de um mesmo país. Neste pleito de 2018, que tem papel fundamental para os rumos de uma nação mergulhada até o pescoço em uma crise política e econômica, nunca se debateu tanto. Infelizmente, quando o assunto é a corrida presidencial, principalmente neste segundo turno, o debate se restringe apenas às redes sociais, infestadas de ódio e amplamente contaminadas pelas fake news. Mas e o confronto entre os candidatos, cadê?

Infelizmente, ao que tudo indica, o eleitor brasileiro não terá a oportunidade de ver os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto frente a frente, discutindo, argumentando, discordando, questionando um do outro ao vivo em um debate.

Aliás, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) podem encerrar a disputa no dia 28 sem terem duelado nenhuma vez — no início da campanha, quando seu adversário chegou a comparecer a debates, o petista ainda não havia sido lançado pelo seu partido; depois, o capitão da reserva deixou de comparecer aos confrontos após ter sido vítima de um atentado em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro.

Depois de Bolsonaro argumentar que não podia participar dos debates por recomendação médica, hoje é evidente que trata-se, neste momento, de uma estratégia de campanha.

De acordo com o Ibope, em pesquisa que foi divulgada nesta segunda-feira, o candidato do PSL tem 59% das intenções dos votos válidos, contra 41% do petista — uma larga vantagem faltando 12 dias para a eleição.

Com a faca e o queijo na mão, por que arriscar? É o que defende a estratégia de campanha, ciente de que o ex-militar é conhecido por frases infelizes e polêmicas, que, em tese, poderiam provocar danos à candidatura.

Ele tem optado por fazer lives nas redes sociais — onde não está diante do contraditório — e participar de programas de televisão selecionados por sua equipe.

Quem perde é o eleitor, a democracia. Quer ver debate?

Por enquanto, neste 2º turno, só mesmo se for no WhatsApp.

Just another brick in the wall

O muro. Invisível porém palpável, o muro é construído tijolo por tijolo, dia depois de dia, de forma lenta e dolorosa, tendo o discurso de ódio e a ignorância como argamassa. O muro, pintado com a cor do extremismo ideológico ambidestro, divide os pais e filhos. Mães e filhos. Irmãos. Amigos. Parentes. Opõe ‘nós’, de um lado, e ‘eles’, de outro. Escava, no peito da mãe terra, trincheiras onde planejava-se a edificação de pontes para o futuro. Secciona e amputa. Tortura fatos, dissemina a confusão, a mentira, a barbárie e a histeria coletiva. Expõe preconceitos, incentiva o patrulhamento ideológico e coloca os iguais em lados diferentes, como inimigos — e não opositores. As eleições brasileiras, como se evidencia tanto nas redes sociais quanto no dia a dia fora delas, aprofundaram a divisão no país. Partido, um Brasil partido após a grave crise econômica, política, moral e que assassina o mito de que somos um povo cordial.

Essa divisão foi notícia na noite de terça-feira, quando o baixista Roger Waters, ex-líder da icônica banda Pink Floyd, apresentou-se em São Paulo para 45 mil fãs, em um show da turnê ‘Us Them’. O astro do rock, mundialmente conhecido por clássicos como ‘The Wall’ e outros tantos, foi vaiado e aplaudido ao criticar o candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Acirrada, a campanha eleitoral tem se mostrado uma guerra sem trégua. Notícias falsas, discurso de ódio contra as minorias, tiros disparados contra a caravana de Lula, o absurdo atentando contra Bolsonaro, troca de socos e pontapés entre os militantes, o assassinato de Moa do Katendê, brigas no Facebook, fake news…

Todos esses formam um conjunto de exemplos, just another brick in the wall. Apenas um tijolo a mais na construção do muro que nos divide. No entanto, diferentemente do que diz a letra de ‘The Wall’, isso é sinal de we need education.

E democracia.

O menino que fui nas eleições que já se passaram

Dia 5 de junho de 1989.

Com os olhos vidrados na tela de nossa surrada tevê, aparelho que transportava um planeta inteiro para a sala da minha casa graças àquelas granuladas imagens em preto e branco, o menino que eu fui assistia paralisado a cena histórica: de peito aberto, desarmado, um jovem estudante desafiava uma coluna de tanques de guerra na praça da Paz Celestial, na capital chinesa. Naquele dia, que entrou para os registros da História como o ‘Massacre da Praça da Paz Celestial’, milhares decidiram sair às ruas de Pequim e outras cidades para protestar contra o regime, a corrupção e a crise econômica, agravada pelos altos índices de desemprego e de inflação. O jovem destemido que parou os tanques, apelidado de ‘rebelde desconhecido’, teve sua imagem vista em todo mundo.

O seu paradeiro, assim como a sua identidade, ainda são mistérios até hoje, 29 anos depois.

Naquele ano, marcado também pela queda do muro que separou a Alemanha em duas por longos 28 anos, o menino que eu fui fez, aos 8 anos, a sua primeira cobertura eleitoral. Era um trabalho escolar, na disciplina de Estudos Sociais. Depois de um hiato de 29 anos, os brasileiros voltariam a votar para presidente. Com um caderno nas mãos, lembro-me de que eu percorri a pé, sozinho, comitês de candidatos, então espalhados pela Taubaté da minha infância. Imagens esparsas, que resistem à memória fraca, dizem que havia uma muvuca, jingles e distribuição de santinhos, além adesivos e camisas dos candidatos. Ah, e muitas promessas.

Vinte e nove anos depois, era o momento do eleitor reencontrar-se com a democracia. Depois do término do nefasto período ditatorial, em que liberdades haviam sido cassadas e pessoas caçadas, perseguidas, torturadas e mortas brutalmente, era tempo de crise econômica e descontentamento profundo e crescente com a política — o Congresso e o presidente José Sarney, do MDB, tinham alto índice de rejeição no país.

Agora, para minha surpresa, 29 anos depois, o menino que eu fui bateu à porta da minha consciência. Depois de ver, em 1989, mais um capítulo da trama ‘O salvador da pátria’, o garoto me procurou por essas bandas, de 2018, e com uma expressão pra lá de confusa pediu-me para entrar. Nem bem adentrou a sala dos meus pensamentos, já falou pelos cotovelos a respeito daqueles acontecimentos decisivos de 1989.

De um lado da disputa eleitoral, ele dizia, havia um candidato de um partido nanico, que prometia caçar marajás e livrar o Brasil da ameaça comunista. Do outro, um homem chamado Lula, que dizia a todos ser diferente dos demais, porém que os adversários diziam estar preso a uma companheirada que poderia dar PT no Brasil.

Tentei explicar ao menino que fui que, como a história mostrará a ele, salvador da pátria só mesmo na novela. E que, 29 anos depois, ao invés de derrubar muros e erguer pontes, o Brasil está dividido. E o rebelde desconhecido? A luta contra o autoritarismo segue imprescindível. Nos despedimos com um abraço. Antes de ir, ele então me perguntou: quando é que o futuro vem?.

 

De que sonhos somos feitos?

Do que são feitos os sonhos?

Esta é uma questão que vira e mexe rouba meu sono. Apesar de estar bem longe de ser um PhD no tema, já que dificilmente recordo-me daquilo que sonhei, creio que eles são de três tipos: aqueles que sonhamos enquanto dormimos, os que sonhamos acordados e, também, os sonhos de padaria, com bastante creme e sabor delicioso! Quando menino, fantasiava que os sonhos eram feitos com nuvens de algodão doce. Lá, naquele mundo confeitado e doce, tudo era absolutamente possível. As aventuras corriam soltas, como num filme de cinema.

Por aquelas bandas, já joguei com a camisa 10 do Corinthians em um Pacaembu lotado, fazendo gol de placa em decisão contra o Palmeiras e levantando os maiores títulos do mundo. Certa vez, em meio a uma paixão platônica infantil pela personagem Wednesday, da Família Addams, até vampiro sonhei tornar-me. É, tem gosto para tudo, não é?

Desta época, lembro-me que o meu primo Bruno, irmão que a vida me deu, costumava dormir com os óculos. Desde pequeno, ele tinha uma miopia das bravas, tendo que usar óculos com uma armação grossa, daqueles fundo de garrafa. De tão acostumado, Bruno até dormia com eles. Certa vez, um adulto então perguntou para ele: mas e por que não tira os óculos para dormir?

‘Quero enxergar os meus sonhos, ué’, respondeu Bruno, tendo nas palavaras uma pitada da lógica tão peculiar às crianças.

Bom, mas falando nele, recentemente tive a felicidade de sonhar com meus melhores amigos: Bruno e o Julio, meu irmão. Era um dia claro, com um sol de anos 80, com jeito de Sessão da Tarde e Eskibon. Nós estávamos em um corre-corre daqueles, em uma grande aventura, de volta à infância. Parecia tão real. Tive a oportunidade de matar essa saudade do Bruno, esse meu irmão que se foi tão jovem.

Seriam, então, os sonhos feitos de saudade? Um jeito engenhoso criado por Deus para que nós possamos rever aqueles que tanto amamos? Afinal, o que é a saudade senão a presença de um amor fisicamente ausente?

Os sonhos seriam, então, a janela que permite que o filho reveja seu pai, de quem tanta falta sente? Ou então, possibilitaria a mãe sentir novamente a presença e o perfume da filha? E o menino apaixonado, hoje tão só, reencontraria neles o seu amor e entregaria a ela a rosa mais bonita, juntamente com um bilhete: Não te enganou a primavera com beijos que não floresceram?

Do que são feitos os sonhos?

Seriam, talvez, os sonhos rascunhos de nossas vidas incompletas? E há quem diga que sonhar nada mais é do que acordar para dentro. Quanto pesa um sonho? Como pesá-lo? E quantos deles caberiam em um só coração?

E em um coração só?

Há quem diga que o homem é do tamanho de seus sonhos.

Do que são feitos os sonhos?

Confesso que não sei. Na verdade, tenho a impressão de que a questão talvez esteja mal formulada. Cada vez mais creio que a pergunta correta é: de que sonhos nós somos feitos?

A assinatura de OVALE

Assinatura.

A informação, nos tempos de fake news e boataria, precisa ter assinatura, chancela, nome e sobrenome. Peso e história. Origem. Ética, isenção e independência. Credibilidade. Sim, a assinatura de um veículo é a sua credibilidade. Ela é que diferencia jornalismo sério do boato. É como um selo que ajuda o leitor a separar o joio do trigo, a separar verdade e mentira. Quando um tsunami de notícias falsas invade violentamente sua timeline, a prática jornalística crítica, apartidária, imparcial e séria transforma-se em farol, capaz de nortear com a luz da verdade a sociedade que se vê à deriva, quase indo à pique, em meio à penumbra. A democracia, hoje atacada frontalmente, morre na escuridão. Por isso, o feixe do farol torna-se dia a dia ainda mais e mais imprescindível.

A assinatura de OVALE é, sem dúvida, um olhar crítico, questionador, apurado e absolutamente livre, sem amarras ou rabo preso.

No último dia 21, no lançamento de um caderno especial que é dedicado ao jornalismo investigativo e às grandes reportagens, o jornal revelou a ‘Farra das Viagens’ na Câmara de Taubaté, um esquema que atinge 10 dos 19 vereadores e consiste em engordar notas fiscais para, assim, aumentar o valor do reembolso — pago com dinheiro público.

No total, foram 14 meses de investigação jornalística. Primeiro, o editor-executivo Julio Codazzi, por estranhar os gastos (a Câmara chegou, acredite, a desembolsar mais de 700% acima da Casa Legislativa joseense, por exemplo, apesar de possuir um número menor de vereadores), pediu as notas fiscais das viagens, para que o leitor — patrão de OVALE — pudesse saber, com total transparência, como o dinheiro de seu imposto estava sendo gasto.

Com estranha falta de transparência, que tem sido a assinatura (ou garrancho) de sua tão desastrosa administração, o presidente da Câmara de Taubaté, Diego Fonseca (PSDB), negou o acesso do jornal às notas fiscais.

O que havia a esconder?

Em defesa do interesse público, outra marca da assinatura de OVALE, o jornal, diante da negativa, entrou com uma ação judicial cobrando a disponibilização dos documentos. Após a decisão judicial, favorável a OVALE, essas notas foram divulgadas… e, logo se viu o porquê do Legislativo tentar mantê-las debaixo do tapete. O que se viu? Uma farra com os cofres públicos.

Ontem, ao se pronunciar sobre o caso pela primeira vez, a Casa Legislativa, sem conseguir explicar o inexplicável, disse ser vítima (sim, vítima) de ‘perseguição’ do jornal devido ao corte de algumas assinaturas em 2017.

Diante de uma explicação tão estapafúrdia, OVALE publicamente disponibiliza gratuitamente a partir de hoje uma assinatura para cada gabinete da Casa. Nosso único interesse é a verdade.

E não é só. Os vereadores ainda receberão o cartão do Clube OVALE, que dá descontos para assinantes em 140 estabelecimentos — incluindo bares e restaurantes; quem sabe assim eles não gastam menos na farra das viagens? Jornalismo independente.

Esta é a assinatura de OVALE.

 

 

Farra das viagens: prova dos 9

Após 14 meses de apuração, os jornais OVALE e Gazeta de Taubaté iniciaram no dia 21 de julho a publicação da série de reportagens intitulada ‘Farra das Viagens’, que escancarou de forma inapelável um esquema criado na Câmara taubateana para que parlamentares engordassem as verbas para reembolso em viagens oficiais. A conta , é claro, era paga pelo contribuinte.

As reportagens de OVALE  e Gazeta, como prega o jornalismo independente e forjado pela credibilidade, estão embasadas em notas fiscais fornecidas pela Câmara à reportagem, depois de uma determinação judicial.

Apesar de ser público, afinal o eleitor tem o direito de saber como o seu dinheiro é gasto, o acesso a tais informações foi inicialmente negado aos jornais, que então recorreram ao Judiciário, representando os interesses da sociedade. Com a vitória nos tribunais, as notas foram liberadas.

E logo ficou claro o que a Câmara tentava esconder. Dez dos 19 vereadores estão citados no escândalo, que abalou as estruturas políticas da cidade. Confira o flip: http://flip.ovale.com.br/edicao/impressa/1444/21-07-2018.html?all=1

Obviamente, antes da publicação da primeira reportagem, como estabelecem as normas basilares do bom jornalismo, a reportagem de OVALE e Gazeta de Taubaté procurou os parlamentares citados. Inicialmente, na primeira publicação, foram citados oito — TODOS eles procurados para que pudessem se pronunciar. Depois, ao longo da semana outros dois vereadores foram incluídos na denúncia.

Curiosamente, além de não explicarem gastos esdrúxulos como, por exemplo, o consumo de 4,4 quilos de comida em uma só refeição, alguns dos parlamentares acusaram os jornais de não procurá-los, não dar espaço para que se posicionassem. Talvez seja amnésia. Vamos ajudá-los, então.

Abaixo os comprovantes do contato feito pela reportagem antes da publicação da denúncia sobre a Farra das Viagens. Os contatos foram feitos no dia 19 de julho (para os oito primeiros citados) e a reportagem publicada no dia 21. Na semana seguinte, antes de serem citados (não foram citados na primeira matéria), outros dois vereadores (Alexandre e Graça) foram ouvidos. O contato com o vereador Bilili de Angelis (PSDB) foi feito via telefone.

Os parlamentares que não responderam o Whatsapp foram procurados depois por outros meios: ligação no celular, ligação no gabinete e e-mail.

DIEGO FONSECA (PSDB)

VIVI DA RÁDIO (PSC)

ALEXANDRE VILLELA (PTB)

BOBI (PV)

GORETE TOLEDO (DEM)

JESSÉ SILVA (SD)

DENTINHO (PV)

DOUGLAS CARBONNE (PCdoB)

GRAÇA (PSD)

Já na primeira reportagem, em nome do jornalismo plural e ético, os jornais OVALE e Gazeta dedicaram uma página para o chamado ‘Outro Lado’ dos vereadores citados no escândalo. O resto? É conversa.

Parlamentares negam irregularidade, mas não explicam erros nas notas