O amor é a melhor notícia do dia

Extra! Extra! Extra!

O amor é a melhor notícia do dia! Aliás, não só do dia… não, nem da semana, do mês, do semestre, do ano… Não, não, a verdade é que o amor trata-se da melhor notícia da história! É verdade verdadeira, não é história para boi dormir.

E o amor multiplica-se quando é compartilhado, contrariando a lógica matemática e esclarecendo que divisão não é com ele. Ah e nem subtração. Afinal, o amor é apaixonado por somar, somar, somar… quantas vezes puder.

“O amor é contagioso”, parafraseando o subtítulo do filme Patch Adams, lançado em 1998.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, o amor contagia.

Como sei disso? Bom, vou me ater a três exemplos recentes.

Sou idealizador de um projeto chamado Cartas Perdidas, criado com o propósito de espalhar palavras de fé, esperança e amor por aí. Afinal, palavras são como pássaros. Que tal libertá-las?

Neste mês, voluntários — elos mais importantes da corrente do bem — enviaram mensagens a 50 adolescentes que vivem em comunidades carentes de Manaus, a pedido da professora Flávia de Oliveira, do Laranja Roxa.

Prova de que para o amor não tem distância, afinal as cartinhas viajaram 4.000 Km até aterrisarem no coração do Amazonas.

O amor também não tem idade — quer ver só? Em uma semana, 80 voluntários enviaram “cartas gravadas” para vovôs e vovós de asilos da região. É muita gente!

Eram as crianças do Instituto Alpha Lumen e do canal Desafio de Poesia para Crianças, além de artistas, poetas, e muito mais.

Os idosos amaram!

O amor é também o melhor remédio. Em meio à campanha de Setembro Amarelo, em que nós espalhamos cartas com palavras de valorização à vida, recebi um retorno depois de uma mensagem da voluntária Paula Salgado ter sido achada em Campos.

O destinatário escreveu: “Perdi um filho há dois anos pelo suicídio e essa dor venho carregando desde a perda. (…) [Ao ler a carta] Me senti a pessoa mais importante do mundo. (…) Parabéns, Deus coloca as pessoas certas nosso caminho. Continue levando essas mensagens, pois seres humanos como vocês, ainda mesmo idoso, me fazem acreditar que mundo vale a pena”.

O amor nunca falha.

Nas ruas da cidade que foi minha

Passo a passo, minhas pegadas ficam demarcadas no compasso do tempo — mesmo nesse tempo tão repleto de contratempos, de notas dissonantes e fora de tempo, nesses tempos de pandemia.

A pé, depois de tanto tempo em isolamento, percorro passo a passo as veias abertas da velha cidade que foi minha, mas que, de concreto, já não é mais.

Ao caminhar pela minha terra natal, a já quase quatrocentona Taubaté, os meus pés acariciam a face oculta da rua e, pisando de leve sobre os ladrilhos gastos pelas invernais estações do tempo e melancolia, me levam a passear pelas alamedas da memória. E, nesse entroncamento entre ontem, hoje e um amanhã à espreita, ali na esquina, parto logo cedo em busca de um café e jornal, enquanto meu olhar espanta-se diante das mudanças profundas impostas pelos ponteiros da vida no cenário da terra onde nasci e cresci. Mas onde está a cidade que foi minha?

Na praça Santa Terezinha, ali tão perto de casa, havia um casarão construído respeitando a arquitetura alemã, assemelhando-se a uma daquelas simpáticas cabanas dos contos de fada — meus irmãos (Marina e Julio) e eu, por sinal, por anos acreditávamos que ali viviam a Branca de Neve e os sete anões. Mas, o imóvel hoje ‘era uma vez’. Tornou-se pretérito, dando lugar a uma insossa e tristonha farmácia de um tão combalido azul, apesar de ainda ser conjugado no presente dentro de mim. Ele segue de pé em minha lembrança, enquanto eu sigo a pé.

E caminhando daqui para lá e de lá para cá, encontrei portas fechadas, além de outras farmácias e igrejas, como a que ocupa hoje o espaço daquele antigo cinema onde eu quase nasci, no meio de uma sessão noturna de sexta-feira em 1981.

Minha mãe conta que em cartaz estava o filme “Apertem os cintos, o piloto sumiu”. Admito que eu prefiro a versão paterna, de que a telona do Cine Palas exibia ‘O iluminado’ naquela noite de 30 de janeiro.

Mas, voltando ao trailer desta minha vida em cartaz, percorro a pé uma cidade que muda a todo o momento.

E tem remédio?

Esta é a receita do ‘progresso’, diz o outro na prece do desenvolvimento. Seria saudosismo? Não sei. Afinal, o que é bom mesmo para a memória?

Esqueci. Que pecado. Só me lembro que…

A pé, após tanto tempo afastado, eu percorro passo a passo as veias abertas da cidade que foi minha, mas que hoje, de concreto, já não é mais.

Depois de tantos anos, porém, a reconheço onde ninguém mais a vê, no contrapé da obviedade erguida à vista de todos, tijolo por tijolo.

E ela me reconhece também?

Aposto que quando me vê, ali naquelas ruas, pensa o mesmo.

E nessa esquina da cidade que foi minha e hoje, de concreto, já não é mais, os meus pensamentos guardam morada na sombra de uma jabuticabeira que, após anos de frutos, hoje dá saudade.Uma saudade doce, colhida na pontinha do pé.

O tempo todo.

Nuvens no céu, jogo de dados e Covid na urna

“Política é como nuvem, Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. Apesar de chavão, a frase de Magalhães Pinto (1909-1996), velha raposa da política mineira, é cirúrgica e atual, ainda mais em 2020, quando um dia dura uma semana em meio à pandemia da Covid-19.

Tudo pode mudar abruptamente neste Brasil solapado por três crises severas: a Covid-19, a sua consequência avassaladora na economia e Jair Bolsonaro.

E como anda São José?

OVALE, dando início à maior cobertura de sua história, largou na pole, publicando com exclusividade a foto das nuvens que pairam sobre o céu da política joseense. O levantamento OVALE/ Paraná Pesquisas, publicado no último dia 13, mostrou quais são as cartas sobre a mesa.

Revelando a fotografia, observando os negativos, lendo nas entrelinhas, é possível verificar o embate isolamento e flexibilização como o pano de fundo.

Após mais de três meses de quarentena, apesar dos apelos feitos pelas autoridades científicas, o apoio ao distanciamento social, visto no início do processo, foi minado pelo discurso do Palácio do Planalto — o capitão apostou na artificial dicotomia saúde versus economia.

Em abril, pesquisa da prefeitura mostrou apoio de 82% da população às medidas de isolamento. Dois meses depois, levantamento de OVALE mostrou uma mudança drástica: 64,5% dos joseenses a favor da reabertura do comércio. Isso mesmo com a explosão no número de casos e mortes, em um país que já enterrou mais de 55 mil vidas ceifadas pela Covid-19.

Essa alteração, que também influenciou governantes, permeou a pesquisa. Defensor maior da reabertura, o presidente é avaliado em São José como ótimo ou bom por 39,4%. Bolsonaro é aprovado por 51,6%.

Principal antagonista de Bolsonaro, o governador João Doria (PSDB) segue por um caminho contrário: sua gestão foi reprovada por 50,4%. Atento aos humores da sociedade, o governo Doria recalculou a rota devido à queda de avaliação. Se em maio a palavra da vez era lockdown, ela foi substituída por ‘reabertura consciente’ no mês de junho.

Em São José, o prefeito Felicio Ramuth (PSDB), que já em abril iniciou a defesa de uma reabertura gradual, teve aprovação de 69,9% na pesquisa.

O tucano lidera a corrida pelo Paço, com 40,8% na intenção de votos — na pesquisa estimulada.

A defesa da flexibilização trouxe, por ora, dividendos políticos ao prefeito, favorecido também pela ausência de um nome forte ligado ao presidente, que pudesse ‘herdar’ o ativo, e ainda pela falta de uma sombra, de um adversário que — ao menos hoje — mostre-se competitivo.

Com o aumento no número de casos e mortes de Covid-19, Felicio atenuou o discurso e adotou novas medidas, como restringir o comércio não-essencial no fim de semana.

Revelada a foto do céu de São José, resta agora saber como as nuvens se movimentarão até a eleição e qual será o impacto da pandemia nas urnas.

O silêncio de um coração que parou de bater

Um.

Um amor.

Um amor de 40 anos.

Antonio e Glória conheceram-se nos tempos de faculdade, no Rio de Janeiro. Juntos, criaram uma linda família, com Felipe e Gabriela, filhos que lhes deram as netas Giovanna e Sophia.

O coração de Antonio Zumpichiatti, fanático pelo Fluminense, parou de bater.

Ele é só um número?

Uma.

Uma cozinheira.

Uma cozinheira de mão cheia!

Dona Francelina Ferreira, 77 anos, tinha uma forma especial de demonstrar carinho. Dedicada, tinha um superpoder: “Sabia fazer a melhor polenta frita do mundo”, conta a neta Suelen.

O coração da Francelina, moradora de Santa Isabel, parou de bater. Ela é só um número?

Um.

Um ás.

Um ás do baralho.

O paulistano João Tavares, 81 anos, era considerado o melhor jogador de baralho de todos os tempos. Porém, há algo que ele fazia melhor: ser marido, pai e avô. Descia morros em caixas de papelão com os filhos, assistia filmes com os netos.

O coração do João, o ás do baralho, parou de bater.

Ele é só um número?

Uma.

Uma energia.

Uma energia vital.

Era o que movia a taubateana Erika Regina Leandro dos Santos, 39 anos. Uma batalhadora, aprendeu cedo a encarar a vida de frente, sem jamais deixar de sorrir. Era aquela pessoa que, em cinco minutos, tornava-se a melhor amiga de todos.

O coração de Érika, a dançarina da alegria, parou de bater.

Ela é só um número?

Um.

Um coração.

Um coração alvinegro.

Doutor, eu não me engano, o coração do Seu Arnaldo Rodrigues Filho era corintiano. Mas, aos 74 anos, também cabia neste peito espaço para a caridade, lá na igreja de Santa Teresinha da Saúde, em São Paulo.

O coração do Arnaldo, fanático pelo Timão, parou de bater.

Ele é só um número?

Um.

Um Pai Nosso.

Um Pai Nosso, uma Ave Maria.

Religiosa, Gracinda de Castro Neves, 94 anos, só dormia depois do sussurro do Pai Nosso e da Ave Maria. Sorridente, era amada por seus quatro filhos, seis netos e já quatro bisnetos.

O coração de Gracinda, querida por todos, parou de bater.

Ela é só um número?

Um.

Um herói.

Um herói de jaleco.

O médico Alex Bello, 53 anos, amava salvar vidas. Mas o coração dele parou de bater.

Ele era só um número?

Não.

É uma das faces da pandemia da Covid-19, que já ceifou mais de 27 mil vidas no país.

Antonio, Erika, Alex, Francelina, João, Arnaldo, Gracinda… e tantos outros não são números. São um. São únicos.

Cada um deles era o Brasil.

Era um coração que parou.

Era cada um de nós..

Por quem os sinos dobram em são José?

Por quem os sinos dobram?

Deitado em seu leito, onde repousava o corpo cansado, palco de uma dura batalha travada na entre vida e morte, o poeta John Donne (1572 – 1631) escutava o som vindo do campanário.

Era a pergunta que seguia-se, feita por pessoas próximas, por quem por ali passava.

Trocando em miúdos, de forma resumida, o questionamento era: ‘quem morreu?’. O tilintar indicava uma morte.

Em sua obra intitulada Meditações, de 1624, o escritor e reverendo britânico publicou aquele que é seu poema mais conhecido, que resiste aos séculos e ainda segue sendo recitado nos dias atuais. E ele diz:

“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Traduzindo: não pergunte quem morreu, pois se um homem morreu, morreu também um pedaço de toda a humanidade.

Nos dias atuais, o sino dobra à exaustão em meio à luta contra a pandemia do novo coronavírus, que já matou aproximadamente 150 mil pessoas em todo o mundo. É a maior crise global desde a Segunda Guerra Mundial.

E quanto vale uma vida?

Segundo um estudo da Unifesp (Universidade Estadual Paulista), os casos da Covid-19 no interior paulista estão três semanas atrás dos números registrados na capital. “Então não é hora de relaxar a quarentena. Estamos vivendo a maior calamidade pública desde a gripe espanhola”, diz o professor Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, da Faculdade de Medicina da Unesp.

E nesse cenário tão crítico, que deverá se agravar nas próximas semanas, a Prefeitura de São José, contrariando a ciência, o Estado e a OMS (Organização Mundial da Saúde), cedeu à pressão do comércio e flexibilizou as regras para o isolamento social — única arma contra o vírus.

É o maior erro deste governo.

Por quem os sinos dobram?

Eles dobram por ti. Blém-blém….

Ensaio sobre a cegueira e a quarentena do amor invisível

Ensaio sobre a cegueira.

Ao percorrer as ruas vazias, observando pessoas com máscaras e o corre-corre quase apocalíptico para os supermercados, logo me vem à memória a obra do escritor português José Saramago (1922-2010), publicada no ano de 1995 e levada às telas do cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles 13 anos depois. Na história, o mundo se vê abalado por uma epidemia: a ‘treva branca’. A doença, que espalha-se de forma incontrolável, tira a visão de seus infectados. Em quarentena, a sociedade cega percebe-se reduzida à essência humana, em uma viagem às trevas. Os tempos são sombrios. Saramago destacava a responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam.

Fechar os olhos para ver.

Na história, a humanidade, com toda a tecnologia e civilidade que se orgulha de ter criado, em pouco tempo libera os instintos mais animalescos. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, escreveu o genial português.

Falando em cegueira, seria uma visão pessimista da nossa realidade? “Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo”, responderia o Nobel de Literatura.

Fechando os olhos, o que veremos dentro de nós, em 2020, tendo adiante uma crise tão severa, agravada por um governo cegado por sua ineptidão? Que natureza vai emergir no nosso peito?

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”, sentenciou. “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Seria eu mais otimista?

Diante de um cenário tão grave, com milhares de vidas em risco e risco de colapso econômico, ser otimista é algo impensável.

No entanto, ao fecharmos nossos olhos para ver, acredito que é possível refletirmos sobre muitos aspectos. O que não víamos, mas agora enxergamos?

Serão meses de confinamento e rígidas (e corretíssimas) orientações para que evitemos abraços, beijos e até mesmo um aperto de mãos. Há quarentena de amor?

Tal sentimento, que pode se traduzir de variadas formas, estava mesmo circulando livremente?

Você o via nas esquinas?

Mascarado, talvez? Ou no olhar de estranhos que se cruzavam na fila do oftamologista? Recuperar a lucidez, resgatar o afeto. Agora cegos, voltaremos a ver o amor?

NOTINHAS

ISOLAMENTO

Para evitar risco a idosos do Lar São Vicente de Paulo, em Santana, grupo Cartas Perdidas trocou as visitas por vídeos.

TRADUÇÃO

Afinal, o amor é o melhor remédio e multiplica-se quando compartilhado. Há palavras que são como abraços bem dados.

SARAMAGO

“O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio”. Qual é o seu sonho?

Uma carta e um abraço

Uma carta na mão e um propósito na cabeça.

E lá estava eu, em pé diante de uma sala lotada, falando a respeito do amor ao próximo. Acredito que cada palavra é uma semente, que pode cair (ou não) em boa terra e gerar bons frutos, se semeada com cuidado e carinho. E passei aquela manhã de janeiro, menos de dois meses atrás, acompanhado por voluntários, na companhia de 45 adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas na Fundação Casa de Taubaté. E não perguntei a nenhum deles que infrações haviam praticado, pois não estava ali como juiz.

E nem como jornalista.

Estava ali Guilhermo Codazzi da Costa, voluntário idealizador do projeto Cartas Perdidas, que tem a missão de espalhar mensagens de fé, esperança, poesia, acolhimento e amor em locais públicos, orfanatos, asilos, hospitais, além de famílias carentes, moradores de rua, etc.

E o que faria o jornalista Guilhermo Codazzi da Costa? Perguntaria.

Pensei muito a respeito desse tema após a polêmica, que tem sido tão comentada nas redes e também nas redações, envolvendo a reportagem de Drauzio Varella no ‘Fantástico’ e o abraço do médico na presa Suzy.

O repórter que fui, tendo visitado inúmeros presídios e unidades da Fundação Casa, também nunca foi ‘juiz’ em suas apurações, porém buscava informar. ‘Jornalismo é precisão’, diz uma máxima repetida à exaustão, como mantra, nas redações jornalísticas. Ao contar a história de um preso, dizer ao público que crimes esse personagem cometeu me parece parte fundamental da apuração.

Dito isso, sem querer vomitar regras, ser ombudsman, muito menos desmerecer a trajetória de Varella, mas para promover o debater, avalio que houve sim um erro jornalístico. É um fato. E qual foi o erro?

A reportagem não cumpriu o seu papel basilar: informar com clareza e transparência. Ao não informar que a presa foi condenada por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos, ela induziu o seu público a entender a história de forma distorcida, como se Suzy não recebesse visitas por ser trans.
Acredito que a justificativa inicial de Varella, de que como médico não agia como juiz e não questionava os seus pacientes sobre sua história de vida, não se sustenta. Meu diagnóstico é que ali estava sendo produzido um material jornalístico, não se tratava de uma consulta médica. E um conteúdo editorial com erro de apuração. É salutar, inclusive, que a emissora e Varella tenham reconhecido o erro, afinal não se pode abraçar as falhas, a transparência na relação com o público é primordial.

A polêmica tem ainda outras facetas. Em um momento delicado, em que governos que flertam com o autoritarismo atacam a liberdade de imprensa diariamente, o caso dá munição para milícias digitais atacarem o jornalismo e fazerem uso político do episódio, inclusive com uso de fake news — como, por exemplo, a história mentirosa de que Varella teria aspirações políticas. Há também o reforço de estigmas contra trans, que sofrem sim preconceito no país, seja dentro ou fora do sistema prisional.

Agora, o abraço foi um erro? Merece polegar pra cima ou pra baixo?

O voluntário Guilhermo Codazzi da Costa, particularmente, abraçaria Suzy, Drauzio, principalmente a família do menino brutalmente assassinado e abraçaria você também, esteja agora concordando comigo ou me crucificando. O Guilhermo cidadão cristão também faria o mesmo que o doutor ateu fez, não no exercício da prática jornalística e sim no exercício do que entende ser o amor incondicional ao próximo, ensinado pelo filho de um carpinteiro da Galileia, que dizia que devemos perdoar 70×7 (que dá mais do que 490) e andava ao lado também de ladrões, prostitutas, cobradores de impostos, adúlteros e outros grupos marginalizados.

“Estive na prisão, e foste me ver”. (Mateus 25:36)

O amor e o perdão são sempre a melhor notícia do dia. Um abraço a todos!

P.S. 1. As cartas dos adolescentes da Fundação Casa serão levadas para um asilo de Pindamonhangaba. Os idosos responderão e vamos criar uma troca de correspondência entre essas gerações tão diferentes.

P.S. 2. Que tal escrevermos cartas para a família do menino?

P.S. 3. Em 2020 queremos tirar do papel também o envio de cartas para unidades do sistema prisional e outros públicos. Já atendemos asilos, orfanatos, hospitais, população de rua e ajudamos parceiros na tentativa de facilitar a adoção de cães abandonados, entre outras ações.

Luz vermelha que não se apaga e cartas perdidas

Uma luz vermelha.

Tal qual um farol, que com seu feixe luminoso ajuda os navegadores a vencerem o mar bravio, aquela luz vermelha me conduz ao porto seguro das lembranças, àquele cantinho da memória em que, em águas tranquilas, banhamos os pés e lavamos a alma.

A luz vermelha vinha de dentro do sacrário do Santuário de Santa Terezinha, na minha Taubaté de menino. Corria o ano de 1987, se minha memória não falha (em geral, ela falha), eu tinha 6 anos e estava acompanhado pela minha avó paterna, Dona Nívia. Curioso, o garoto que fui perguntou a ela: ‘Vó, que luz é aquela?’.

Com a doçura que lhe era peculiar, Dona Nívia colocou-me sentadinho no colo, com um sorriso iluminado no rosto, e respondeu: ‘Hum, aquela luz indica a presença de Jesus. É, ela mostra que Ele está aqui’. Com os olhos estatelados, questionei: ‘Como assim?’.

É provável que minha avó, com toda a paciência do mundo, tenha tentado me explicar, que tratava-se da presença das hóstias consagradas no sacrário, mas o menino que fui queria saber de uma coisa, só de uma queria: mas onde Jesus estava escondido?

Teimoso, permaneci ali plantado, em frente ao sacrário.

‘Uma hora Ele vai ter que sair, nem que seja para beber água ou para ir ao banheiro’, imaginava.

O tempo foi passando, passando e mais tarde a atenção do menino deve ter tido sua atenção dispersada, passando a brincar com os meus irmãos e primos.

Além de preparar um café incrivelmente delicioso, a Dona Nívia me ensinou muitas lições importantes lições. Professora de Português na juventude, ela socorreu-me no primário, quando as notas do meu boletim eram vermelhas, como aquela luz que eu havia visto anos antes no sacrário.

Com minha avó, até estudar era gostoso. Eu chegava cedinho, tomava aquele café e subia para o quarto dela, no segundo andar. E lá, sobre uma escrivaninha, ela já deixava uma série de cartelinhas — umas fichas, feitas com um papel mais grosso — com as lições.

Dona Nívia explicava a matéria e deixava que eu fizesse a tarefa, voltando mais tarde para corrigir a lição. Olha, era nota 10!

Recentemente, mexendo aqui e ali, vasculhando minhas gavetas, encontrei algumas dessas cartelas, dessas fichas, em branco. Eu as trouxe há alguns anos, depois da morte da minha avó.

Na ocasião, eu queria encontrar um papel especial para uma missão para lá de especial: escrever cartas para pacientes e funcionários do Hospital São José, em um dos braços (mais fortes) do projeto Cartas Perdidas. Veio a calhar!

Trata-se da ação intitulada ‘Cartas Perdidas em um Prontuário de Alegria’, uma corrente do bem com o hospital (as incríveis Marielly Herrera e Dalila Araújo) e os palhacinhos do Risalhaços.

Ao receberem as cartas, pacientes abrem um sorriso. Graças às palavras, recuperam a fé, a esperança e amor. Ah, o amor é o melhor remédio, não é?

Ao encontrar as fichas da minha avó, caiu a ficha.

É, a Dona Nívia tinha razão.

Naquela manhã, ali na igreja, ela deixou uma lição: essa é a luz que não se apaga jamais.

Sócrates e a filosofia de churrasco

Só sei que nada sei.

Atribuída ao filósofo grego Sócrates, a sábia frase provoca uma reflexão imprescindível para a evolução do pensamento.

Para aprender, precisamos admitir que não sabemos. Não é só: quanto mais aprendemos, mais temos a descobrir.

Cada aprendizado, afinal, pode ser visto como abrir a janela do conhecimento, deixando a luz da sabedoria entrar, iluminando onde antes habitava a sombra da ignorância preguiçosa.

Falando em saber, nos deparamos de novo com a filosofia, palavra grega que tem um significado autoexplicativo: amigo da sabedoria. A filosofia, um dos alvos da sanha do governo de Jair Bolsonaro (PSL), trata-se do estudo de questões relativas à natureza da existência humana, conhecimento e valores morais.

Em nosso país, onde há quem defenda cortes bilionários contra a ‘balbúrdia’ na educação, o governo tem realizado uma verdadeira cruzada ideológica contra o conhecimento, ignorando pesquisas e fatos, optando pelo ‘achômetro’ ou por uma espécie de ‘desconhecimento empírico’ em temas de suma importância, como violência urbana, trânsito, meio ambiente, e outros.

Aquecimento global? Estudos científicos sobre o tema pouco importam, o governo diz que trata-se de uma invenção ideológica para favorecer a China.

Liberar armas? Não interessa se o Atlas da Violência vê riscos na medida e defende que o Estatuto do Desarmamento impediu milhares de homicídios. Contrariando especialistas, Bolsonaro, que já teve sua arma roubada levada em um roubo, crê que a posse de uma reforça a segurança. É uma tentativa de apagar um incêndio com gasolina.

Radares nas rodovias inibem os acidentes? O presidente, que acumula seis multas no período de cinco anos, não acredita, por isso já pensou em acabar com a fiscalização eletrônica e, agora, quer ampliar a pontuação necessária para se perder a CNH.

O Planalto, que coloca em xeque dados do IBGE, engaveta pesquisa da Fiocruz sobre drogas e faz pouco caso dos dados do Inpe, ignora a ciência e não contrapõe a posição com argumentos sólidos, se baseando só em conhecimento de churrasco.

Inimigo da filosofia, o governo torna-se amigo da ignorância..

Ainda dá tempo, meu caro Lobato, ainda dá tempo…

Caro leitor, tem um tempinho? Quero contar uma novidade: este mês, acredite, eu recebi uma carta de Monteiro Lobato, direto de 1919. Uma honra! E como não sou mal-educado, respondi a mensagem — e a conversa epistolar completa está no site do Almanaque Urupês, organizador da Semana Monteiro Lobato. Abaixo, divido a minha resposta com vocês:

Lobato, quanto tempo!

Cem anos! Cem anos, meu caro! Como tem passado? Que presente poder falar-lhe sobre o futuro! Por sorte, sua carta mitológica viajou pelos ponteiros do relógio e chegou a tempo, nas asas de um cuco com coração de tic-tac…

Em sua mensagem, notei o seu apreço pela epistolografia telegráfica. O telégrafo. Ah, Lobato… isso hoje é coisa do passado. É velharia! Nos tempos atuais, as mensagens viajam pelo ar, como mágica, um telégrafo imaginário sem papel ou tinta, com alma de bem-te-vi. Como se pombos-correios invisíveis levassem palavras o tempo todo, todo o tempo, sem deixar cair uma letra sequer.

E tudo isso com uma velocidade espantosa, mais rápido do que notícia ruim. Zás-trás!

Acredite, esse mundo que antes parecia tão grande, hoje cabe na palma da sua mão. Sabe a incrível biblioteca do seu avô? Pois bem, ela agora cabe no bolso do seu paletó! Biblioteca de bolso!

O curioso, é que apesar de haver tanta informação disponível, somos uma biblioteca de orelhas de livro. Hoje, como você pode ver em seu Porviroscópio, nada é feito para durar. E o homem, em uma desabalada carreira, parece tornar-se o único tipo de passarinho que constrói gaiolas para si mesmo. Seria medo de voar?

Que gaiola? O tempo! Corre-se como nunca… mas para onde?

Corre-se cada dia mais para se ter cada vez menos tempo.

Caro amigo, o tempo urge, e por isso sigo para o desenlace desta carta. Antes, quero destacar que outro dia li um livro que você ainda nem sequer escreveu, chamado ‘O Macaco que se fez homem’. Nele, me deparei com uma reflexão que você fará em 1923.

No meio do texto, você abriu os parênteses e afirmou: “Uma coisa me espanta: que haja inda hoje, nestes nossos atropelados dias modernos, quem escreva romances! (…) A época é apressada, automobilística, aviatória e cinematográfica (…)”.

Como se vê, seus olhos estarão encantados com a velocidade da década de 1920. Creio que, em certa medida, o homem é sempre o mesmo, seja a bordo de caravelas ou naves espaciais, comunicando-se por carta ou WhatsApp (explicarei na próxima carta).

Apressado, aturdido pela velocidade deste mundo que o cerca, correndo contra o tempo todo o tempo para ficar sem tempo… e com aquela sensação de que antigamente é que era bom.

Por aqui despeço-me, pois devo estar atrasado para algum compromisso de que nem me lembro mais. Que saudade do tempo de criança, quando eu corria pelo Sítio e brincava com meus irmãos, sem as preocupações de adultos. Daquele tempo, além da saudade, preservo o olhar do menino que tem pé de moleque e coração de capotão. E uma certeza: ah, sim, naquele tempo é que era bom…