Memes, debates e ‘Zap Zap’ na briga pelo voto

Debate. A eleição é o ponto máximo do sistema democrático, uma oportunidade indispensável para que a sociedade possa debater quais são seus principais problemas e que soluções pretende adotar, que prioridades deve definir e que linhas traçar para trilhar o caminho do futuro. É a hora de colocar frente a frente as mais diferentes correntes de pensamento político e ideológico, confrontar as visões por vezes antagônicas e diametralmente opostas que temos para a realidade de um mesmo país. Neste pleito de 2018, que tem papel fundamental para os rumos de uma nação mergulhada até o pescoço em uma crise política e econômica, nunca se debateu tanto. Infelizmente, quando o assunto é a corrida presidencial, principalmente neste segundo turno, o debate se restringe apenas às redes sociais, infestadas de ódio e amplamente contaminadas pelas fake news. Mas e o confronto entre os candidatos, cadê?

Infelizmente, ao que tudo indica, o eleitor brasileiro não terá a oportunidade de ver os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto frente a frente, discutindo, argumentando, discordando, questionando um do outro ao vivo em um debate.

Aliás, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) podem encerrar a disputa no dia 28 sem terem duelado nenhuma vez — no início da campanha, quando seu adversário chegou a comparecer a debates, o petista ainda não havia sido lançado pelo seu partido; depois, o capitão da reserva deixou de comparecer aos confrontos após ter sido vítima de um atentado em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro.

Depois de Bolsonaro argumentar que não podia participar dos debates por recomendação médica, hoje é evidente que trata-se, neste momento, de uma estratégia de campanha.

De acordo com o Ibope, em pesquisa que foi divulgada nesta segunda-feira, o candidato do PSL tem 59% das intenções dos votos válidos, contra 41% do petista — uma larga vantagem faltando 12 dias para a eleição.

Com a faca e o queijo na mão, por que arriscar? É o que defende a estratégia de campanha, ciente de que o ex-militar é conhecido por frases infelizes e polêmicas, que, em tese, poderiam provocar danos à candidatura.

Ele tem optado por fazer lives nas redes sociais — onde não está diante do contraditório — e participar de programas de televisão selecionados por sua equipe.

Quem perde é o eleitor, a democracia. Quer ver debate?

Por enquanto, neste 2º turno, só mesmo se for no WhatsApp.

Just another brick in the wall

O muro. Invisível porém palpável, o muro é construído tijolo por tijolo, dia depois de dia, de forma lenta e dolorosa, tendo o discurso de ódio e a ignorância como argamassa. O muro, pintado com a cor do extremismo ideológico ambidestro, divide os pais e filhos. Mães e filhos. Irmãos. Amigos. Parentes. Opõe ‘nós’, de um lado, e ‘eles’, de outro. Escava, no peito da mãe terra, trincheiras onde planejava-se a edificação de pontes para o futuro. Secciona e amputa. Tortura fatos, dissemina a confusão, a mentira, a barbárie e a histeria coletiva. Expõe preconceitos, incentiva o patrulhamento ideológico e coloca os iguais em lados diferentes, como inimigos — e não opositores. As eleições brasileiras, como se evidencia tanto nas redes sociais quanto no dia a dia fora delas, aprofundaram a divisão no país. Partido, um Brasil partido após a grave crise econômica, política, moral e que assassina o mito de que somos um povo cordial.

Essa divisão foi notícia na noite de terça-feira, quando o baixista Roger Waters, ex-líder da icônica banda Pink Floyd, apresentou-se em São Paulo para 45 mil fãs, em um show da turnê ‘Us Them’. O astro do rock, mundialmente conhecido por clássicos como ‘The Wall’ e outros tantos, foi vaiado e aplaudido ao criticar o candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Acirrada, a campanha eleitoral tem se mostrado uma guerra sem trégua. Notícias falsas, discurso de ódio contra as minorias, tiros disparados contra a caravana de Lula, o absurdo atentando contra Bolsonaro, troca de socos e pontapés entre os militantes, o assassinato de Moa do Katendê, brigas no Facebook, fake news…

Todos esses formam um conjunto de exemplos, just another brick in the wall. Apenas um tijolo a mais na construção do muro que nos divide. No entanto, diferentemente do que diz a letra de ‘The Wall’, isso é sinal de we need education.

E democracia.

O menino que fui nas eleições que já se passaram

Dia 5 de junho de 1989.

Com os olhos vidrados na tela de nossa surrada tevê, aparelho que transportava um planeta inteiro para a sala da minha casa graças àquelas granuladas imagens em preto e branco, o menino que eu fui assistia paralisado a cena histórica: de peito aberto, desarmado, um jovem estudante desafiava uma coluna de tanques de guerra na praça da Paz Celestial, na capital chinesa. Naquele dia, que entrou para os registros da História como o ‘Massacre da Praça da Paz Celestial’, milhares decidiram sair às ruas de Pequim e outras cidades para protestar contra o regime, a corrupção e a crise econômica, agravada pelos altos índices de desemprego e de inflação. O jovem destemido que parou os tanques, apelidado de ‘rebelde desconhecido’, teve sua imagem vista em todo mundo.

O seu paradeiro, assim como a sua identidade, ainda são mistérios até hoje, 29 anos depois.

Naquele ano, marcado também pela queda do muro que separou a Alemanha em duas por longos 28 anos, o menino que eu fui fez, aos 8 anos, a sua primeira cobertura eleitoral. Era um trabalho escolar, na disciplina de Estudos Sociais. Depois de um hiato de 29 anos, os brasileiros voltariam a votar para presidente. Com um caderno nas mãos, lembro-me de que eu percorri a pé, sozinho, comitês de candidatos, então espalhados pela Taubaté da minha infância. Imagens esparsas, que resistem à memória fraca, dizem que havia uma muvuca, jingles e distribuição de santinhos, além adesivos e camisas dos candidatos. Ah, e muitas promessas.

Vinte e nove anos depois, era o momento do eleitor reencontrar-se com a democracia. Depois do término do nefasto período ditatorial, em que liberdades haviam sido cassadas e pessoas caçadas, perseguidas, torturadas e mortas brutalmente, era tempo de crise econômica e descontentamento profundo e crescente com a política — o Congresso e o presidente José Sarney, do MDB, tinham alto índice de rejeição no país.

Agora, para minha surpresa, 29 anos depois, o menino que eu fui bateu à porta da minha consciência. Depois de ver, em 1989, mais um capítulo da trama ‘O salvador da pátria’, o garoto me procurou por essas bandas, de 2018, e com uma expressão pra lá de confusa pediu-me para entrar. Nem bem adentrou a sala dos meus pensamentos, já falou pelos cotovelos a respeito daqueles acontecimentos decisivos de 1989.

De um lado da disputa eleitoral, ele dizia, havia um candidato de um partido nanico, que prometia caçar marajás e livrar o Brasil da ameaça comunista. Do outro, um homem chamado Lula, que dizia a todos ser diferente dos demais, porém que os adversários diziam estar preso a uma companheirada que poderia dar PT no Brasil.

Tentei explicar ao menino que fui que, como a história mostrará a ele, salvador da pátria só mesmo na novela. E que, 29 anos depois, ao invés de derrubar muros e erguer pontes, o Brasil está dividido. E o rebelde desconhecido? A luta contra o autoritarismo segue imprescindível. Nos despedimos com um abraço. Antes de ir, ele então me perguntou: quando é que o futuro vem?.

 

De que sonhos somos feitos?

Do que são feitos os sonhos?

Esta é uma questão que vira e mexe rouba meu sono. Apesar de estar bem longe de ser um PhD no tema, já que dificilmente recordo-me daquilo que sonhei, creio que eles são de três tipos: aqueles que sonhamos enquanto dormimos, os que sonhamos acordados e, também, os sonhos de padaria, com bastante creme e sabor delicioso! Quando menino, fantasiava que os sonhos eram feitos com nuvens de algodão doce. Lá, naquele mundo confeitado e doce, tudo era absolutamente possível. As aventuras corriam soltas, como num filme de cinema.

Por aquelas bandas, já joguei com a camisa 10 do Corinthians em um Pacaembu lotado, fazendo gol de placa em decisão contra o Palmeiras e levantando os maiores títulos do mundo. Certa vez, em meio a uma paixão platônica infantil pela personagem Wednesday, da Família Addams, até vampiro sonhei tornar-me. É, tem gosto para tudo, não é?

Desta época, lembro-me que o meu primo Bruno, irmão que a vida me deu, costumava dormir com os óculos. Desde pequeno, ele tinha uma miopia das bravas, tendo que usar óculos com uma armação grossa, daqueles fundo de garrafa. De tão acostumado, Bruno até dormia com eles. Certa vez, um adulto então perguntou para ele: mas e por que não tira os óculos para dormir?

‘Quero enxergar os meus sonhos, ué’, respondeu Bruno, tendo nas palavaras uma pitada da lógica tão peculiar às crianças.

Bom, mas falando nele, recentemente tive a felicidade de sonhar com meus melhores amigos: Bruno e o Julio, meu irmão. Era um dia claro, com um sol de anos 80, com jeito de Sessão da Tarde e Eskibon. Nós estávamos em um corre-corre daqueles, em uma grande aventura, de volta à infância. Parecia tão real. Tive a oportunidade de matar essa saudade do Bruno, esse meu irmão que se foi tão jovem.

Seriam, então, os sonhos feitos de saudade? Um jeito engenhoso criado por Deus para que nós possamos rever aqueles que tanto amamos? Afinal, o que é a saudade senão a presença de um amor fisicamente ausente?

Os sonhos seriam, então, a janela que permite que o filho reveja seu pai, de quem tanta falta sente? Ou então, possibilitaria a mãe sentir novamente a presença e o perfume da filha? E o menino apaixonado, hoje tão só, reencontraria neles o seu amor e entregaria a ela a rosa mais bonita, juntamente com um bilhete: Não te enganou a primavera com beijos que não floresceram?

Do que são feitos os sonhos?

Seriam, talvez, os sonhos rascunhos de nossas vidas incompletas? E há quem diga que sonhar nada mais é do que acordar para dentro. Quanto pesa um sonho? Como pesá-lo? E quantos deles caberiam em um só coração?

E em um coração só?

Há quem diga que o homem é do tamanho de seus sonhos.

Do que são feitos os sonhos?

Confesso que não sei. Na verdade, tenho a impressão de que a questão talvez esteja mal formulada. Cada vez mais creio que a pergunta correta é: de que sonhos nós somos feitos?

A assinatura de OVALE

Assinatura.

A informação, nos tempos de fake news e boataria, precisa ter assinatura, chancela, nome e sobrenome. Peso e história. Origem. Ética, isenção e independência. Credibilidade. Sim, a assinatura de um veículo é a sua credibilidade. Ela é que diferencia jornalismo sério do boato. É como um selo que ajuda o leitor a separar o joio do trigo, a separar verdade e mentira. Quando um tsunami de notícias falsas invade violentamente sua timeline, a prática jornalística crítica, apartidária, imparcial e séria transforma-se em farol, capaz de nortear com a luz da verdade a sociedade que se vê à deriva, quase indo à pique, em meio à penumbra. A democracia, hoje atacada frontalmente, morre na escuridão. Por isso, o feixe do farol torna-se dia a dia ainda mais e mais imprescindível.

A assinatura de OVALE é, sem dúvida, um olhar crítico, questionador, apurado e absolutamente livre, sem amarras ou rabo preso.

No último dia 21, no lançamento de um caderno especial que é dedicado ao jornalismo investigativo e às grandes reportagens, o jornal revelou a ‘Farra das Viagens’ na Câmara de Taubaté, um esquema que atinge 10 dos 19 vereadores e consiste em engordar notas fiscais para, assim, aumentar o valor do reembolso — pago com dinheiro público.

No total, foram 14 meses de investigação jornalística. Primeiro, o editor-executivo Julio Codazzi, por estranhar os gastos (a Câmara chegou, acredite, a desembolsar mais de 700% acima da Casa Legislativa joseense, por exemplo, apesar de possuir um número menor de vereadores), pediu as notas fiscais das viagens, para que o leitor — patrão de OVALE — pudesse saber, com total transparência, como o dinheiro de seu imposto estava sendo gasto.

Com estranha falta de transparência, que tem sido a assinatura (ou garrancho) de sua tão desastrosa administração, o presidente da Câmara de Taubaté, Diego Fonseca (PSDB), negou o acesso do jornal às notas fiscais.

O que havia a esconder?

Em defesa do interesse público, outra marca da assinatura de OVALE, o jornal, diante da negativa, entrou com uma ação judicial cobrando a disponibilização dos documentos. Após a decisão judicial, favorável a OVALE, essas notas foram divulgadas… e, logo se viu o porquê do Legislativo tentar mantê-las debaixo do tapete. O que se viu? Uma farra com os cofres públicos.

Ontem, ao se pronunciar sobre o caso pela primeira vez, a Casa Legislativa, sem conseguir explicar o inexplicável, disse ser vítima (sim, vítima) de ‘perseguição’ do jornal devido ao corte de algumas assinaturas em 2017.

Diante de uma explicação tão estapafúrdia, OVALE publicamente disponibiliza gratuitamente a partir de hoje uma assinatura para cada gabinete da Casa. Nosso único interesse é a verdade.

E não é só. Os vereadores ainda receberão o cartão do Clube OVALE, que dá descontos para assinantes em 140 estabelecimentos — incluindo bares e restaurantes; quem sabe assim eles não gastam menos na farra das viagens? Jornalismo independente.

Esta é a assinatura de OVALE.

 

 

Farra das viagens: prova dos 9

Após 14 meses de apuração, os jornais OVALE e Gazeta de Taubaté iniciaram no dia 21 de julho a publicação da série de reportagens intitulada ‘Farra das Viagens’, que escancarou de forma inapelável um esquema criado na Câmara taubateana para que parlamentares engordassem as verbas para reembolso em viagens oficiais. A conta , é claro, era paga pelo contribuinte.

As reportagens de OVALE  e Gazeta, como prega o jornalismo independente e forjado pela credibilidade, estão embasadas em notas fiscais fornecidas pela Câmara à reportagem, depois de uma determinação judicial.

Apesar de ser público, afinal o eleitor tem o direito de saber como o seu dinheiro é gasto, o acesso a tais informações foi inicialmente negado aos jornais, que então recorreram ao Judiciário, representando os interesses da sociedade. Com a vitória nos tribunais, as notas foram liberadas.

E logo ficou claro o que a Câmara tentava esconder. Dez dos 19 vereadores estão citados no escândalo, que abalou as estruturas políticas da cidade. Confira o flip: http://flip.ovale.com.br/edicao/impressa/1444/21-07-2018.html?all=1

Obviamente, antes da publicação da primeira reportagem, como estabelecem as normas basilares do bom jornalismo, a reportagem de OVALE e Gazeta de Taubaté procurou os parlamentares citados. Inicialmente, na primeira publicação, foram citados oito — TODOS eles procurados para que pudessem se pronunciar. Depois, ao longo da semana outros dois vereadores foram incluídos na denúncia.

Curiosamente, além de não explicarem gastos esdrúxulos como, por exemplo, o consumo de 4,4 quilos de comida em uma só refeição, alguns dos parlamentares acusaram os jornais de não procurá-los, não dar espaço para que se posicionassem. Talvez seja amnésia. Vamos ajudá-los, então.

Abaixo os comprovantes do contato feito pela reportagem antes da publicação da denúncia sobre a Farra das Viagens. Os contatos foram feitos no dia 19 de julho (para os oito primeiros citados) e a reportagem publicada no dia 21. Na semana seguinte, antes de serem citados (não foram citados na primeira matéria), outros dois vereadores (Alexandre e Graça) foram ouvidos. O contato com o vereador Bilili de Angelis (PSDB) foi feito via telefone.

Os parlamentares que não responderam o Whatsapp foram procurados depois por outros meios: ligação no celular, ligação no gabinete e e-mail.

DIEGO FONSECA (PSDB)

VIVI DA RÁDIO (PSC)

ALEXANDRE VILLELA (PTB)

BOBI (PV)

GORETE TOLEDO (DEM)

JESSÉ SILVA (SD)

DENTINHO (PV)

DOUGLAS CARBONNE (PCdoB)

GRAÇA (PSD)

Já na primeira reportagem, em nome do jornalismo plural e ético, os jornais OVALE e Gazeta dedicaram uma página para o chamado ‘Outro Lado’ dos vereadores citados no escândalo. O resto? É conversa.

Parlamentares negam irregularidade, mas não explicam erros nas notas

 

 

 

 

 

A verdadeira voz do Vale

De quem é a voz?

De quem é a voz impressa nas páginas de OVALE?

De quem é a voz que viraliza nas plataformas do jornal, o líder de alcance e engajamento nas redes sociais de todo o Vale do Paraíba, com mais de 150 mil seguidores? De quem é a voz que questiona supersalários, votações ‘vapt-vupt’ feitas na calada da noite, contratos suspeitos firmados pelo poder público, obras e promessas em atraso, farras com o dinheiro público?

De quem é a voz daqueles que, em nome da transparência, foram até os tribunais para garantir, por exemplo, que os taubateanos soubessem as patuscadas praticadas com dinheiro público por parlamentares?

Tem político comendo quatro rodízios por aí, enquanto outro lancha seis sanduíches e ainda encontra espaço para tomar refrigerante, suco e um café. Tem gente que se lambuza com o dinheiro do contribuinte. E, nesses casos, de quem é a voz que investiga, apura com isenção e exatidão, com a pluralidade obrigatória ao bom jornalismo?

De quem é a voz que, com ética e respeito ao contraditório e ao pluralismo da informação séria, expõe, traz à luz dos fatos o que os políticos tentam desesperadamente manter debaixo do tapete? De quem é a voz que brada, por vezes isoladamente, por jornalismo independente, apartidário e absolutamente imparcial?

De quem é a voz daqueles que lutam diariamente para trazer à luz o que é mantido às sombras? Afinal, a democracia morre na escuridão. E ainda há muita coisa escusa por aí, não é verdade?

Afinal, de quem é a voz?

Nestes tempos de fake news, quando este tão violento tsunami de boataria invade nossa timeline, o jornalismo crítico, imparcial e independente torna-se, absolutamente, imprescindível. Absolutamente.

Até porque, se existe imprensa séria, por outro lado e falando muito francamente, há também a imprensa de péssima qualidade, que ao invés de informar os leitores, busca confundi-los. Nas ruas de Taubaté, de forma folclórica, já se acostumou a denominar esta prática como ‘imprensa movida a rango’. Já tem até gente defendendo essa farra das viagens oficiais na Câmara — aquela paga com dinheiro público.

Como se vê, além das notícias falsas, o leitor ainda precisa driblar lobos travestidos em pele de cordeiro, veículos que na prática, de costas para o interesse público, operam como assessoria de imprensa.

Será que andam com a barriga cheia? Mas também, por outro lado, do que vale a voz que ninguém ouve? O leitor, atento aos fatos, já tem os ouvidos treinados para identificar a voz da credibilidade.

Por isso, para separar o joio do trigo, o jornalismo sério e crítico, que prima pela verdade acima de qualquer interesse, é imprescindível. Afinal de contas, quem se curva diante dos opressores, mostra o traseiro aos oprimidos.

OVALE, orgulhosamente, empunha a bandeira do jornalismo crítico e imparcial no Vale. Como dizem os mais novos, é um jornalismo ‘top’.  Afinal, “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que publique. Todo o resto é publicidade”. De quem é a voz? É sua, leitor. Ela é nossa.

Esta é a verdadeira voz de OVALE.

 

Pé de moleque, coração de capotão

Todo pé de moleque tem coração de capotão, chuta uma bola de meia e veste a ’10’ da Seleção, pintando fantasia no chão de terra batida e ilusão. E o coração de capotão bate-bate dentro do peito de um campinho qualquer. Bola? Bom, ela pode ser de papel, plástico, capotão, ser oval, redonda. Aceita-se qualquer esfera que — tão gentilmente — aceite a honra de ser a pelota da vez.

Vale desde a laranja caída, esquecida no fim da xepa na feira de domingo, até o colorido balão da festinha de aniversário, repleto de ar e esperança. É, como se vê, a bola nem mesmo uma bola precisa ser. Ali, naquele campinho, pouco importava se ela era de couro ou oficial, à prova d’água ou sei lá o que.

No coração de capotão, as bolas — todas elas — são feitas de uma mesma matéria-prima, prezado leitor. De pé de moleque.

Talvez por isso, ainda mantenha este espaço especial para as lembranças mais doces dos tempos em que a praça do Bom Conselho, em Taubaté, era palco do bate-bola da turma.

Isso, como meus fios de cabelo branco já denunciam, ocorreu no fim dos anos 80 e início dos 90 ali o bicho pegava! A vida naqueles tempos era definida na base do 10 minutos ou dois gols. No asfalto, com um tijolo ou um pedregulho, fazíamos as linhas, que, inutilmente, delimitavam o nosso campinho de sonhos.

Sim, inutilmente. Afinal, como limitar o espaço onde, no melhor estilo Coutinho/Pelé, a realidade tabelava com a nossa imaginação? Coitadas das linhas, tortas como as pernas de Garrincha e incapazes de nos parar, como os marcadores que estatelavam-se no chão atrás do Mané.

Naquele campo, fui o camisa 10. Me vesti de Pelé, Maradona, Zico, Neto e outros. Fui o maior craque do (meu) mundo de menino. Sem importar-me com os placares. Ou com o tempo — seja o tempo do relógio ou o tempo do céu. Podia ser debaixo do sol. Ou de chuva. E aí, vamos jogar? Não havia tempo ruim. Nem o primeiro e nem o segundo. E as traves eram feitas de tijolos ou chinelos, que de maneira polivalente também podiam ser usados como luva pelos goleiros.

A escalação do meu time tinha meu irmão Julio, Dimas, Fernando e Chiquinho (ele era da rua do Colégio, mas compramos seu passe por um punhado de balas). Esse era o ‘Time da Praça’. Mais tarde, chegaram nomes como o de Lu e Hil, Gordo e Sandrinho.

Ali, amizade e companheirismo trocavam passes com uma precisão germânica. Éramos um por todos e todos por um. O tempo, porém, é tão implacável quanto o matador diante do arqueiro.

No cronômetro da vida, todos crescemos. Cada um de nós pegou seu caminho. Uns foram pela ponta direita. Outros pela esquerda ou pelo meio. Há até quem já tenha deixado o campo de jogo, sendo substituído pela ausência.

Mas nem todo o tempo é capaz de apagar essas memórias. Afinal, determinadas partidas não têm fim. Elas continuam sendo jogadas aqui dentro do meu peito, tabelando com meu coração de capotão. Essas partidas imortais batem bola no campinho de terra batida chamado saudade.

 

O ‘7 a 1’ nosso de cada dia

Fora das quatro linhas, o Brasil deu vexame na Copa do Mundo. O 7 a 1 da vez não é culpa de Neymar, Tite, Paulinho, Thiago Silva, Marcelo, Alisson e companhia, que seguem fortes na luta pelo hexacampeonato, como um dos favoritos no Mundial, apesar da estreia bem decepcionante frente ao escrete suíço. Mas quem são os vilões da vez? Eles vestem a camisa do preconceito, machismo, discriminação e outros sentimentos que já deveriam ter recebido o cartão vermelho faz muito, mas muito tempo. Um dos lances mais comentados da Copa até o momento é um vídeo filmado por brasileiros com uma jornalista russa, assediada pelos torcedores. Nas imagens, eles aparecem ridicularizando a moça que parece não compreender o sentido das frases ofensivas gritadas, em coro e em português. O caso (ou melhor, a agressão), assim como outros similares, provocou revolta nas redes sociais — apesar de ter ainda quem tenha saído em defesa dos torcedores, com o argumento de que era só ‘brincadeira’.

O MPF (Ministério Público Federal) instaurou inquérito criminal para apurar se os brasileiros filmados assediando a mulher cometeram crime de injúria.

Requisitadas com rito de urgência e prioridade, as investigações vão permitir a identificação dos envolvidos neste episódio. Para a Procuradoria da República no Distrito Federal, a conduta dos brasileiros ofendeu a dignidade da mulher ainda não identificada, expondo-a à humilhação pública por meio de um comportamento “nitidamente machista e discriminatório”.

A investigação foi aberta tendo como base a Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, que define o comportamento preconceituoso contra as mulheres. O Brasil e demais signatários do acordo devem observar e zelar pelos direitos humanos e liberdades fundamentais em igualdade de condições entre homens e mulheres.

Os ministérios do Turismo e do Esporte se apressaram em condenar o comportamento dos brasileiros. Na Rússia, o ministro do Esporte, Leandro Cruz da Silva, disse que a atitude dos brasileiros filmados ridicularizando a moça envergonharam todo o Brasil, desdenhando da receptividade da população russa.

O comportamento dos torcedores foi condenável. E eles devem ser punidos. Mas fica uma pergunta: quem os escalou? Aqueles torcedores são parte de um Brasil ainda machista e discriminatório. É preciso, de uma vez por todas, dar um cartão vermelho para o preconceito..

 

Qual a nota da Seleção?

Brasil x Suíça pelo primeiro jogo da Copa do Mundo 2018. Lucas Figueiredo/CBF

Alisson (5): Poderia ter saído no lance do gol suíço.

Danilo (4): Tímido no apoio. Seleção perde muito sem Daniel Alves, ficando capenga, priorizando exageradamente o lado esquerdo.

Thiago Silva (6,5): Melhor que seu companheiro de zaga, atuação segura. No primeiro tempo quase marcou o segundo gol brasileiro.

Miranda (4): Mal posicionado, apesar do empurrão de Zuber.

Marcelo (6): Sobrecarregado. Ficou praticamente com a obrigação de organizar as jogadas da Seleção.

Casemiro (7): Melhor jogador brasileiro. Saiu após levar cartão amarelo, com a equipe brasileira sentindo muito a sua ausência.

Willian (5,5): Sem companhia pelo lado direito. Arriscou e tentou criar situações, mas não esteve inspirado.

Paulinho (5): Quase abriu o placar em uma bobeada da defesa suíça, infiltrando-se, como é sua característica. Caiu muito no segundo tempo e saiu para a entrada de Renato Augusto.

Coutinho (6,5): Brasileiro mais lúcido no terço final do campo, apesar da queda de rendimento na segunda etapa. Fez belo gol em uma jogada característica. Perdeu, no entanto, uma boa chance depois.

Neymar (5,5): Visivelmente abaixo da condição física, sem ritmo de jogo. Não se escondeu, mas sofreu com a forte (e por vezes faltosa) marcação da Suíça. Mostrou-se irritadiço.

Gabriel Jesus (4,5): Atuação fraca do atacante do Manchester City, artilheiro da era Tite. Ficou devendo.

* Substituições
Fernandinho (5): entrou no lugar de Casemiro, com atuação discreta. Ainda arriscou chute de fora da área, mas com deficiência.

Renato Augusto (5,5): no lugar de Paulinho, entrou para melhorar o toque de bola, articular jogadas, e retomar o domínio no meio-de-campo. Melhorou a chegada ao campo suíço.

Firmino (5): Entrou no fim e teve uma ocasião de gol, mas falhou na definição.

Tite (5): Seleção sentiu o gol suíço, ficando atordoada em parte do segundo tempo. Substituições no estilo ‘seis por meia dúzia’ não surtiram efeito.