Ainda dá tempo, meu caro Lobato, ainda dá tempo…

Caro leitor, tem um tempinho? Quero contar uma novidade: este mês, acredite, eu recebi uma carta de Monteiro Lobato, direto de 1919. Uma honra! E como não sou mal-educado, respondi a mensagem — e a conversa epistolar completa está no site do Almanaque Urupês, organizador da Semana Monteiro Lobato. Abaixo, divido a minha resposta com vocês:

Lobato, quanto tempo!

Cem anos! Cem anos, meu caro! Como tem passado? Que presente poder falar-lhe sobre o futuro! Por sorte, sua carta mitológica viajou pelos ponteiros do relógio e chegou a tempo, nas asas de um cuco com coração de tic-tac…

Em sua mensagem, notei o seu apreço pela epistolografia telegráfica. O telégrafo. Ah, Lobato… isso hoje é coisa do passado. É velharia! Nos tempos atuais, as mensagens viajam pelo ar, como mágica, um telégrafo imaginário sem papel ou tinta, com alma de bem-te-vi. Como se pombos-correios invisíveis levassem palavras o tempo todo, todo o tempo, sem deixar cair uma letra sequer.

E tudo isso com uma velocidade espantosa, mais rápido do que notícia ruim. Zás-trás!

Acredite, esse mundo que antes parecia tão grande, hoje cabe na palma da sua mão. Sabe a incrível biblioteca do seu avô? Pois bem, ela agora cabe no bolso do seu paletó! Biblioteca de bolso!

O curioso, é que apesar de haver tanta informação disponível, somos uma biblioteca de orelhas de livro. Hoje, como você pode ver em seu Porviroscópio, nada é feito para durar. E o homem, em uma desabalada carreira, parece tornar-se o único tipo de passarinho que constrói gaiolas para si mesmo. Seria medo de voar?

Que gaiola? O tempo! Corre-se como nunca… mas para onde?

Corre-se cada dia mais para se ter cada vez menos tempo.

Caro amigo, o tempo urge, e por isso sigo para o desenlace desta carta. Antes, quero destacar que outro dia li um livro que você ainda nem sequer escreveu, chamado ‘O Macaco que se fez homem’. Nele, me deparei com uma reflexão que você fará em 1923.

No meio do texto, você abriu os parênteses e afirmou: “Uma coisa me espanta: que haja inda hoje, nestes nossos atropelados dias modernos, quem escreva romances! (…) A época é apressada, automobilística, aviatória e cinematográfica (…)”.

Como se vê, seus olhos estarão encantados com a velocidade da década de 1920. Creio que, em certa medida, o homem é sempre o mesmo, seja a bordo de caravelas ou naves espaciais, comunicando-se por carta ou WhatsApp (explicarei na próxima carta).

Apressado, aturdido pela velocidade deste mundo que o cerca, correndo contra o tempo todo o tempo para ficar sem tempo… e com aquela sensação de que antigamente é que era bom.

Por aqui despeço-me, pois devo estar atrasado para algum compromisso de que nem me lembro mais. Que saudade do tempo de criança, quando eu corria pelo Sítio e brincava com meus irmãos, sem as preocupações de adultos. Daquele tempo, além da saudade, preservo o olhar do menino que tem pé de moleque e coração de capotão. E uma certeza: ah, sim, naquele tempo é que era bom…

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