Carta de despedida para dona Elsa

Somos cartas perdidas.

Como se fôssemos uma página em branco, nascemos pelas mãos de remetentes conhecidos, pelo menos na maioria das vezes, e em seguida iniciamos uma viagem na direção do imprevisível, rumo às mãos de um destinatário incógnito. Estamos sendo escritos todos os dias, com a única certeza: não seremos jamais obras completas.

Neste sábado, ao lado de voluntários, farei a entrega de centenas de cartas para idosos de um asilo de São José. E a mais bela correspondência, escrita pelo jornalista José Guilherme Rodrigues Ferreira, tinha como destino a argentina Elsa Miranda, de 91 anos.

Nesta sexta, minutos depois da carta chegar a mim, o asilo comunicou-me sobre a morte dela. Isso me fez refletir. Nós somos cartas perdidas, porém no caminho nos encontramos? No caminhar, que pedras encontramos? E que tipo de carta escrevemos? De amor?

Hoje, com o aval do remetente, transcrevo a carta da Doña Elsa:

“Cada persona es un mundo. E é por isso que a senhora deve ter muitas histórias para contar… lembramos de muitas coisas de nossa vida. De outras nem tanto. Mas o jogo da vida é esse mesmo: recordações e esquecimentos, barulhos e silêncios.

Dessa frase ‘cada persona es un mundo’ eu me lembro bem: está registrada numa foto que tirei em Buenos Aires, de um cartaz pregado na parede. Às vezes a gente lembra das coisas passadas por meio de fotos. Mas podemos lembrar também por meio de sabores e aromas. O célebre escritor francês Marcel Proust se lembrava de todos os contornos da infância quando mergulhava seus bolinhos na sua chávena de chá.

O que a senhora recorda quando saboreia um alfajor?! Ele é capaz de levar a senhora à sua cidade de Centeio, em Santa Fé?

Gosto das planuras, labirintos, cheiros e sons argentinos. Conheci a Argentina, a sua alma, primeiramente pelos livros. Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Bioy Casares e Ricardo Piglia são meus preferidos. E gosto de Xul Solar, o pintor das escadinhas que nos levam às alturas. Gosto dos endereços argentinos, como eles são tratados, coordenados para não haver dúvida, para que os encontros ocorram. Cortázar abre seu livro ‘Os prêmios’ assim: ‘Era no London, esquina de Peru com a Avenida de Mayo’.

Acompanha essa carta um planisfério. Gosto dos mapas que mostram a física da Terra muito mais do que os mapas com as fronteiras políticas. Gosto quando tudo é uma coisa só, é claro com as montanhas e os relevos de cada ponto. A senhora se lembra das lagunas de Santa Fé? Sem as fronteiras, elas também são minhas. A senhora empresta o rio Salado pra mim?

Uma amiga minha, quando viajava, trazia sempre na mala uma pedrinha do lugar onde esteve. E reunia tudo num grande recipiente de vidro — todas a pedrinhas ali, de lugares diferentes, irmanadas, sin fronteiras. Um mundo! Imagino a Doña Elsa como um seixo lisinho que rolou aqui para São José para alguma coleção de pedrinhas irmanadas. Um beijo carinhoso, José Guilherme”..

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