É hora de despertar, vô

 

Despertou.

Dia 10 de maio de 1998.

Após passar 20 dias desacordado, o seu Luiz abriu os olhos e voltou à consciência. Celebrava-se o Dia das Mães, em todos os cantos do mundo. No coração da minha mãe, no entanto, aquele era o dia era de festejar o pai. A melhora no quadro de saúde do meu avô foi, sem dúvida, o melhor presente possível para a dona Adriana, a filha dedicada que manteve-se sempre ali, lado a lado de seu pai, seja dormindo no hospital, rezando em silêncio ou estando presente nas horas difíceis — quando a ausência é regra e a presença, seja ela física ou não, torna-se apenas uma lembrança pretérita, quase uma exceção. No fim de 1997, meu avô já havia nos dado um grande susto e, meses depois, ainda lutava pela vida.

E ele sempre foi assim, lutador. Luís Guillermo Codazzi nasceu na capital paulista no dia 16 de dezembro de 1934, precisamente na Mooca, filho do casal Rodolfo Eugênio Codazzi e Maria Augusta Glasser Codazzi, que havia deixado Rosário, na Argentina, e vindo para o Brasil.

Mais tarde, Luiz decidiu tomar o caminho inverso, indo viver na Argentina e naturalizando-se hermano. Vivendo na terra do tango, em Buenos Aires, conheceu a belíssima Dona Ana Maria, a minhã avó, e com ela teve cinco filhos: Marcelo, Adriana, Patrícia, Gabriela e Javier.

Meu avô sempre teve um jeito metódico, brincalhão, boêmio, mas com a força necessária para se fazer o que precisa ser feito. Foi moldado assim, na crueza da vida. Tinha coragem.

E a vida, nos anos 70, impôs a ele a necessidade de mudar-se mais uma vez, agora de volta ao Brasil, a Curitiba, onde alguns anos depois meus pais então se conheceriam na faculdade de arquitetura. Depois, os Codazzi, com a exceção feita à minha mãe, que foi para Taubaté, mudaram-se para o Rio de Janeiro.

Lá, este paulista de alma carioca, brasileiro estrangeiro agora em seu próprio país, se encontrou e viveu bem, com sua cerveja, queijos, dardos e amigos.

Depois dos problemas do final da década de 1990, porém, ele passou a ter suas dificuldades, principalmente de locomação.

E o quadro só piorou quando a dona Ana, sua companheira, se foi em 2014. E agora?

Lutar foi o verbo que ele mais conjugou de lá para cá, mas com seu humor peculiar. ‘Muito boa noite, bom descanso!’, exclamava ele todas as noites para a minha mãe e meu padrasto, que mudaram-se para o Rio a fim de cuidarem do meu avô.

E que tarefa dura.

Afinal, há momentos em que a vida, este frágil passarinho, deixa de ter no corpo um robusto e belo par de asas, e passa a ver só uma limitante gaiola. Não seria, então, a hora de voar?

Dia 13 de maio de 2018.

Vinte anos depois daquele Dia das Mães, desta vez o meu avô decidiu não acordar, pelo menos para nós. Temos a crença de que foi, no entanto, despertado para a eternidade por uma argentina linda, chamada Ana Maria.

Muito boa noite, vô.

E bom descanso.

 

4 pensou em “É hora de despertar, vô

  1. Com poucas palavras, você conseguiu descrever tão fielmente a figura do meu pai, este carioca paulista, argentino brasileiro com
    Cara de Papai Noel, com quem tive o prazer de conviver por mil e uma noites, nestes últimos tempos de cuidados e alegrias.
    Sobram muitas anedotas e lembranças, e a sensação de ter conseguido dar a ele a dignidade necessária para atravessar este último capítulo da vida, marcado pela ausência .
    da minha mãe, a quem ele nunca esqueceu.
    Tanto que de Adriana, virei Anita.
    De vez en quando me pedia desculpas, que rejeitava falando que não havia problema, se já tinha sido chamada de Adri , podia perfeitamente ser chamada de Anita ,
    (Adri-Anita)

    • Que lindo texto!
      Eu também como funcionária de sua empresa participei um poico dessa historia e me deixou muito emocionada.
      Seu Luis era como um pai para mim.
      Bom descanso meu amigo!

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