São sonhos gigantes

Seriam moinhos de vento ou gigantes? Sempre ao lado de Sancho Pança, seu companheiro e amigo fiel, o fidalgo castelhano Dom Quixote percorria as terras de la Mancha, de Aragão à Catalunha, no lombo do cavalo Rocinante, atrás de novas aventuras. O personagem criado por Miguel de Cervantes (1547-1616) e publicado pela primeira vez em uma edição de 1605, na cidade de Madrid, tornou-se mundialmente conhecido por personificar a luta entre a fantasia e a realidade. Entre a ideologia, o sonho, a fantasia (defendidas pelo nobre cavaleiro) e a dureza crua e séria do dia-a-dia, da vida real (representada em contraponto na obra pelo cético Sancho, sério fiel escudeiro). Quixote tornou-se adjetivo, deu origem à palavra ‘quixotesco’: termo para se referir a alguém sonhador, com coração romântico e utópico.

E, como escreveu Cervantes, o lema entre o idealista fidalgo e o seu fiel escudeiro era: o cavaleiro nunca foge a uma luta.

Falando em luta… São José dos Campos é palco de uma disputa que opõe duas formas completamente diferentes de se enxergar o futuro da cidade. De um lado, a visão que alia desenvolvimento e a qualidade de vida — com o hoje já quase utópico sonho de ter um mundo mais saudável, com devido respeito ao meio ambiente. E, do outro, a míope visão pragmática de que a construção do futuro é feita derrubando-se árvores e erguendo-se mais tijolos.

Trata-se do caso do Bosque da Tívoli, na Vila Betânia, no centro de São José, que corre o risco de ter suas 430 árvores derrubadas para a construção de um estacionamento. Mas asfixiar o ‘pulmão’ verde desta asfáltica região central é, literalmente, uma medida digna de um município que deseja parar — estacionar — no tempo.

E a comunidade se fez ouvir e demonstrou claramente que não é esse o futuro que ela quer para a sua cidade. Essa pressão surtiu efeito positivo. Nesta quarta-feira, a Cetesb suspendeu a autorização vapt-vupt para o corte das 430 árvores no Bosque. A medida obedece à ordem da Justiça e representa ainda uma vitória parcial — trata-se de uma liminar.

Por isso, ainda não há de se falar em baixar a guarda. Foi uma batalha vencida, mas a guerra da Tívoli ainda está sendo travada. E sem trégua. ‘A batalha é o meu repouso’, dizia Dom Quixote.

O cavaleiro teimava em acreditava em sonhos impossíveis, que é o nome de uma canção belíssima de Maria Bethânia. E a letra diz que ‘o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão’. Seriam moinhos de vento? Ou sonhos gigantes?

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *