Menino que fui na esquina de quem sou

Uma encruzilhada.

A vida é assim, uma encruzilhada. Lugar onde se cruzam infinitos caminhos, um emaranhado sem fim de encontros e desencontros. Chegadas e partidas. De partidas vencidas e perdidas. De estradas que nos levam por onde nos perdemos. E também, por vezes, nos encontramos também. Pablo Neruda, poeta maior, cravou em seu ‘Livro das Perguntas’: Pois não foi onde me perderam que eu me dei, enfim, por achado?’. Perguntas e respostas sem trombam pelas ruas desta encruzilhada.

E quando estamos em uma encruzilhada?

Sim, no sentido de estarmos em apuros, em meio a um dilema. Afinal essa encruzilhada da vida é repleta desse tipo de encruzilhadas. Vira e mexe, quando me vejo numa delas, vejo os meus pés percorrem sem rumo certo pelas ruas da cidade que foi minha e que hoje, de concreto, já não é mais. Nelas, encontro o entroncamento do passado, o presente e o futuro.

Onde terminará o arco-íris: dentro da alma ou no horizonte?

No mesmo passo, cruzam-se o menino que eu fui, o homem que eu sou e aquele senhor que serei. Por vezes, eles se reconhecem uns nos outros. Já em outros momentos nem se olham, deixando outra pergunta extraída da obra do genial escritor chileno: ‘Onde estará o menino que fui? Anda comigo ou evaporou-se? Sabe que nunca fui com ele, nem ele comigo tampouco? Por que estivemos tanto tempo crescendo para essa ruptura? Quando minha infância se foi, por que nós dois não fomos juntos?’.

Por quê?

‘Em que janela me quedei contemplando o tempo já sepultado? Ou o que observo, lá de longe, é o tempo que ainda não vivi?’

Nesta encruzilhada, deixamos uma parte de nós para trás a cada passo, abrindo espaço para o novo.  Mesmo que o novo seja um velho livro com uma nova capa. Em cada passo, decidimos, mesmo que inconscientemente, se viveremos um dia a menos ou um dia a mais.

E o que dirão aqueles que nos deram como morto? ‘E que bandeira tremulou no espaço em que não me esqueceram?’ O que dirão aqueles que me julgaram? ‘Que dirão da minha poesia os que não tocaram meu sangue?’ Minha roupa desbotada se agita como uma bandeira. E que bandeira tremulou no espaço em que não me esqueceram?

Nesta encruzilhada, ainda ontem sai feito carta perdida a conjugar indagações no peito. E entre tantas e tantas ruas, encontrei em uma delas a minha prima Malu, bem ali na esquina de quem fomos e somos, perto de onde nossos avós moraram por tantos e tantos anos. Que saudade. Conversamos, rimos e choramos. E o homem que sou reencontrou ali, nos olhos dela, o menino que eu fui. E que levo comigo sempre no olhar, nesta encruzilhada que se revela a cada passo como um livro com muito mais perguntas do que respostas.

E ainda ontem aquele garotinho disse aos meus olhos: quando nos veremos de novo?

1 pensou em “Menino que fui na esquina de quem sou

  1. Sua crônica me transportou para tempos longínquos, pedaços da minha infância…E lá habitam minhas reminiscências,minhas meninices de uma vida simples…Viver feito aqueles passarinhos em plena liberdade …
    Obrigada, Guilhermo,por me emocionar nesta manhã de sábado,que vem trazendo um sol timido,uma promessa de final de semana!

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