Quem foi que atirou a primeira pedra?

Curtir ou descurtir?
Polegar para cima ou para baixo? Absolver ou condenar? Vida ou morte?
Nos tempos atuais, em que o mouse transformou-se em malhete, é difícil responder a essas perguntas. Afinal, hoje nós vivemos em uma arena romana com Wi-fi, com uma violenta multidão ávida por compartilhar o sangue alheio, derramado pelo outro
em uma transmissão ao vivo pelo Facebook. E isso tudo, obviamente, em nome dos bons e velhos costumes, da defesa dos pilares do anfiteatro da hipocrisia.
Se der para postar uma selfie, mostrando a arena lotada e leões devorando pobres
cristãos, então melhor ainda. É garantia de mais likes.
Só ri da cicatriz aquele que jamais foi ferido“, afirmou William Shakespeare no clássico Romeu e Julieta. Pois é…
Sentados no trono, nossos césares modernos se divertem em tempo real desfrutando
deste delicioso banquete oferecido pela natureza humana, embriagando-se do choro
do vizinho, por quem já não sentem compaixão. Pelo contrário. Torcem pelo tropeço,
para que ele se estabacar no chão, afinal isso pode render um bom vídeo. Ou um memeviralizar. Seria perfeito, não? “Não julgueis, para que não sejais julgados. 2Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós”.  Neste barulhento tribunal, Mateus 7.1 não é pregado. Todos vestem toga. Preenchem um corpo meio vazio, com um copo meio cheio de seu próprio veneno. Alimentam-se do outro para aplacar o vazio e acalmar a sua angústia existencial, convencendo-se de que “são melhores” e “mais virtuosos”.
Estão a salvo.
Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las, disse certa vez Madre Teresa de Calcutá.
Não, esse discurso hoje não cola.
Afinal, o tempo é curto. Nessa imensa biblioteca só há espaço para as orelhas de
livros. Todos falam. E ninguém quer ouvir. Só há verniz. Um filtro para a foto e
uma felicidade fictícia e teatral, encenada pelo personagem que criamos de nossa
própria humanidade. Ser ou não ser? Que tolice, Hamlet.
Parecer ou não parecer, eis a questão, pobre príncipe.
“Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus“, sentenciou o jornalista uruguaio Eduardo Galeano, que era escritor apesar de não ter sido um youtuber.
Neste palácio da Justiça, não há trégua: bate-se também na outra face.
E até mesmo em nome de Deus. Ou do time de futebol, da preferência política, por conta da orientação sexual, da cor da pele. Por qualquer coisa.
Sim, claro, disso todos nós já sabemos.
Mas eu ainda tenho uma dúvida: quem foi que atirou a primeira pedra?

** João 8:1-11  Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras. 2.  Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. 3.  Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na ficar em pé diante de todos 4.  e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. 5.  Na Lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz? ” 6.  Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. 7.  Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. 8.  Inclinou-se novamente e continuou escrevendo no chão. 9.  Os que o ouviram foram saindo, um de cada vez, começando com os mais velhos. Jesus ficou só, com a mulher em pé diante dele. 10.  Então Jesus pôs-se de pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou? ” 11.  “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”.

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