Os passarinhos e as rosas de março

* Na foto: Rafael, Marina, Malu, Julio, Santi, Guilhermo e Bruno, ao lado da avó Ana

Éramos inseparáveis. Tecnicamente, primos. Mas irmãos é a palavra que melhor nos define. Apesar dos quilômetros de distância entre nós, crescemos juntos. Eu nascido em Taubaté, no dia 30 de janeiro de 1981. Já o Bruno era carioca, do dia 4 de março de 1982. Aprendemos juntos a sonhar. Primeiro jogaríamos no meu Corinthians e depois no Flamengo, clube que ele tanto amava. Quando nos encontrávamos, nas férias escolares, o papo rolava até altas horas da madrugada.

Falávamos de videogame, futebol de botão, figurinha ainda posso sentir o cheiro daqueles dias. Bruno era um menino inteligente. Desde pequeno ele usava óculos com uma armação grossa e dormia com eles. ‘É porque eu quero ver os meus sonhos’, respondia sempre que era indagado sobre esse estranho costume. Recordo-me que ele adorava Fanta uva e tinha o hábito de comer pão com açúcar no café da manhã.

No futebol, quando os Codazzi entravam em campo ficava ruim para os adversários. Julio, o meu irmão caçula, era uma semana mais novo que meu primo e completava o trio. Escondidos, assistíamos programas adultos na casa da minha avó Ana, lá no Rio, ou saqueávamos a geladeira na casa da tia Gabi, durante a madrugada.

Um dia, no entanto, tudo mudou drasticamente, com uma duríssima lição: a vida é imprevisível. Enquanto jogava bola com amigos, Bruno sentiu uma forte dor no joelho direito. Ele, que tanto sonhava em vestir o manto rubro-negro, foi então diagnosticado com câncer na perna. Era o ano de 1996.

Vieram as sessões de quimioterapia, a primeira operação. E, em todos os momentos, estivemos lado a lado, lutando juntos uma duríssima batalha. Queria poder protegê-lo. Depois que o tumor foi retirado, tudo parecia resolvido. Mas, meses depois, a equipe médica detectou que o câncer ainda não havia sido eliminado. Veio a amputação da perna. Dos sonhos. No entanto, sem reclamar, ele ia de muletas para o Maracanã. Agora ele queria ser repórter esportivo.

Em 1999, porém, os médicos descobriram o processo de metástase. De forma, infelizmente, incontrolável. Bruno não podia mais se levantar do sofá e, para ajudá-lo, eu ficava ao seu lado o dia todo. Enquanto sonhávamos com a cura, me recordo de ouvir uma noite, após dar a ele uma dose de morfina, meu primo sussurar, conversando com Deus: ‘Até quando?’. Chorei. Entendi que estávamos sendo egoístas em querê-lo conosco.

Em 3 de março de 2000, ele se foi feito um passarinho, na véspera do aniversário de 18 anos. Há dias em que a falta que sinto dele se acentua, como hoje.

Quando nos vemos em sonhos, acordo com passarinhos na minha janela. E eles cantam linda e fragilmente. Como é a vida.

P.S. Todo dia 4 de março, data do aniversário do Bruno, minha mãe vai à varanda aqui de casa, em Taubaté, logo nas primeiras horas da manhã e se encanta. Há sempre uma rosa linda, que acaba de florescer.

** Adaptação de crônica publicada no livro Cartas Perdidas em um Mar de Palavras, de autoria do jornalista

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