Ensaio sobre a cegueira e a quarentena do amor invisível

Ensaio sobre a cegueira.

Ao percorrer as ruas vazias, observando pessoas com máscaras e o corre-corre quase apocalíptico para os supermercados, logo me vem à memória a obra do escritor português José Saramago (1922-2010), publicada no ano de 1995 e levada às telas do cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles 13 anos depois. Na história, o mundo se vê abalado por uma epidemia: a ‘treva branca’. A doença, que espalha-se de forma incontrolável, tira a visão de seus infectados. Em quarentena, a sociedade cega percebe-se reduzida à essência humana, em uma viagem às trevas. Os tempos são sombrios. Saramago destacava a responsabilidade de ter olhos quando outros os perderam.

Fechar os olhos para ver.

Na história, a humanidade, com toda a tecnologia e civilidade que se orgulha de ter criado, em pouco tempo libera os instintos mais animalescos. “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”, escreveu o genial português.

Falando em cegueira, seria uma visão pessimista da nossa realidade? “Não sou pessimista. O mundo é que é péssimo”, responderia o Nobel de Literatura.

Fechando os olhos, o que veremos dentro de nós, em 2020, tendo adiante uma crise tão severa, agravada por um governo cegado por sua ineptidão? Que natureza vai emergir no nosso peito?

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia”, sentenciou. “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.

Seria eu mais otimista?

Diante de um cenário tão grave, com milhares de vidas em risco e risco de colapso econômico, ser otimista é algo impensável.

No entanto, ao fecharmos nossos olhos para ver, acredito que é possível refletirmos sobre muitos aspectos. O que não víamos, mas agora enxergamos?

Serão meses de confinamento e rígidas (e corretíssimas) orientações para que evitemos abraços, beijos e até mesmo um aperto de mãos. Há quarentena de amor?

Tal sentimento, que pode se traduzir de variadas formas, estava mesmo circulando livremente?

Você o via nas esquinas?

Mascarado, talvez? Ou no olhar de estranhos que se cruzavam na fila do oftamologista? Recuperar a lucidez, resgatar o afeto. Agora cegos, voltaremos a ver o amor?

NOTINHAS

ISOLAMENTO

Para evitar risco a idosos do Lar São Vicente de Paulo, em Santana, grupo Cartas Perdidas trocou as visitas por vídeos.

TRADUÇÃO

Afinal, o amor é o melhor remédio e multiplica-se quando compartilhado. Há palavras que são como abraços bem dados.

SARAMAGO

“O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio”. Qual é o seu sonho?

Uma carta e um abraço

Uma carta na mão e um propósito na cabeça.

E lá estava eu, em pé diante de uma sala lotada, falando a respeito do amor ao próximo. Acredito que cada palavra é uma semente, que pode cair (ou não) em boa terra e gerar bons frutos, se semeada com cuidado e carinho. E passei aquela manhã de janeiro, menos de dois meses atrás, acompanhado por voluntários, na companhia de 45 adolescentes que cumpriam medidas socioeducativas na Fundação Casa de Taubaté. E não perguntei a nenhum deles que infrações haviam praticado, pois não estava ali como juiz.

E nem como jornalista.

Estava ali Guilhermo Codazzi da Costa, voluntário idealizador do projeto Cartas Perdidas, que tem a missão de espalhar mensagens de fé, esperança, poesia, acolhimento e amor em locais públicos, orfanatos, asilos, hospitais, além de famílias carentes, moradores de rua, etc.

E o que faria o jornalista Guilhermo Codazzi da Costa? Perguntaria.

Pensei muito a respeito desse tema após a polêmica, que tem sido tão comentada nas redes e também nas redações, envolvendo a reportagem de Drauzio Varella no ‘Fantástico’ e o abraço do médico na presa Suzy.

O repórter que fui, tendo visitado inúmeros presídios e unidades da Fundação Casa, também nunca foi ‘juiz’ em suas apurações, porém buscava informar. ‘Jornalismo é precisão’, diz uma máxima repetida à exaustão, como mantra, nas redações jornalísticas. Ao contar a história de um preso, dizer ao público que crimes esse personagem cometeu me parece parte fundamental da apuração.

Dito isso, sem querer vomitar regras, ser ombudsman, muito menos desmerecer a trajetória de Varella, mas para promover o debater, avalio que houve sim um erro jornalístico. É um fato. E qual foi o erro?

A reportagem não cumpriu o seu papel basilar: informar com clareza e transparência. Ao não informar que a presa foi condenada por ter estuprado e matado uma criança de 9 anos, ela induziu o seu público a entender a história de forma distorcida, como se Suzy não recebesse visitas por ser trans.
Acredito que a justificativa inicial de Varella, de que como médico não agia como juiz e não questionava os seus pacientes sobre sua história de vida, não se sustenta. Meu diagnóstico é que ali estava sendo produzido um material jornalístico, não se tratava de uma consulta médica. E um conteúdo editorial com erro de apuração. É salutar, inclusive, que a emissora e Varella tenham reconhecido o erro, afinal não se pode abraçar as falhas, a transparência na relação com o público é primordial.

A polêmica tem ainda outras facetas. Em um momento delicado, em que governos que flertam com o autoritarismo atacam a liberdade de imprensa diariamente, o caso dá munição para milícias digitais atacarem o jornalismo e fazerem uso político do episódio, inclusive com uso de fake news — como, por exemplo, a história mentirosa de que Varella teria aspirações políticas. Há também o reforço de estigmas contra trans, que sofrem sim preconceito no país, seja dentro ou fora do sistema prisional.

Agora, o abraço foi um erro? Merece polegar pra cima ou pra baixo?

O voluntário Guilhermo Codazzi da Costa, particularmente, abraçaria Suzy, Drauzio, principalmente a família do menino brutalmente assassinado e abraçaria você também, esteja agora concordando comigo ou me crucificando. O Guilhermo cidadão cristão também faria o mesmo que o doutor ateu fez, não no exercício da prática jornalística e sim no exercício do que entende ser o amor incondicional ao próximo, ensinado pelo filho de um carpinteiro da Galileia, que dizia que devemos perdoar 70×7 (que dá mais do que 490) e andava ao lado também de ladrões, prostitutas, cobradores de impostos, adúlteros e outros grupos marginalizados.

“Estive na prisão, e foste me ver”. (Mateus 25:36)

O amor e o perdão são sempre a melhor notícia do dia. Um abraço a todos!

P.S. 1. As cartas dos adolescentes da Fundação Casa serão levadas para um asilo de Pindamonhangaba. Os idosos responderão e vamos criar uma troca de correspondência entre essas gerações tão diferentes.

P.S. 2. Que tal escrevermos cartas para a família do menino?

P.S. 3. Em 2020 queremos tirar do papel também o envio de cartas para unidades do sistema prisional e outros públicos. Já atendemos asilos, orfanatos, hospitais, população de rua e ajudamos parceiros na tentativa de facilitar a adoção de cães abandonados, entre outras ações.