No Morro da Imaculada

Naquela noite de garoa, era tudo sereno

Ele fã de Lennon. Ela de McCartney. Dois solitários debaixo do céu de estrelas e bandeirolas. É dia de arraial. Ela filha do rei, aquela flor que a gente assopra e então o perfume da primavera vem. Vem de Curvelo. Ela vem. É primeira, pequenina e leva no nome o D de destino. O espírito das plantinhas do mato, as ondas imensas do mar. Ele, rapaz caipira, traz no alforje palavras não ditas, um álbum de família e a canção do povo de algum lugar. De uma terra tão querida, com céu azul e águas claras, na estrada do Canindé, onde a água faz chuá chuá diante de um imenso jardim. Um jardim de fantasia, com espelho d’água. É bonito demais!

“No Morro da Imaculada tem, divino, congada e moçambique também, no Morro da Imaculada a sorte é daqueles que andam com os sinos de São Salomão”

Frutos da terra, pela primeira vez estão os dois ali, de papo pro ar, a andar a pé lado a lado, pela rua de pedra e sonhos guaranys. Como numa romaria por entre as barraquinhas da quermesse, que vendem de garapa a tutu com torresmo, aprendem que a poeira é ouro em pó. Ao som de Renato Teixeira, torcem para que o relógio dê um tempo, fazendo com que o curto trajeto seja cumprido sem pressa. Como Deus em seu tear. Ao gosto do coração e nas asas do vento. Pé ante pé, eles caminham um bocado de anos em poucos minutos. Sessenta léguas em um dia. Se conheciam, mas jamais tinham-se visto. Agora, irmãos de Lua. Um só. Era luz. Amor divino, amizade sincera e uma leve guarânia.

“Figuras de sonho que as mãos de viola transformam em enfeites de cor. Singelos duendes de um de barro
Que dona Edwirges moldou.”

Ela então, singeleza como uma pequena figura de barro, lhe disse: “sabia que você tem os olhos do Paul?”. Ele perguntou se deveria encarar aquilo como um elogio, já que o beatle hoje parece o Quico, do Chaves. E no Morro da Imaculada os dois riram. Juntos, pela primeira vez. “E quando o dia nascer, trazendo a alvorada brasileira e as pedras no caminho, terá sido tudo isso nada além de um sonho?“, pensou o rapaz de alma sertaneja, que trazia nos olhos profundos de menino da porteira uma velha história e um rio de lágrimas.Tinha medo. Medo do que? Amor, leva eu, ele pedia. Riram juntos outras tantas vezes. Destinos enlaçados pela poesia de Pablo Neruda.

“Se chove no Morro da Imaculada as moças desenham com cinzas um sol no chão que assim a chuva vai logo embora deixando um arco-íris lindo pra enfeitar o céu”

Depois da curva da estrada, em uma casinha branca ao pé da serra, tingiram os lábios com o vermelho da amora. E ao lado da casa de um caboclo, de nome Chico Mineiro, vizinho de Zé Ponte e Zé Pereira, entenderam que o cavalo bravo é que domou o temporal, aprendendo a viver como um guardião da floresta. Êta mundo bão! Tocando em frente, em transformação, compuseram uma doce canção que hoje o violeiro toca em sua chalana, rio abaixo. No rio de três nascentes: terra, mar e ar. Os dois tornaram-se uva e vinho, trigo e pão. O sertão e o mar. O ser tão amar.

“Corto de sapo sapinho-aranhão
Bicho de toda nação,
Três brotos de alecrim da Guiné
Para o que der e vier”

Dançariam tango na fila do cinema, caminhariam de pijama pela Paulista e vasculhariam a feira de trocas, em busca de uma barganha. Disputariam o futebol na sala, criariam seus próprios jogos. Cairiam, levantariam. Criariam um universo particular. Ela se tornaria sua casa, sua igreja e família. Juro. Eram Igreja Matriz, com missa do padre Evaristo. Na noite dos sinos, era o nome dela que ele chamava. Voa comigo? Me conta uma história? Minha história? A história do funeral do lavrador, que levava no peito a sina de violeiro e a tristeza do Jeca. Que saudade!

“E violeiro violai que é domingo
Imaculada tradição dos puros figureiros
E violeiro violai que é domingo
Imaculada tradição dos puros figureiros”

Por falar em saudades… veio um tempo obscuro na vida daquele pobre pássaro humano, brasileiro errante. Com um nó na garganta, o adeus. Quando a nuvem passa e o amor se vai, o que era doce acabou? Que saudade, que saudade danada! Dez anos depois, o amor que nasceu no Morro da Imaculada hoje é representado por duas figuras de barro, que seguem lado a lado no alto do armário, em meio a roupas de outras estações. Uma representa o John e a outra o Paul.


Tantas vezes me mataram
Tanta vezes eu morri
Mas agora estou aqui
Ressuscitando”

Naquela noite de garoa, era tudo sereno. Ele fã de Lennon, ela de McCartney. Lado A e lado B de uma linda canção. Tatuada na alma. Com agulha de vitrola. Ainda hoje, ele manda para ela o recado: quero você. Sabe que o amor tem muitas maneiras de parecer que morreu, compadre meu dizia, que amor é coisa de ateu. Graças a Deus! E depois de tanto tempo, em meio a um mar de palavras, ele pede a Deus apenas uma chance. Uma chance de para a sua amada mostrar o seu olhar, seu olhar, seu olhar…

Agradeço ao meu destino
E a essa mão com um punhal
Porque me matou tão mal
E eu segui cantando

Texto traz em negrito nomes de músicas do repertório de Renato Teixeira, poeta da nossa música

Palavras são como pássaros. Liberte-as!

Dou a minha palavra.

Podem perguntar para os meus amigos ou para o Julio, meu irmão. Quando moleque, eu tinha coração de capotão. Passava o dia todo na rua, vestido com a camisa 10 do Timão e tendo nos pés uma bola Dente de Leite, indo de campinho em campinho atrás de uma partida. Modéstia à parte, eu era bom de bola. Os clássicos contra o time da rua de baixo, no melhor estilo ‘golzinho de tijolo’, era digno de Copa Libertadores, tamanha era a rivalidade. Assim era, pelo menos, na nossa imaginação. E por falar em imaginação e fantasia, sonhava ser jogador de futebol e ganhar a vida fazendo gols, muitos gols alvinegros por aí. É, nada mal, não é? Mas…

Bom, faltou perna (e, vou admitir, futebol) para isso, para a felicidade da Fiel torcida corintiana, diga-se a verdade. Então, como a bola deixou de ser uma opção, o caminho foi ganhar a vida com as palavras. Primeiramente, falando de esportes. Depois, já vivendo a vida nas redações, escrevendo a respeito de temas variados.

Tomei gosto pelas palavras, por esculpir palavras, como faz o carpinteiro, por exemplo. Descobri, com o auxílio de mestres como o poeta Pablo Neruda (1904-1973), que as palavras são como pássaros, que fazem o ninho dentro do nosso peito. “A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei”, dizia Manoel de Barros, um dos gênios da nossa literatura.

Entre 2012 e 2013, com a ajuda daquela para quem endereço todas as minhas palavras, comecei a espalhar cartas por aí, em espaços públicos, contendo poemas, crônicas… enfim, palavras.

Nascia o projeto ‘Cartas Perdidas’, que já rendeu dois livros.

No entanto, eu posso dizer hoje que, finalmente, essas cartas se encontraram. Na última semana, com a ajuda de uma linda corrente do bem, formada por artistas, atletas e voluntários, reunimos aproximadamente 450 cartas de amor para Brumadinho. Doamos milhares e milhares de palavras, capazes de aquecer o coração, de alimentar a alma e curar feridas.

E essas mensagens serão entregues neste domingo às famílias.

Nos últimos tempos, quando eu ‘perco’ uma carta por aí, deixo no envelope a seguinte frase: ‘A carta contém centenas de palavras e e as palavras são como pássaros. Liberte-as’. Só nos resta responder à pergunta: seria o nosso coração uma gaiola ou um par de asas?