A vida é um sopro e hoje é dia de viver

É fato. Toda manhã, quando levantamos da cama, nos deparamos com o dilema: viveremos um dia a menos ou um dia a mais?

Todos os dias fazemos a opção de viver ou morrer um pouco.

Há ainda, claro, uma terceira opção também, em que se vive em letargia, paralisado, em coma emocional profundo. Neste caso, não há morte — uma vez que o indivíduo em questão nem viveu.

Acredito que todas as manhãs, inconscientemente, nós respondemos à vida se somos (e temos) um co(r)po meio cheio ou um co(r)po meio vazio.

Meio cheio de tudo.

Ou meio cheio de cor, vibração e energia. Meio vazio, daquele tipo de vazio que dói e corrói. Ou meio vazio, daquele vazio que não vê a hora de ser desbravado, transformado.

Não seria a vida, justamente, um copo meio cheio e meio vazio?

A resposta estaria, caro leitor, no que fazemos com ela?

Na maneira como nós lidamos com os ‘abacaxis’ que a vida deixa pelo caminho?

Para uns, os dias vêm e vão.

Para outros, os dias vêm em vão, como folhas mortas pelo chão. Somos como as quatro estações: verão, outono, inverno e a primavera. Somos trem e estação. Dia de seguir?

Oscar Niemeyer costumava dizer: ‘A vida é um sopro, um minuto. A gente nasce, morre. O ser humano é um ser completamente abandonado’.

Portanto, caro leitor, se a vida é um sopro, assopre!

Assopre com toda a sua força, a plenos pulmões!

Assopre um balão e faça com que ele voe alto! Ou assopre bolinhas de sabão pelo ar. Tanto faz, mas assopre. Opte sempre por um dia a mais.

Afinal, cada dia é único.

Assim como você. Afinal, a poesia está nos olhos de quem vê. De quem vê a vida com olhos de criança. A vida é um sopro? Assopre essa vida!

* Abaixo, poema de Pablo Neruda que, com sua ironia, traz grandes reflexões:

‘A Vida. A vida, a vida é coisa lenta. Por isso há que pensar de imediato em deixar que passe sem saber que passa.

Há que deixar de fora todos os demais, há que se meter a gente mais dentro de si mesma. Quando a chuva principia a cair, há que ter uma casa e um telhado e uma braseira. Depois, se chega o bom tempo, que haja uma arvorezinha verde sob a qual descansar.

Há outros homens no mundo, é verdade.

Os portos distantes trazem e levam homens ruivos, de outras terras em que também há sóis e chuvas. Pois bem, esses que chorem. Já se trabalhou bastante para lhes dar o que não se pode dar. Trabalha-se, é claro, depois a gente se acostuma a trabalhar. Os vícios o amor tudo há que deixar de fora. O amor, também o amor. Lá na juventude era bom; sempre havia uma coisa oculta e perfumada que estalava pela boca e pelas veias; agora não.

Agora, menino, agora temos que viver. Deixa tudo de fora, tudo. E conserta o teu telhado, que já começa a chover’..

Abelhinha, sonhando alto com seus óculos de grau

Bruno de camisa preta, ao meu lado, durante a primeira comunhão da minha irmã Marina e da minha prima Malu, no Santuário de Santa Teresinha, em Taubaté

‘Quero ver os meus sonhos’.

Assim meu primo Bruno, ainda com aquele olhar puro e doce de criança, respondia à pergunta que lhe faziam insistentemente: afinal, por que você dorme de óculos?

Desde cedo o Abelhinha, como nós o chamávamos, usava óculos fundo de garrafa, com a armação preta e bem grossa — era parecida com a da Chiquinha, do ‘Chaves’.

Recordo-me dele, com seus 4 ou 5 anos, já com os óculos até mesmo na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, onde morava a família da minha mãe — avós, tios e primos, muitos e muitos primos.

Mas a palavra primo não define com precisão aquilo que éramos. Nós, que me desculpe o Aurélio e os demais léxicos, sempre fomos irmãos. Inseparáveis. Eu de janeiro de 1981, ele de março de 1982, juntinho com o meu irmão Julio, que completava o nosso time.

Crescemos juntos. Nós aqui, ele lá no Rio. Mais do que isso, aprendemos a sonhar juntos. E sonhávamos muito, mas muito alto.

Um exemplo?

Bruno e eu jogaríamos no Corinthians, time do meu coração, e Flamengo, um dos amores dele. Juntos, obviamente. Mais tarde, o futebol e nossas caneladas deixaram claro que o ideal seria mudar de plano e, por isso, passamos a sonhar em ganhar a vida com jornalismo esportivo.

Anos mais tarde, no entanto, ele foi diagnosticado com câncer. Foi uma dura batalha, dolorosa para todos. Quatro anos, até que ele se foi feito um passarinho em 2000 — um dia antes de fazer 18 anos.

Desde aquele tempo, guardei no peito a vontade de poder participar, contribuir de alguma forma, com crianças e adolescentes que enfrentam essa dura batalha.

Este ano, aqui dentro da redação de OVALE, surgiu a ideia de criarmos uma ‘corrente do bem’ envolvendo jornal, galeria Victor Hugo e dezenas de artistas para o benefício do Gacc (Grupo de Assistência à Criança com Câncer), entidade que atende 500 crianças e adolescentes com a doença.

Foto do lançamento da exposição Mãos à Obra, realizado na Galeria Victor, parceira do jornal OVALE no projeto em benefício do hospital do Gacc, em São José. Foto de Gilberto Freitas.

O poeta Raul Seixas cantava que o sonho que se sonha só é só um sonho, mas o sonho que se sonha junto é realidade. E em um tempo com tanta divisão, a solidariedade uniu dezenas de pessoas dispostas a praticar a arte de amar o próximo, como a si mesmas.

Vez ou outra, encontro o Bruno quando adormeço. Espero vê-lo hoje. Ei, Abelhinha, não esqueça os óculos. Porque o sonho vai ser lindo.