A era da pós-verdade: 1984 ou 2018?

Winston Smith ganhava a vida trabalhando arduamente no Ministério da Verdade, órgão estratégico para o onipresente e onipotente regime político totalitário de Oceania. O trabalhador, sempre sob os olhos vigilantes do Grande Irmão, aquele que tudo vê, tem como função a propaganda do partido responsável pelo superestado e também o chamado ‘revisionismo histórico’: ele reescreve artigos de jornais do passado, para que o registro histórico sustente, corrobore, legitime, apoie a ideologia que o líder prega no presente. Traduzindo: ele faz com que o presente caiba no passado, nem que para isso seja preciso torturar fatos e manipular informações. O Ministério ainda destrói todos os documentos que não foram editados ou revisados, eliminando, assim, qualquer prova que poderia mostrar que o Estado esteja mentindo. Neste ambiente, que é ininterruptamente monitorado pela ‘Polícia do Pensamento’, desenrola-se a sufocante e perturbadora trama de ‘1984’, clássico da literatura mundial, obra-prima do escritor George Orwell.

A obra, que foi escrita em 1948 e criou termos como Big Brother e outros, figurou na lista de livros mais vendidos dos Estados Unidos depois da vitória do republicano Donald Trump, em 2016, na campanha eleitoral que cunhou expressões como, por exemplo, pós-verdade, fake news e fatos alternativos. Lá como cá, o pleito foi marcado e manchado por terrorismo digital, com a disseminação de mentiras — um importante agravante registrado no caso norte-americano, foi o vazamento de dados do Facebook para empresa de marketing político (a informação era usada para detectar o eleitor indeciso e agir sobre ele) e a interferência estrangeira.

No Brasil, país onde o presidente da Corte Suprema já reclassificou o golpe militar de 1964 como ‘movimento de 64’, o conceito de pós-verdade (quando, na tentativa de moldar a opinião pública e influenciá-la com mentiras, fraudes e truques, os fatos possuem menos influência que apelos feitos às emoções e às crenças pessoais) e de fatos alternativos têm imperado nessa disputa eleitoral.

Neste cenário, bombardeado e infernizado pelas já tão perniciosas fake news, há, infelizmente, muito pouco espaço para a discussão programática. Porém e o kit gay? Certamente dele uma boa parcela do eleitorado ouviu falar, apesar dele jamais ter existido. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ordenou que o candidato Jair Bolsonaro (PSL) retire do ar uma publicação que acusa seu rival Fernando Haddad (PT) de ser criador desse kit que não existe e jamais existiu.

São todos iguais, mas uns mais iguais do que os outros?

O fenômeno, no entanto, parece ser ambidestro, apesar do número maior de queixas relacionadas à candidatura do ex-militar. Esse mesmo tribunal, por exemplo, determinou nesta terça-feira que a campanha petista retirasse o conteúdo que acusa Bolsonaro de ter votado contra a Lei Brasileira de Inclusão — ele, na verdade, votou contra um dos destaques.

No país marcado pelos fatos alternativos, uma verdade absoluta é que, em 1984 e em 2018, a verdade está duramente ameaçada.

É verdade, há um ataque de mentiras à democracia

Foto: José Cruz/Agência Brasil

É fato. Em uma tragédia anunciada, as fakes news interferiram — e ainda vão interferir mais — nas eleições brasileiras, transformando-se em uma arma cada vez mais letal à democracia, capaz de provocar — ou potencializar — uma onda de desinformação e histeria coletiva, além de pânico, medo, violência e intolerância em escala assustadora e preocupante. Trata-se de um modelo de terrorismo cybernético praticado contra a liberdade de opinião e pensamento, que já havia mostrado todo o seu poderio destrutivo mundo a fora, como nas últimas eleições nos Estados Unidos, México e no Brexit, ou na onda de violência em países como Índia e Sri Lanka, entre outros exemplos. No Brasil, já há pesquisas indicando que 75% dos brasileiros temem que o seu voto seja influenciado por notícias falsas. São três quartos de um eleitorado bombardeado diariamente por mentiras e boatos plantados estrategicamente, com o objetivo de demonizar determinados candidatos e beneficiar outros. Estão roubando a sua opinião.

As fake news, que têm 70% mais chances de viralizar, ‘bombar’ do que teria uma notícia verdadeira, encontraram nas redes sociais — ou hoje antissociais — um terreno propício para propagarem-se feito uma praga.

Nos EUA, nas eleições de 2016, a rede social Facebook foi a plataforma mais utilizada para a disseminação das notícias falsas na campanha de Donald Trump e foi jogada para dentro do escândalo da Cambridge Analytica — a companhia de marketing político que usou dados de 87 milhões de perfis para influenciar sua escolha.

No Brasil, apesar de também se propagar no Facebook, as fake news possuem como carro-chefe o aplicativo WhatsApp, que tem o impressionante número de 120 milhões de usuários no país.

O Whats é atualmente uma ferramenta muito presente no dia a dia da população. Segundo os dados do Datafolha, um percentual de 61% dos eleitores do candidato Jair Bolsonaro (PSL) se informam pelo aplicativo. O número é de 38% em relação a Fernando Haddad (PT). É muita coisa.

E a estratégia de espalhar notícias falsas nesse ambiente, infelizmente, tem se mostrado eficaz.

Mas e por quê? A mensagem é entregue dentro da bolha em que vive aquela — principalmente nos grupos familiares, de pessoas da confiança do receptor, de acordo com estudos recentes. Isso é ainda agravado pela dificuldade que uma parte da população tem para interpretar textos — somente 22% dos brasileiros que chegaram até a universidade têm condição plena de compreender e se expressar, revela o Indicador de Analfabetismo Funcional.

Esse clima de intolerância, que é turbinado pelas fakes news, está materializado na triste escalada de violência. Já são 56 agressões ou ameaças nos últimos dias, segundo os dados da Agência Lupa, sendo 50 ligados a simpatizantes de Bolsonaro e 6 de Haddad.

Até aqui, o Brasil tem mostrado-se absolutamente incompetente para coibir o problema.

Não se engane.

Nossa democracia hoje está sob ataque, um duro ataque de mentiras. É verdade. É preocupante.

É fato, isso não é fake.

Memes, debates e ‘Zap Zap’ na briga pelo voto

Debate. A eleição é o ponto máximo do sistema democrático, uma oportunidade indispensável para que a sociedade possa debater quais são seus principais problemas e que soluções pretende adotar, que prioridades deve definir e que linhas traçar para trilhar o caminho do futuro. É a hora de colocar frente a frente as mais diferentes correntes de pensamento político e ideológico, confrontar as visões por vezes antagônicas e diametralmente opostas que temos para a realidade de um mesmo país. Neste pleito de 2018, que tem papel fundamental para os rumos de uma nação mergulhada até o pescoço em uma crise política e econômica, nunca se debateu tanto. Infelizmente, quando o assunto é a corrida presidencial, principalmente neste segundo turno, o debate se restringe apenas às redes sociais, infestadas de ódio e amplamente contaminadas pelas fake news. Mas e o confronto entre os candidatos, cadê?

Infelizmente, ao que tudo indica, o eleitor brasileiro não terá a oportunidade de ver os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto frente a frente, discutindo, argumentando, discordando, questionando um do outro ao vivo em um debate.

Aliás, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) podem encerrar a disputa no dia 28 sem terem duelado nenhuma vez — no início da campanha, quando seu adversário chegou a comparecer a debates, o petista ainda não havia sido lançado pelo seu partido; depois, o capitão da reserva deixou de comparecer aos confrontos após ter sido vítima de um atentado em Juiz de Fora, no dia 6 de setembro.

Depois de Bolsonaro argumentar que não podia participar dos debates por recomendação médica, hoje é evidente que trata-se, neste momento, de uma estratégia de campanha.

De acordo com o Ibope, em pesquisa que foi divulgada nesta segunda-feira, o candidato do PSL tem 59% das intenções dos votos válidos, contra 41% do petista — uma larga vantagem faltando 12 dias para a eleição.

Com a faca e o queijo na mão, por que arriscar? É o que defende a estratégia de campanha, ciente de que o ex-militar é conhecido por frases infelizes e polêmicas, que, em tese, poderiam provocar danos à candidatura.

Ele tem optado por fazer lives nas redes sociais — onde não está diante do contraditório — e participar de programas de televisão selecionados por sua equipe.

Quem perde é o eleitor, a democracia. Quer ver debate?

Por enquanto, neste 2º turno, só mesmo se for no WhatsApp.

Just another brick in the wall

O muro. Invisível porém palpável, o muro é construído tijolo por tijolo, dia depois de dia, de forma lenta e dolorosa, tendo o discurso de ódio e a ignorância como argamassa. O muro, pintado com a cor do extremismo ideológico ambidestro, divide os pais e filhos. Mães e filhos. Irmãos. Amigos. Parentes. Opõe ‘nós’, de um lado, e ‘eles’, de outro. Escava, no peito da mãe terra, trincheiras onde planejava-se a edificação de pontes para o futuro. Secciona e amputa. Tortura fatos, dissemina a confusão, a mentira, a barbárie e a histeria coletiva. Expõe preconceitos, incentiva o patrulhamento ideológico e coloca os iguais em lados diferentes, como inimigos — e não opositores. As eleições brasileiras, como se evidencia tanto nas redes sociais quanto no dia a dia fora delas, aprofundaram a divisão no país. Partido, um Brasil partido após a grave crise econômica, política, moral e que assassina o mito de que somos um povo cordial.

Essa divisão foi notícia na noite de terça-feira, quando o baixista Roger Waters, ex-líder da icônica banda Pink Floyd, apresentou-se em São Paulo para 45 mil fãs, em um show da turnê ‘Us Them’. O astro do rock, mundialmente conhecido por clássicos como ‘The Wall’ e outros tantos, foi vaiado e aplaudido ao criticar o candidato Jair Bolsonaro (PSL).

Acirrada, a campanha eleitoral tem se mostrado uma guerra sem trégua. Notícias falsas, discurso de ódio contra as minorias, tiros disparados contra a caravana de Lula, o absurdo atentando contra Bolsonaro, troca de socos e pontapés entre os militantes, o assassinato de Moa do Katendê, brigas no Facebook, fake news…

Todos esses formam um conjunto de exemplos, just another brick in the wall. Apenas um tijolo a mais na construção do muro que nos divide. No entanto, diferentemente do que diz a letra de ‘The Wall’, isso é sinal de we need education.

E democracia.

O menino que fui nas eleições que já se passaram

Dia 5 de junho de 1989.

Com os olhos vidrados na tela de nossa surrada tevê, aparelho que transportava um planeta inteiro para a sala da minha casa graças àquelas granuladas imagens em preto e branco, o menino que eu fui assistia paralisado a cena histórica: de peito aberto, desarmado, um jovem estudante desafiava uma coluna de tanques de guerra na praça da Paz Celestial, na capital chinesa. Naquele dia, que entrou para os registros da História como o ‘Massacre da Praça da Paz Celestial’, milhares decidiram sair às ruas de Pequim e outras cidades para protestar contra o regime, a corrupção e a crise econômica, agravada pelos altos índices de desemprego e de inflação. O jovem destemido que parou os tanques, apelidado de ‘rebelde desconhecido’, teve sua imagem vista em todo mundo.

O seu paradeiro, assim como a sua identidade, ainda são mistérios até hoje, 29 anos depois.

Naquele ano, marcado também pela queda do muro que separou a Alemanha em duas por longos 28 anos, o menino que eu fui fez, aos 8 anos, a sua primeira cobertura eleitoral. Era um trabalho escolar, na disciplina de Estudos Sociais. Depois de um hiato de 29 anos, os brasileiros voltariam a votar para presidente. Com um caderno nas mãos, lembro-me de que eu percorri a pé, sozinho, comitês de candidatos, então espalhados pela Taubaté da minha infância. Imagens esparsas, que resistem à memória fraca, dizem que havia uma muvuca, jingles e distribuição de santinhos, além adesivos e camisas dos candidatos. Ah, e muitas promessas.

Vinte e nove anos depois, era o momento do eleitor reencontrar-se com a democracia. Depois do término do nefasto período ditatorial, em que liberdades haviam sido cassadas e pessoas caçadas, perseguidas, torturadas e mortas brutalmente, era tempo de crise econômica e descontentamento profundo e crescente com a política — o Congresso e o presidente José Sarney, do MDB, tinham alto índice de rejeição no país.

Agora, para minha surpresa, 29 anos depois, o menino que eu fui bateu à porta da minha consciência. Depois de ver, em 1989, mais um capítulo da trama ‘O salvador da pátria’, o garoto me procurou por essas bandas, de 2018, e com uma expressão pra lá de confusa pediu-me para entrar. Nem bem adentrou a sala dos meus pensamentos, já falou pelos cotovelos a respeito daqueles acontecimentos decisivos de 1989.

De um lado da disputa eleitoral, ele dizia, havia um candidato de um partido nanico, que prometia caçar marajás e livrar o Brasil da ameaça comunista. Do outro, um homem chamado Lula, que dizia a todos ser diferente dos demais, porém que os adversários diziam estar preso a uma companheirada que poderia dar PT no Brasil.

Tentei explicar ao menino que fui que, como a história mostrará a ele, salvador da pátria só mesmo na novela. E que, 29 anos depois, ao invés de derrubar muros e erguer pontes, o Brasil está dividido. E o rebelde desconhecido? A luta contra o autoritarismo segue imprescindível. Nos despedimos com um abraço. Antes de ir, ele então me perguntou: quando é que o futuro vem?.