O ‘7 a 1’ nosso de cada dia

Fora das quatro linhas, o Brasil deu vexame na Copa do Mundo. O 7 a 1 da vez não é culpa de Neymar, Tite, Paulinho, Thiago Silva, Marcelo, Alisson e companhia, que seguem fortes na luta pelo hexacampeonato, como um dos favoritos no Mundial, apesar da estreia bem decepcionante frente ao escrete suíço. Mas quem são os vilões da vez? Eles vestem a camisa do preconceito, machismo, discriminação e outros sentimentos que já deveriam ter recebido o cartão vermelho faz muito, mas muito tempo. Um dos lances mais comentados da Copa até o momento é um vídeo filmado por brasileiros com uma jornalista russa, assediada pelos torcedores. Nas imagens, eles aparecem ridicularizando a moça que parece não compreender o sentido das frases ofensivas gritadas, em coro e em português. O caso (ou melhor, a agressão), assim como outros similares, provocou revolta nas redes sociais — apesar de ter ainda quem tenha saído em defesa dos torcedores, com o argumento de que era só ‘brincadeira’.

O MPF (Ministério Público Federal) instaurou inquérito criminal para apurar se os brasileiros filmados assediando a mulher cometeram crime de injúria.

Requisitadas com rito de urgência e prioridade, as investigações vão permitir a identificação dos envolvidos neste episódio. Para a Procuradoria da República no Distrito Federal, a conduta dos brasileiros ofendeu a dignidade da mulher ainda não identificada, expondo-a à humilhação pública por meio de um comportamento “nitidamente machista e discriminatório”.

A investigação foi aberta tendo como base a Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher, que define o comportamento preconceituoso contra as mulheres. O Brasil e demais signatários do acordo devem observar e zelar pelos direitos humanos e liberdades fundamentais em igualdade de condições entre homens e mulheres.

Os ministérios do Turismo e do Esporte se apressaram em condenar o comportamento dos brasileiros. Na Rússia, o ministro do Esporte, Leandro Cruz da Silva, disse que a atitude dos brasileiros filmados ridicularizando a moça envergonharam todo o Brasil, desdenhando da receptividade da população russa.

O comportamento dos torcedores foi condenável. E eles devem ser punidos. Mas fica uma pergunta: quem os escalou? Aqueles torcedores são parte de um Brasil ainda machista e discriminatório. É preciso, de uma vez por todas, dar um cartão vermelho para o preconceito..

 

Qual a nota da Seleção?

Brasil x Suíça pelo primeiro jogo da Copa do Mundo 2018. Lucas Figueiredo/CBF

Alisson (5): Poderia ter saído no lance do gol suíço.

Danilo (4): Tímido no apoio. Seleção perde muito sem Daniel Alves, ficando capenga, priorizando exageradamente o lado esquerdo.

Thiago Silva (6,5): Melhor que seu companheiro de zaga, atuação segura. No primeiro tempo quase marcou o segundo gol brasileiro.

Miranda (4): Mal posicionado, apesar do empurrão de Zuber.

Marcelo (6): Sobrecarregado. Ficou praticamente com a obrigação de organizar as jogadas da Seleção.

Casemiro (7): Melhor jogador brasileiro. Saiu após levar cartão amarelo, com a equipe brasileira sentindo muito a sua ausência.

Willian (5,5): Sem companhia pelo lado direito. Arriscou e tentou criar situações, mas não esteve inspirado.

Paulinho (5): Quase abriu o placar em uma bobeada da defesa suíça, infiltrando-se, como é sua característica. Caiu muito no segundo tempo e saiu para a entrada de Renato Augusto.

Coutinho (6,5): Brasileiro mais lúcido no terço final do campo, apesar da queda de rendimento na segunda etapa. Fez belo gol em uma jogada característica. Perdeu, no entanto, uma boa chance depois.

Neymar (5,5): Visivelmente abaixo da condição física, sem ritmo de jogo. Não se escondeu, mas sofreu com a forte (e por vezes faltosa) marcação da Suíça. Mostrou-se irritadiço.

Gabriel Jesus (4,5): Atuação fraca do atacante do Manchester City, artilheiro da era Tite. Ficou devendo.

* Substituições
Fernandinho (5): entrou no lugar de Casemiro, com atuação discreta. Ainda arriscou chute de fora da área, mas com deficiência.

Renato Augusto (5,5): no lugar de Paulinho, entrou para melhorar o toque de bola, articular jogadas, e retomar o domínio no meio-de-campo. Melhorou a chegada ao campo suíço.

Firmino (5): Entrou no fim e teve uma ocasião de gol, mas falhou na definição.

Tite (5): Seleção sentiu o gol suíço, ficando atordoada em parte do segundo tempo. Substituições no estilo ‘seis por meia dúzia’ não surtiram efeito.

Silêncio de ensurdecer o Maracanã

Dia 18 de outubro de 1964.

O Maracanã, o maior templo do futebol, está pintado de Fla-Flu. A bola desfila pelo tapete verde à procura das chuteiras imortais, deixando hipnotizados os 136.606 torcedores apaixonados. Por 90 minutos, o Rio para. Ainda no primeiro tempo, após passe pelo meio da zaga, Ubiracy recebe e empurra para a rede rubro-negra: 1 a 0 para o Flu. Festa pó de arroz.

Gol! Literalmente, gol de cinema, de Canal 100. Aos 22 anos, o jovem negro calava o Maracanã. “O silêncio da torcida do Flamengo no gol de Ubiracy foi mais ensurdecedor do que a comemoração da torcida tricolor”, escreveu na época Nélson Rodrigues, fanático torcedor do time das Laranjeiras. Com o gol, Ubiracy foi alçado instantaneamente aos status de herói. Ao olimpo. Ao Panteão da bola.

O Flu, embalado, seguiu rumo ao título carioca, com um timecheio de craques, como Carlos Alberto Torres e Didi. Era tempo de fama. Calar o maior estádio do mundo parecia ser a especialidade do jovem atacante. Um ano antes, na partida final do torneio de aspirantes, fez o gol do título contra os flamenguistas, diante de 177 mil torcedores ensandecidos.

Mineiro de Leopoldina, Ubiracy, em seus tempos de glória, conseguiu ofuscar até mesmo o rei, outro filho de Minas Gerais, nascido em Três Corações.

“O público veio ver Pelé, mas viu Ubiracy”, dizia a manchete do jornal após a vitória de 4 a 2 do Fluminense sobre o Santos no Pacaembu pelo Torneio Rio-SãoPaulo de 63. Aquela noite, fez dois gols. Na sequência da carreira, o atleta atuou ainda por equipes do México, onde se tornou ídolo, e Equador. Tempo em que futebol era paixão.

“A gente jogava por amor”, dizia Ubiracy. Mas a fama passou rápido. E 45 anos após ser aplaudido no Maracanã, ele, hoje, vive em silêncio. Aos 66 anos, Ubiracy quase não sai de sua casa, localizada no Parque Três Marias, periferia de Taubaté. Vive com o dinheiro da aposentadoria: cerca de R$ 460. Não conta as suas histórias para os vizinhos, com medo de que pensem que está fantasiando. “Aqui, ninguém me conhece, quando está no auge, tem aplausos, depois, ninguém se lembra de você”, contava. Para aquietar a saudade, lê velhos recortes de jornal.

A memória, seu bem mais valioso, está ameaçada. Em 2009, médicos diagnosticaram que Ubiracy sofre de mal de Alzhei- mer. Às vezes, quando a saudade apertar o peito, senta-se no quintal, só, com os recortes à mão. Por alguns instantes, volta aos tempos de glória. Parece ouvir o coro de 150 mil almas.

Depois, retorna ao presente.

O diagnóstico abateu Ubiracy. Crê que resta-lhe apenas aguardar o tempo passar, até o apito final. Esperar pelo seu minuto de silêncio. Um silêncio capaz de ensurdecer o Maracanã.

** Em tempo: texto publicado no livro Cartas Perdidas em um Mar de Palavras, de 2015. Em maio daquele ano, pouco depois do lançamento, Ubiracy saiu de campo definitivamente. Não houve minuto de silêncio no Maracanã.

Vai ter Copa? ‘7 a 1’ político e o futebol

O ‘7 a 1’ político, disputado no dividido, esburacado e enlameado campo brasileiro, entrou de sola, com todas as travas da chuteira, nas canelas de uma paixão nacional: o futebol. O país do futebol, pentacampeão do mundo, está fracionado também nas arquibancadas do esporte bretão, da mesma maneira que apresenta-se dividido nas arenas do Fla-Flu político. A Copa do Mundo de 2018, disputada na Rússia, terá início nesta quinta-feira e aqui, na terra de Pelé, Ronaldo, Zico e companhia, boa parte da população, simplesmente, não liga a mínima. Zero. Ou melhor: 0 a 0. O interesse do brasileiro em relação ao Mundial foi chutado para a bandeirinha de escanteio. É o que revela pesquisa divulgada pelo Datafolha nesta terça-feira: 53% da população não estão preocupados com o maior evento esportivo do mundo, mesmo com a equipe comandada por Tite e Neymar estando entre as favoritas para a conquista.

Afinal, vai ter Copa?

Em meio à profunda crise moral, ética e política que tanto assola o Brasil, deixando estatelada no chão a esperança como se ela fosse só mais um João para o endiabrado Mané Garrincha, o anjo das pernas tortas, uma descrença geral toma conta de parcela considerável da população.

A corrupção, para os ‘torcedores’ desta ala brasileira, deu um cartão vermelho na paixão pelo jogo. E vale lembrar, a corrupção que assola os ambientes políticos e o mundo da bola, como o Fifagate e a CBF deixam bem claro. “O meu desinteresse pela Copa é por vários motivos e um deles é a corrupção. Em todo o lugar que você está, a corrupção está entrelaçada em tudo, principalmente no futebol. É uma coisa que você vai se chateando”, disse o estudante Tiago Franck, de 25 anos.

O uso da camisa verde e amarela da Seleção em manifestações, além da absoluta certeza de que ‘há outras prioridades’, agrava essa crise com o torcedor. Tantas vezes usado politicamente, o futebol agora parece estar sofrendo por tabela.

É justo, porém, que a seleção de corruptos, além de sugar os cofres públicos, ainda roube do brasileiro uma de suas paixões, uma parte tão integrante de sua cultura?

Essa partida, entre o 7 a 1 político e a paixão pela Seleção, é travada no peito de cada brasileiro. Quem ganhará?

Certo é, no dia em que o brasileiro cobrar de seus políticos da forma que exige de seus craques, a corrupção certamente vai pendurar as chuteiras.