Emenda pior do que o soneto

Ao receber um soneto escrito por um jovem aspirante a escritor, o poeta português Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) acertou com ele que indicaria com pequenas cruzes os erros encontrados naquele conjunto pueril de versos lusitanos. Só que, diante da infinidade de erros encontrados no texto, o já consagrado e popular trovador decidiu devolver o poema sem uma única correção, nenhumazinha sequer, para a incredulidade do mancebo. E Bocage justificou: seriam tantas, mas tantas cruzes que a emenda sairia pior do que o soneto.

A expressão tornou-se conhecida. Séculos mais tarde, ela ajuda a explicar a reforma administrativa protocolada no Poder Legislativo de São José. O projeto, que nasce depois de forte pressão do Ministério Público e TCE (Tribunal de Contas do Estado), dispõe sobre a estrutura administrativa da Câmara. A proposta, que foi protocolada nesta quarta-feira, prevê corte de 65 cargos de confiança, no entanto cria 49 de livre nomeação, além de mais 15 efetivos e 15 funções de confiança.

Segundo o projeto, essa reforma economizaria R$ 4.546.496,61 esse ano e R$ 9.578.691,81 no ano que vem, com o corte desses 65 cargos. Porém, a criação dos novos cargos e funções de confiança pode gerar um gasto extra de R$ 5.303.418,35 esse ano e de R$ 11.130.191,92 em 2019.

Traduzindo: ao invés de resultar em uma economia, a reforma representaria gasto extra de R$ 756.921,74 esse ano e de R$ 1.551.500,11 em 2019.

E não para por aí.

Em um projeto paralelo, também protocolado nesta última quarta-feira, a Câmara quer que os servidores do Poder Legislativo de São José também tenham o gatilho salarial, como ocorre atualmente com funcionários da prefeitura. O gatilho é disparado toda vez que a inflação acumulada atinge o índice de 5%, é pago a servidores públicos, aposentados e pensionistas.

Acabou? Não, ainda tem mais.

Aproveitando-se do feriado de Páscoa, quando a atenção à Casa é reduzida, parlamentares estão se preparando para apresentar, de última hora (no já tradicional estilo vapt-vupt, tramado sempre ali na surdina), uma emenda à reforma administrativa, tendo um único objetivo: aumentar os salário de seus assessores.

Bocage, em sua obra, certa vez escreveu sobre a ambição.

‘Aquele canta e ri; não se embaraça. Com essas coisas vãs que o mundo adora. Este (oh, cega ambição!) mil vezes chora. Porque não acha bem que o satisfaça’.

É certo dizer que o velho poeta, ao analisar a reforma da Câmara, cravaria: essa emenda saiu pior, muito pior, do que o soneto.

Jogada na Câmara: drible no eleitor

E lá vem eles de novo, lá vem eles, chegaram de novo, virou passeio, olha que absurdo! É mais um gol da Alemanha. No dia em que o torcedor brasileiro, ansioso pelo início da Copa do Mundo da Rússia, vive a expectativa do reencontro entre a Seleção Brasileira e a equipe alemã, atual campeã e responsável pela mais vergonhosa derrota já imposta ao time verde e amarelo, o editorial de hoje refere-se a um outro jogo, disputado longe dos holofotes de um estádio de futebol, mas onde o placar parece estacionado em um eterno 7 a 1. E a jogada da vez está sendo tramada na surdina dentro da Câmara de São José dos Campos, esse já costumeiro palco de caneladas de representantes do Poder Legislativo. A Casa, já conhecida pelas aprovações de aumento para secretários, criação de cargos no estilo vapt-vupt, entre outras medidas pouco populares, assiste o movimento de um grupo formado por parlamentares que quer dar um chapéu nos eleitores e ampliar a verba de seus gabinetes. Querem ainda mais dinheiro?

A proposta, que divide a Câmara, prevê garantir aumento salarial para assessores lotados nos gabinetes, fintando assim toda a economia prevista no acordo firmado com o TCE (Tribunal de Contas do Estado). Atualmente, a cada sessão ordinária, o Legislativo paga o adicional de 20% do salário para os sete assessores de cada parlamentar. A partir do dia 2 de abril (por determinação do TCE, que apontou excedente), três deles terão esse benefício cortado. Com a nova jogada, que já está no forno da Casa, um grupo apresentaria então uma emenda ao novo projeto de reforma administrativa, aumentando o salário desses três assessores de cada gabinete, passando de R$ 3.300 para R$ 3.900 — zerando a economia prevista.

A reportagem de OVALE apurou que os vereadores buscam entendimento para que todos assinem e o projeto seja aprovado por unanimidade, naquele estilo vapt-vupt, tão lamentável.

A jogada, no entanto, esbarrou em uma bola dividida: a eleição. Afinal, há parlamentares de olho na dura disputa que será travada nas urnas, em outubro. Eles vão subir ao campo para tentar uma troca de posição: sai o vereador e vira deputado. Mas, obviamente, para isso, não é aconselhado apoiar medidas impopulares.

Por isso, a proposta indecente encontra garida no grupelho que não lançará candidatura. Ou seja, na panelinha que não precisa jogar para a torcida.

OVALE, a exemplo do ocorrido ao longo de toda a sua história, mantém-se atento às jogadas armadas no campo político, feito zagueiro pronto a defender o interesse público, cumprindo o seu papel. Que é fazer jogo duro.

Por isso, é preciso que o eleitor mantenha-se vigilante, como os arqueiros que não deixam passar nada em sua meta.

‘Lá vem eles de novo’. A jogada está sendo tramada. Querem dar um drible, um chapéu no eleitor e, com uma caneta, aplicar aquele já tradicional olé dos políticos na opinião pública. Vale lembrar: o eleitor é o técnico e juiz da partida. Segura nas mãos os cartões amarelo e vermelho. E mais: em outubro, terá a bola nos pés.

 

Quando foi que atiramos a primeira pedra?

Curtir ou descurtir?

Polegar voltado para cima ou para baixo? Absolvição ou condenação? Vida ou morte? Nesta enorme @rena romana com Wi-fi, em que o mouse transforma-se em malhete, é difícil responder a essas perguntas, enquanto a turba grita por mais violência, pelo descontrolado derrame de sangue alheio já curtido de SOLidão — tudo isso, claro, flagrado em tempo real pelas telas do smartphone e transmitido pelo Facebook, ao vivo. E tudo, obviamente, em nome dos bons e velhos costumes, da defesa dos pilares do anfiteatro da hipocrisia. E se der para postar uma selfie, caprichando no filtro para afastar a realidade e atrair ‘likes’, com esta arena superlotada ao fundo, melhor ainda.

Sentados em seus tronos, feitos de ouro com um brilho sintético, os césares modernos se empanturram desfrutando deste delicioso banquete oferecido pela natureza humana, embriagando-se do choro de seus vizinhos — por quem já não sentem compaixão. ‘Só ri da cicatriz o que jamais foi ferido’, escreveu William Shakespeare na trágica história de Romeu e Julieta.

Cada vez mais desumanizados e estéreis de empatia, os césares conectados torcem avidamente pelo tropeço, para que a queda renda um bom vídeo, um meme daqueles capaz de viralizar.

E neste tão barulhento tribunal, todos vestem toga. Preenchem o corpo meio vazio, com o copo meio cheio de seu próprio veneno. Alimentam-se da vida alheia, para aplacar o vazio que preenche o espaço.

Estão a salvo.

‘Quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las‘, dizia Madre Teresa de Calcutá. No entanto, nas arenas mais próximas de você, esse discurso já parece estar fora de moda, é tipo um celular do ano passado. Ou Orkut.

Afinal, o tempo é curto.

E nessa imensa biblioteca parece que só há espaço para as orelhas de livros. Há muito verniz, filtro na foto que traduz uma felicidade fictícia e teatral, que é encenada pelo personagem que criamos de nossa própria humanidade. Ser ou não ser?

Que tolice, senhor Hamlet.

Parecer ou não parecer, eis a questão, pobre príncipe.

“Nós vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus”, sentenciou o jornalista uruguaio Eduardo Galeano, que era também um genial escritor, apesar de não ter sido um youtuber.

Neste palácio da Justiça, não há trégua: bate-se na outra face e repetidamente.

A areia desta arena é banhada diariamente pelo sangue jovem de tantos iguais que digladiam-se devido à preferência política ou ideológica, por conta da cor da pele, classe social, opção sexual ou religiosa.

Sim, disso todos nós, bombardeados que somos diariamente por setas de um mouse lançado pelos césares modernos, já sabemos. De cor e salteado.

Mas ainda tenho uma dúvida: afinal, quando foi que atiramos a primeira pedra?

São as águas de março

É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um pouco sozinho, é um caco de vidro, é a vida, é o sol, é a noite, é a morte, é o laço, é o anzol, é peroba do campo, é o nó da madeira, Caingá, candeia, é o Matinta Pereira, é madeira de vento, tombo na ribanceira, é mistério profundo, é o queira ou não queira. É o vento ventado, é o fim da ladeira, é a viga, é o vão, festa da cumeeira, é a chuva chovendo, é conversa ribeira. Das águas de março, é o fim da canseira, é o pé, é o chão, é a marcha estradeira, passarinho na mão, pedra de atiradeira. É uma ave no céu, é uma ave no chão. É um regato, é uma fonte, é um pedaço de chão.

Nesta quinta-feira, Dia Mundial da Água, é o clássico ‘Águas de Março’ que dá — literalmente — o tom (à la Jobim) do editorial de OVALE, que trata da política que se desenrola neste nosso pedaço de chão chamado Brasil, castigado e surrado por tantos escândalos, com o rosto enlameado dos brasileiros — que já se preparam para escolher seus governantes — pintado de desesperança. Após o Brasil atingir o fundo do poço, com a classe política escavando profundamente as entranhas das mais altas esferas do poder atrás de mais ‘propina ambidestra’, os eleitores se deparam com o futuro incerto diante das urnas.

‘É o fundo do poço, é o fim do caminho. No rosto, o desgosto, é um pouco sozinho’, dizia trecho da música de Jobim.

Com o ex-presidente Lula (PT), que lidera as pesquisas, praticamente fora da briga pelo Palácio do Planalto (por ter sido condenado em segunda instância por órgão colegiado, enquadrado na lei da ‘ficha suja’), a disputa está indefinida. E, com esse crescente vácuo, até mesmo o presidente Michel Temer (MDB), depois de garantir que não concorreria à reeleição, se coloca com ‘provável’ postulante, mesmo estando com lama (muita lama) até o pescoço e uma taxa de rejeição recorde. Na maior cara lavada.

Não à toa, esta semana ele disse que o crescimento sustentável depende do acesso à água. Seria para lavar tanta sujeira?

O nome escolhido pelo PSDB, o governador Geraldo Alckmin é outro que busca pavimentar sua chegada ao poder, mas encontra, até aqui, sérias dificuldades para decolar, aparecendo nas pesquisas atrás de Jair Bolsonaro (PSL). Será que, após deixar para trás a concorrência interna, o governador dará ‘com os burros n’água’, no sonho de ser presidente?

E, já falando em água, o tucano ainda viu sua principal vitrine no setor hídrico — a interligação do rio Paraíba, da represa do Jaguari, no reservatório da RMVale, para a represa de Atibainha, no sistema Cantareira — ser suspensa nesta quarta-feira pela Justiça, após ação da Prefeitura de Igaratá. E o que esperar do futuro?

‘É o projeto da casa, é o corpo na cama. É o carro enguiçado, é a lama, é a lama.’ Brasília, esse já velho carro enguiçado, se prepara para trocar de motorista. E quem conduzirá o país a direção? Difícil dizer, já que muita água ainda vai passar por debaixo dessa ponte.

Espera-se, porém, que seja um divisor de águas. E que o Brasil, afinal, seja passado a limpo.

Você é contra os Direitos Humanos?

A morte brutal da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, ocorrida no Rio de Janeiro na noite da última quarta-feira, reacendeu o debate sobre a defesa dos direitos humanos. Turbinada por uma avalanche de fake news, além desta crescente, inaceitável, nefasta, preconceituosa e injustificável intolerância que transforma o Brasil em um triste Fla-Flu, a discussão atingiu níveis grotestos nas redes sociais, ao ponto da morte da parlamentar ser comemorada, com a justificativa mentirosa, rasa e estéril de que Marielle ‘defendia bandidos’. Após ser assassinada, com quatro tiros na cabeça, a parlamentar sofreu uma nova tentativa de homicídio, desta vez contra a sua memória — tendo as fakes news como arma. Tema central da discussão, o que são afinal os direitos humanos?

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 1948 pela ONU (Organização das Nações Unidas), foi criada quatro anos após o fim da sangrenta Segunda Guerra Mundial, evento que tanto marcou tragicamente a história humana, graças às terríveis, diabólicas, assombrosas e nefastas atrocidades praticadas contra milhões de vítimas. Qual o objetivo? Evitar que a humanidade fosse novamente colocada, violentamente, de joelhos perante a tirania do homem.

Mas o que diz a Declaração?

Todo homem tem direito à vida e à liberdade, à segurança. Todos os seres humanos nascem livres e iguais, sem qualquer distinção de raça, religião, cor, sexo, posição política, origem nacional ou social. Ninguém pode ser mantido sob regime de escravidão ou servidão. Nenhum homem deve ser submetido à tortura.

Todos são iguais perante a lei e são inocentes até que se prove o contrário. Todos têm direito a ter um julgamento justo, imparcial e independente. Ninguém poderá, em nenhuma hipótese, ser preso, detido ou exilado arbitrariamente. Ninguém deverá sofrer intromissões arbitrárias em sua vida.Todos têm direito de ir e vir.

Homens e mulheres têm direito de casar e constituir família, sem distinção de raça, cor, religião ou nacionalidade (é obrigatório que haja consentimento dos noivos). Toda pessoa tem o direito à propriedade e ainda a participar das decisões sobre o seu país. Todos devem ter acesso ao serviços públicos, de maneira igual.

A vontade do povo é o fundamento da autoridade dos poderes públicos: e deve exprimir-se através de eleições honestas a realizar periodicamente por sufrágio universal e igual, com voto secreto ou segundo processo equivalente que salvaguarde a liberdade de voto. Toda pessoa tem direito ao trabalho…

Estes são alguns dos direitos humanos. Segundo a ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos já foi traduzida para mais de 400 idiomas.

E ainda há quem não entenda?

Sim. E isso só prova que vivemos nós em um mundo cada vez mais e mais desumanizado, onde o discurso de ódio avança, alimentando-se da ignorância e do preconceito. E que há uma parcela, infelizmente, crescente da nossa sociedade que só entende uma língua: a da intolerância.

Quem vai lavar as mãos?

Foto: Claudio Vieira/PMSJC.

Lavou as mãos. Indiferente ao clamor popular, o prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB), decidiu dar de ombros, sem a menor cerimônia, e lavou as mãos em relação à polêmica em torno do bosque da avenida Tívoli, área verde que reúne centenas de árvores e animais raros, alguns deles até ameaçados de extinção, e está frontalmente ameaçada. Em entrevista concedida a OVALE, o tucano afirmou que não há dinheiro para adquirir o terreno de 8,5 mil metros quadrados hoje pertencente à construtora Marcondes Cesar, que planeja construir um estacionamento no local, com capacidade para 172 veículos. A derrubada dessas 430 árvores raras, um oásis verde em um centro entorpecido de cinza, está suspensa por uma liminar — uma frágil decisão judicial, frágil como a vida dos animais ameaçados neste bosque da Vila Betânia. Que animal sobreviverá?

Na avaliação de Felicio, porém, o papel do governo já está esgotado em relação ao bosque. ‘No ponto de vista legal, tudo que for de responsabilidade da prefeitura será feito, mas no ponto de vista orçamentário é importante que haja um planejamento dos investimentos da cidade. Talvez no futuro sim, mas no momento não existe recursos nem previsão orçamentária para a compra’, afirmou Felicio, que já está sendo criticado, principalmente nas redes sociais, por ter adotado a cômoda postura de ‘Poncio Pilatos’, confortavelmente lavando as mãos. Optou pelo muro.

‘Mas tem verba para aumentar os salários dos secretários?’, postou um internauta.

Nos corredores do Paço, a queixa é de que o PT, que hoje cobra a preservação do bosque, no ano de 2015 era governo e então planejava autorizar, com a mudança no Zoneamento, a construção de prédios na área. Mas, e daí? Afinal, o que está em jogo? A eterna queda-de-braço entre os partidos PT e PSDB? Não, o caso do bosque da Vila Betânia é muito mais do que isso. Maior, muito maior até do que as 430 árvores ameaçadas. São José precisará decidir — urgentemente — qual conceito de progresso e desenvolvimento desenhará as linhas do futuro.

Mais um estéril estacionamento ou, como clama a sociedade de São José, a preservação desta área verde no centro da cidade?

Caso o bosque seja aniquilado e derrubado, já há quem diga que apenas um dos animais sobreviverá. É o jabuti, que habita as emendas pontuais que parlamentares tentam fazer passar despercebido. Há um jabuti nesse bosque, só esperando uma alteração no zoneamento para surgir? Ou então uma jabuticabeira, repleta de jabuticabas políticas? O tempo dirá. Hoje, é fato: São José, neste momento crucial, só não pode lavar as mãos.

Urupês, a velha praga

Orelha de pau, fungo, pironga. Estes são alguns sinônimos de ‘Urupês’, espécie de cogumelo parasita que batiza uma das obras-primas do escritor Monteiro Lobato (1882 -1948), que foi lançada cem anos atrás, marcando a aparição do personagem Jeca Tatu, simbolização do caipira valeparaibano nas primeiras décadas do século passado. No livro, que representa um marco literário (inaugura um regionalismo crítico e realista, em contraponto à visão idealizada dos nativos tupiniquins, tão presente no romantismo), há uma crítica feroz ao caboclo, que é apontado pelo escritor como o parasita, um ‘fazedor de desertos’, que atravancava o desenvolvimento do Brasil. Era, então, uma velha praga — nome de um dos 14 contos do livro centenário.

Urupês é também o nome dado à operação deflagrada ontem em conjunto pelo Ministério Público e Corregedoria para a captura de 19 policiais militares envolvidos com uma organização criminosa na RMVale, a região mais violenta do estado, que tinha participação no tráfico de entorpecentes e em assassinatos. A maioria das prisões aconteceu na região de Taubaté, cidade natal de Lobato.

Se no início do século passado, em Urupês, o genial escritor acusava o caipira de ser um parasita que atrapalhava o Brasil, opinião que ele mais tarde reformaria ao declarar que o Jeca era uma ‘vítima’ de um país subdesenvolvido e fazer dele símbolo da brasilidade, hoje ele escolheria outro alvo para a sua obra: a corrupção.

Esta sim trata-se de um parasita nefasto que, feito traça, corrompe as entranhas do país.

É uma velha praga.

Tanto que, em 1923, o escritor, ainda atual, publicou o conto de nome ‘Um homem honesto’, que integra o livro ‘O macaco que se faz homem’. Nele, Lobato narra, com maestria, a história de João Pereira, dedicado funcionário de uma repartição pública. Honestíssimo, casou-se bem cedo e estava havia 10 anos no emprego — e sem, porém, sair do lugar, para desespero da mulher e das duas filhas, que queriam poder contar com as benesses que o dinheiro é capaz de comprar. ‘Quero ser promovido pelo merecimento’, dizia ele, ao refutar qualquer outro expediente, como bajular seu chefe, usado pelos colegas.

Um dia, durante uma viagem de trem, João achou um pacote, com dinheiro vivo. Uma bolada! E entregou aquela fortuna para o funcionário da companhia, para espanto geral. Deu até no jornal. Mas, passado o período de glória e tapinhas nas costas, a família e os amigos passaram a questionar a nobre atitude de João. ‘Você foi precipitado. Não devia ter tanta pressa em entregar o pacote’, critiva Maricota, sua esposa.

Na repartição, ele era ridicularizado. ‘Se acha superior’, dizia um colega. E a vida de João tornou-se infernal, a ponto de ser apelidado de ‘João Trouxa’. E a ponto de atirar contra si mesmo, pondo fim ao ‘último homem honesto’.

Se em Urupês o caboclo vestia a carapuça de velha praga, hoje sem dúvida ela é a corrupção.

E assim como no caso do Jeca, que mais tarde foi transformado em símbolo da luta pelo saneamento básico, o país precisa é de saneamento. Moral e político.

No meio do caminho havia um bosque

No meio do caminho havia um bosque. Havia um bosque no meio do caminho. Tinha um bosque. No meio do caminho tinha um bosque. Nunca se esquecerão desse acontecimento. Na vida de retinas tão fatigadas, nunca se esquecerão que no meio do caminho tinha um bosque. Tinha um bosque no meio do caminho. No meio do caminho tinha um bosque. E agora, (São) José? A festa acabou, a luz apagou, o povo se uniu,a noite esfriou, e agora, (São) José? No meio do caminho tinha um bosque. Tinha um bosque no meio do caminho. E agora, São José dos Campos? E agora?

No meio do bosque, localizado em uma área com 8,5 mil metros quadrados na avenida Tívoli, há 274 árvores nativas e156 árvores exóticas, além da fauna rica, com animais raros, incluindo alguns com risco de extinção — graças à ganância sem limites do homem. É, portanto, uma importante reserva verde incrustada nesse acizentado ‘coração’ bombeado de asfalto e cimento que pulsa em São José.

No meio do caminho, no entanto, há intenção de derrubar essa reserva verde para a construção de um estacionamento com a capacidade para 172 carros, onde a flora e a fauna não terão vaga.

E, vale perguntar, onde está a capacidade de enxergar a importância que o bosque tem para os joseenses? As árvores, com uma inacreditável anuência da Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), que ainda tem que ser melhor explicada, começaram a ser cortadas no dia 26 de fevereiro, porém a ação foi suspensa no início de março.

No meio do bosque, os moradores da Vila Betânia estão lutando pela preservação da área verde e pelo fim do empreendimento da construtora Marcondes Cesar. E eles, ganhando a adesão de toda a cidade, estão sendo ouvidos — e em alto e bom som. Nas redes sociais, por exemplo, o prefeito Felicio Ramuth (PSDB) tem sido questionado por internautas sobre o corte das árvores na Tívoli.

“A prefeitura, dentro do que for permitido, fará a sua parte, a fim de preservar a área”, respondeu o chefe do Executivo.

No meio do caminho, há a briga pela preservação da área verde — uma briga de toda a cidade. Não é deste ou daquele partido, muito pelo contrário. É de todos. Na bifurcação que se apresenta diante de São José, há dois caminhos: o do estacionamento, que é digno de quem está parado no tempo (esse é o conceito de progresso?); e o que crê ser possível crescer com qualidade de vida.

Há um bosque no meio do caminho. E agora, São José?

Você marcha, São José! São José, (marcha) para onde?

* Reprodução do editorial publicado nesta quarta-feira em OVALE.

Lado a lado nas arquibancadas

 

O senhor pode ser meu pai? Esta era a senha que dava início aos nossos domingos de futebol. Diante do Joaquinzão, meu irmão Julio e eu queríamos ver o nosso Taubaté em campo. Mas para isso a gente tinha que conseguir driblar o sistema de segurança, formado por uns quatro brutamontes, para entrar no estádio.

E esta não era tarefa das mais fáceis. Morávamos bem pertinho dali, no Bom Conselho. Tínhamos entre 8 e 9 anos e caminhávamos até o ‘Sport’ — apressando os passos sempre que ouvíamos o barulho dos fogos do Seu Maciel, que anunciavam que o Burro da Central estava entrando no gramado.

Chegando ao Joaquinzão, depois de uns 10 minutos de caminhada, começava a luta para conseguir ver o jogo. E para isso precisávamos recrutar um ‘pai ou responsável’ — criança entrava de graça, desde que acompanhada por um adulto.  Morávamos com a nossa mãe, que não é lá muito fã de futebol, e nosso pai morava em São José dos Campos. Por isso, a gente tinha que dar um jeito.

E com uma baita cara-de-pau, nós dois perguntávamos ao primeiro adulto que passava: o senhor pode fingir que é meu pai? Explicávamos o porquê e, quando dava certo, era só passar pelo portão de entrada do velho estádio. Depois, agradecíamos a ajuda providencial do pai postiço e íamos curtir a peleja!

E ali, na arquibancada de cimento do bom e velho Joaquinzão, Julio e eu tomamos muita chuva, sol na cabeça, comemos pipoca e peruá, tomamos sorvete de palito e refrigerantes, comemoramos muitos gols e sofremos outros tantos. Sempre lado a lado.

Não sei quando foi que o Julio chegou lá em casa, em um dia 11 de março. Eu tinha só um ano e pouco, deveria estar no maior sono. Marina, minha irmã mais velha, e eu provavelmente não tínhamos noção do que estava acontecendo. O fato é que agora éramos três. O que eu sei é que ele sempre pareceu estar lá. Somos ao mesmo tempo diferentes e parecidos. Talvez por termos dividido o quarto por quase toda a vida.

O quarto, os brinquedos (com destaque para os mais de 300 times de botão), roupas, amigos… é comum me chamarem de Julio, até hoje, em reuniões de família, em que eu reencontro aquele tio distante que nunca me vê.

Mas o mais estranho é que brigávamos feito cão e gato. Ele palmeirense, eu corintiano. Ele um peste, eu mais tranquilo. O engraçado é que eu e ele brigávamos muito, mas se colocassem a mão nele.. nossa senhora… devo admitir que meu cartel de brigas de rua é fraco. Devo ter umas 15 derrotas e umas 3 ou 4 vitórias. Acho que 90% dessas brigas tiveram como motivo o Julio.

Nós dois já tivemos brigas feias. Já estudamos na mesma sala, passamos por momentos incríveis — alguns felizes e outros tristes.  Comemoramos juntos, sofremos juntos. Sempre um ao lado do outro. Se Deus me desse a oportunidade de escolher um companheiro de jornada, não pensaria em um nome se não esse: Julio Codazzi da Costa. Porque, nas vitórias ou nas derrotas, sempre estivemos lado a lado. Na vida e nas arquibancadas do Joaquinzão.

A Divina Comédia do Camisa 9

Foto de Rogério Marques/ E.C. Taubaté

Céu ou inferno?

Quarenta e quatro minutos. A bola está na marca do pênalti. Mas é Flávio Carioca, camisa 9 do Taubaté, quem realmente está na marca da cal. Depois de perder chances claras nas últimas duas partidas, contra a Portuguesa e o Juventus, uma delas em uma canelada digna do ‘Bola Murcha’ do Fantástico, ele estava no centro do alvo da ira dos torcedores do Burro da Central, principalmente da turma das tribunas do estádio Joaquim de Morais Filho, o Joaquinzão. E, é bom que se diga, o centroavante não estava ajudando… Havia desperdiçado pelo menos três grandes oportunidades para abrir o marcador. E pior, fazendo valer a velha máxima ‘quem não faz toma’, o São Bernardo, líder invicto da Série A-2, tirou o zero do placar, em um cochilo da defesa alviazul aos 43 minutos, logo em sua primeira chegada.

Obviamente, isso só fez a paciência se esgotar na arquibancada. ‘Tira o Flávio Carioca!’, gritava um dos torcedores, enquanto outros faziam comentários nada elogiosos à mãe do atacante. ‘Esse cara é um ***’, esbravejavam.

Assim que o árbitro assinalou o pênalti, um minuto após o gol adversário, Flávio Carioca botou a bola debaixo do braço, colocando-a na marca. Com o Burrão atrás do placar, a torcida rezava para (quase) todos os santos – na dúvida, era melhor deixar São Bernardo de fora. Ao meu lado, duas cadeiras mais para a direita, estava a família do atacante, que rezava baixinho, com as duas mãos espalmadas. Então, o juiz apita. O camisa 9 corre e bate, empatando o jogo. Gol!

A torcida, ainda desconfiada, comemora, mas sem se esquecer dos gols perdidos. ‘É, mas se o Flávio Carioca não tivesse perdido aqueles gols…’, diziam os corneteiros de plantão. Até que veio o segundo tempo.

E o camisa 9 decidiu usar a cabeça. Literalmente. E aos 9 minutos, após cruzamento da direita, ele venceu o zagueiro (e a desconfiança da torcida) e fez o segundo. Gol! E tinha mais. Depois, aos 29, aproveitando uma cobrança de escanteio, Flávio Carioca, de cabeça. Gol! 3 a 1.

De ‘Bola Murcha’, o centroavante agora pode pedir música. E comemora apontando para sua família, torcida fiel nos bons e nos maus momentos.

Entre os torcedores, o discurso havia mudado. ‘E tem gente que critica o Flávio Carioca…’, dizia, em tom de reprovação, aquele torcedor que tinha homenageado a mãe do atacante. ‘Ele joga muito’, comentava outro.

Antes do final da partida, já sob chuva, o camisa 9 foi substituído, de alma lavada. A torcida que o criticava, agora o aplaudia de pé.

Assim como na vida, a boa fase atrai amigos, aplausos e tapinhas nas costas também no mundo da bola – que é, sem dúvida, uma divina comédia. Já a adversidade, a época de vacas magras, é que testa quem está verdadeiramente ao seu lado.

Em dia de Dante, Flávio Carioca foi até o último círculo do inferno.  Foi do inferno ao céu em menos de 90 minutos. Afinal, canelada todo mundo dá né. Na vida e no futebol. Só não pode deixar de chutar. Quem sabe uma hora a bola entra?

*  Em tempo: Flávio Carioca caiu nas graças da torcida do Taubaté. Pelo menos até a próxima rodada.