‘Saidinha’ do Gilmar Mendes

(Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Cerca de 3.000 presos devem deixar as celas do sistema prisional da RMVale, região recordista em homicídios no estado, e ir para as ruas durante o Natal, graças ao benefício da saída temporária concedido pelo Poder Judiciário. E eles vão ganhar a liberdade — enquanto os moradores da região ficam presos em casa, temendo a violência — sem possibilidade de serem monitorados, já que há uma falta de tornozeleiras eletrônicas. Um absurdo.

Em Brasília, como deixa claro o noticiário recente, o controverso ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), parece ter decidido criar a sua a própria versão da ‘saidinha’ — neste caso, beneficiando políticos e empresários envolvidos diretamente, frontalmente, em inúmeras denúncias de corrupção, com desvio de milhões, milhões, milhões e milhões de reais dos cofres públicos.

Na noite desta quarta-feira, o magistrado da Suprema Corte mandou soltar Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro acusado de corrupção, concussão, organização criminosa, entre outros crimes. Garotinho e o presidente do partido PR são acusados de receber caixa dois da JBS.

Por falar em JBS… mo último fim de semana, revistas semanais mostraram que a JBS teria relações classificadas de ‘perigosas’ com Gilmar Mendes.

Sócio-fundador do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), ele teria recebido valores de patrocínios das empresas, dentre as quais a JBS, que iam direto para sua conta bancária pessoal, segundo reportagens.

Um dia antes de soltar Garotinho, o magistrado já tinha feito o mesmo, em benefício de dois empresários presos na Operação Fratura Exposta, da PF (Polícia Federal). E, um dia antes, concedeu prisão domiciliar para Adriana Ancelmo, a esposa do ex-governador fluminense Sérgio Cabral, também preso.

Nada fora do normal quando o atuação do ministro é analisada, já que isso se repete com outros nomes, como com o empresário Jacob Barata Filho, de apelido o ‘Rei dos Ônibus’, por exemplo, de quem Gilmar Mendes foi padrinho no casamento da filha.

O magistrado — entre mandar um acusado e outro para casa — ainda teve tempo nessa semana para suspender a condução coercitiva contra investigados.

O ministro, que inclusive tem o hábito de manter íntima relação com políticos denunciados, como Michel Temer e Aécio Neves, é contra a restrição do foro privilegiado e diz que é preciso ‘corrigir os abusos nas delações premiadas’.

A Justiça que o brasileiro, tão cansado de corrupção e impunidade, anseia é diferente da Justiça de Gilmar Mendes.

 

Brasileiro está ‘P’ da vida

Foto: Alan Santos/PR

O brasileiro anda ‘P’ da vida, com perdão da expressão. É tanto escândalo que fica difícil de acompanhar, um sucede o outro e mais outro em uma velocidade vertiginosa, capaz de dar inveja até no mais veloz dos pilotos de automobilismo. Mas não é só. O brasileiro anda ‘P’ da vida, por tabela, com os sucessivos reajustes feitos no preço dos combustíveis, com os 13 milhões de desempregados e com o descaso dos serviços públicos — ele recebe insegurança, falta de educação, miséria e uma saúde na UTI em troca da alta carga triburária que lhe é cobrada. E com a Previdência? O brasileiro anda ‘P’ da vida com as mudanças propostas pelo presidente Michel Temer, que se aposentou aos 55 anos e ganhando pensão de mais de R$ 30 mil.

Trata-se de um verdadeiro — repugnante e asqueroso — mar de lama que, infelizmente, parece ainda longe do fim. Onde é o fundo do poço? A indigesta sopa de letrinhas da nossa política é o prato principal para o próximo ano, quando o eleitor brasileiro vai às urnas para escolher os seus novos representantes — votará para presidente, governador, senador, deputado federal e estadual.

E o cardápio possui dezenas e dezenas de siglas. Como exemplo, citaremos aqui só algumas das citadas nas delações da Odebrecht: PT, PSDB, PMDB, PP, DEM, PCdoB, PDT, PPS, PR, PRB, PSB, PSC, PSL, PV, SD… e há outras. Por isso é importante o eleitor ficar sempre atento, para não queimar a língua ou entornar o caldo.

Na noite desta terça-feira, na convenção nacional do partido, a sigla PMDB — tão marcada na recente e profunda crise política brasileira — decidiu tirar a letra ‘P’ do nome, virando MDB.

E será que a denúncia do ‘quadrilhão do PMDB’, em que Temer é acusado pelo Ministério Público Federal de chefiar uma organização criminosa, vai virar ‘quadrilhão do MDB’?

Fato é que outras siglas também devem adotar a prática de mudar de nome. PT do B, DEM, PEN, PP e PSL, por exemplo, já cogitam trocar os nomes para Avante, Mude, Patriota, Progressistas e Livres. E tudo de olho, é claro, no voto do eleitorado.

Infelizmente, após um violento tsunami que atingiu a classe política brasileira, pouca coisa — ou nada — mudou. Trocam-se só os nomes de quem vai sentar na cadeira, de quem vai terá caneta e o poder nas mãos, de quem vai usar a faixa. Mudar apenas a sigla é colocar pele de cordeiro sobre o dorso do lobo.

Triste para o país que esperava ansiosamente por uma nova politica. É ou não é para o brasileiro ficar ‘P’ da vida?!