A flauta que TE roubaram

No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento na minha vida de retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra.

No poema ‘No meio do Caminho’, de 1930, o mineiro Carlos Drummond de Andrade faz um alerta aos leitores: no meio do caminho tinha uma pedra. Em São José dos Campos, terra do poeta Cassiano Ricardo, o ano é 2017 e a pedra foi retirada do meio do caminho.

Ao menos a pedra fundamental colocada na década passada na avenida que possui o nome do poeta, no Jardim Aquarius, para marcar o local (onde hoje está localizada a praça Torii) em que seria construído o Memorial para homenagear o escritor e, inclusive, receber seus restos mortais — hoje mantidos na ABL (Academia Brasileira de Letras), no Rio de Janeiro.

Descansar em sua terra natal era um desejo de Cassiano.

Mas, o Memorial, projeto por Oscar Niemeyer, virou cinzas, foi esquecido, descartado, ignorado pelo poder público de São José, que optou por engavetá-lo. Seria um resquício da ignorante e equivocada afirmação de que Cassiano não gostava de sua terra natal?

‘Que dirão da minha poesia os que não tocaram meu sangue?’, questionaria, possivelmente, o poeta chileno Pablo Neruda.

O que já estava ruim, no entanto, ainda pode piorar quando a cultura é tratada (ou maltratada) como algo supérfluo, descartável. OVALE revelou, com exclusividade, que o projeto do Memorial Cassiano Ricardo foi doado pela administração Felicio Ramuth (PSDB) à prefeitura de Caçapava.

E agora (São) José?

Você marcha, (São) José.

(São) José, para onde?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind.

Querendo por uma pedra no assunto, o governo afirma que o ‘projeto é da prefeitura’ e que ‘o que aconteceu foi meramente a disponibilização de cópias dos documentos entre dois entes públicos e não a formalização da doação’.

Na cidade que fecha a Orquestra Sinfônica e doa o Memorial de seu filho mais ilustre, resta à cultura fazer uma prece cósmica. Afinal, a cultura é o caminho. A ignorância é a pedra. E agora, (São) José? O que resta? O resto é silêncio.

Era em S. José dos Campos.

O horizonte estava perto.

Tudo parecia (in) certo

admiravelmente (in) certo..

 

Achados e Perdidos

Guarda-chuvas, bolsas e celulares. Esta é, prezado leitor, a santíssima trindade desse mundo de achados e perdidos, seja nos aeroportos, shoppings, rodoviárias ou parques. Além desses objetos tão comuns, o santuário da distração humana tem ainda itens bizarros — outro dia, uma reportagem citava alguns desses exemplos, como uma cobra cascavel, uma dentadura, uma armadura medieval, violino de 300 anos, joias e até uma urna funerária.

Eu sempre fui expert na arte de perder as coisas. Posso dizer, sem ter medo de errar, que sou PhD no assunto. Distraído? Bom, certa vez meu ônibus sofreu um arrastão e eu nem vi. Estava olhando pela janela.

Nós mesmos, prezado leitor, somos um ‘achados e perdidos’ ambulante. Todos somos faróis e somos barcos à deriva. Cada escolha representa deixar algo pelo caminho e ir em busca do novo. Somos, então, uma espécie de achados e perdidos.

Clarice Linspector disse certa vez: ‘Só trabalho com achados e perdidos’. E falando nisso…

Tempos atrás encontrei dois velhos cadernos de anotações, de 2004 e 2008, que estavam lá perdidos no meu quarto. Decidi folheá-los antes de dormir e foi como voltar no tempo, revisitar diferentes fases da minha vida. Foi como vasculhar os achados e perdidos e perceber quanta coisa mudou. Paixões se perderam, heróis mudaram de rosto e bandeira e a minha caligrafia ficou muito melhor.

No primeiro caderno, encontrei muitas páginas preenchidas, com pautas de reportagens e citações, além de desenhos e palavras perdidas. Na capa, havia escrito uma frase de William Shakespeare: ‘E isto acima de tudo, ser fiel a si mesmo’.

Já o outro caderno, mais velho quatro anos, tinha o mesmo formato, a mesma capa e o conteúdo absolutamente diferente. O Guilhermo de 2008 era muito diferente do de 2004. O caderno trazia na capa uma citação do poeta chileno Pablo Neruda, que dizia: ‘E a minha voz nascerá de novo, talvez noutro tempo sem dores e nas alturas arderá de novo o meu coração ardente e estrelado’.

Mas o que havia no caderno? Nadica de nada. Nenhuma página escrita. Não achei sequer uma frase ou letra perdida.

Pelo que minha memória me conta, havia muito o que dizer. Mas o Guilhermo de 2008 preferiu deixar as páginas em branco, o que o Guilhermo de 2017 não sabe explicar. Nem o de 2004 saberia. Ele havia se encontrado? Estava perdido?

Talvez nenhum dos dois. Ou os dois, quem sabe?

Afinal, somos todos um pouco achados e perdidos, não é mesmo, meu caro Neruda?

‘Por que vou girando sem rodas e voando sem asas nem penas?

Por que minha roupa desbotada se agita como uma bandeira?

E que bandeira tremulou no espaço em que não me esqueceram?

Pois não foi onde me perderam que eu me dei, enfim, por achado?’.

Casa da Mãe Joana

(Brasília – DF, 14/11/2017) Presidente da República, Michel Temer durante reunião com Antonio Megale, Presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores – ANFAVEA e presidentes das empresas associadas.
Foto: Marcos Corrêa/PR

Lago Paranoá, Brasília (DF), CEP: 70297-400. Este é o endereço do Palácio do Jaburu, residencia oficial da vice-presidência da República, hoje ocupada por Michel Temer, chefe do Poder Executivo, que já prepara uma dança das cadeiras para acomodar interesses e tentar arrumar a casa — tão bagunçada depois de um ano turbulento na sede do poder no Brasil, com direito a duas denúncias do Ministério Público contra o presidente em exercício, por crimes como organização criminosa, entre outros.

Passada a turbulência, com o fisiológico plenário da Câmara dos Deputados matando no ninho e barrando as duas graves denúncias contra Temer, agora o Planalto começa a se reorganizar, principalmente em razão do anunciado desembarque do PSDB do governo.

Ontem, o líder do governo no Senado Federal, Romero Jucá (PMDB-RR), afirmou via Twitter que o pedido de demissão do tucano Bruno Araújo, titular da pasta de Cidades, acabou por ‘precipitar’ o debate a respeito da reforma ministerial do governo Temer.

De acordo com Jucá, aquele que chegou a ser escolhido em 2016 pelo peemedebista como ministro do Planejamento e foi afastado após ser flagrado tramando o plano de ‘estancar a sangria’, Temer deve trocar 17 de seus 28 ministros.

“A saída do ministro da Cidades precipita a discussão da reforma ministerial, tendo em vista que há ministério vago. Temer está avaliando e discutindo como vai fazer. Será uma reforma ampla, 17 ministérios vagos no prazo que o presidente determinar. Ele quem vai definir o ritmo”, publicou o senador em seu Twitter.

Sem nenhum respaldo popular, com a taxa de rejeição recorde (são apenas 3% de aprovação), Temer é o condutor de uma nau à deriva, é o condutor de um trem fora dos trilhos.

Trata-se de um governo — moral e eticamente, principalmente — que se assemelha a uma sombra, uma espécie de alma penada que assombra a democracia brasileira e toma as instituições de assalto, tentando a todo o custo, agradar (leia-se pagar a fatura) aqueles que lhe salvaram o pescoço e barrar investigações contra aliados.

Lago Paranoá, Brasília (DF), CEP: 70297-400. É o endereço da cúpula de um governo, moralmente, morto. Nas alças do caixão, as mãos de Aécios, Maias, Cunhas, Mendes, Jucás, Geddéis e Padilhas. O funeral tem o choro silencioso de carpideiras patrocinadas, pintadas de verde e amarelo. A herança? Será maldita. Temer vai trocar os nomes do governo, mas seu governo será lembrando na história com outros nomes, longe de serem elogiosos. O Jaburu é hoje a casa da mãe Joana.

 

Fiscalizando o seu voto

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Confirma. Depois de digitar o número do candidato escolhido, o eleitor pressiona o botão verde e cumpre o seu papel em mais uma etapa do jogo da jovem democracia brasileira. Mas e depois? Sim, o que vem depois — afinal, política não é feita apenas de dois em dois anos, quando há pleitos marcados em nosso país. O eleitor acompanha seus representantes? Como estão atuando os vereadores de sua cidade? Que projetos eles têm apresentado? E o prefeito, está cumprindo com as promessas que fez? Para onde os deputados estão enviando as suas emendas parlamentares?

Auxiliar o (e)leitor a ter essas e também outras respostas é a nossa missão. Por meio de um jornalismo crítico, imparcial e aprofundado, OVALE destaca diariamente em suas plataformas o melhor jornalismo produzido na região, com reportagens exclusivas, na vanguarda editoral da RMVale, pautando o debate e trazendo à luz fatos antes mantidos às sombras.

Além de oferecer ao (e)leitor a melhor cobertura política, ao apresentar reportagens como a publicada à página 3 de hoje, com o raio-x das emendas dos deputados estaduais da nossa região, há também outras ferramentas — inclusive na versão online — criadas para facilitar ao máximo o acompanhamento mais próximo dos políticos.

O principal deles é o chamado ‘Promessômetro’, link com a relação de todas as promessas feitas durante a campanha pelos prefeitos eleitos das duas principais cidades da região — São José dos Campos e Taubaté, governadas respectivamente por Felicio Ramuth (PSDB) e Ortiz Junior (PSDB).

Líder nas redes sociais e internet, OVALE mantém o ‘Promessômetro’ em seu site. Além das promessas, o (e) leitor tem acesso ao estágio daquela obra — pode estar com sinal verde (a promessa foi concluída), amarelo (em andamento) e vermelha (ainda na estaca zero).

Além dessa ferramenta, outra permite que o (e) leitor monitore a atuação dos vereadores de São José e Taubaté, tendo acesso a detalhes sobre patrimônio, biografia, posicionamento adotado nas votações importantes, entre outras informações.

Em tempos de fake news, em que boatos e mentiras parecem ter lugar cativo em nosso dia a dia, o jornalismo de qualidade tem a missão de separar o joio do trigo, de informar com precisão, clareza e transparência. Trazendo à luz o que se escondia na escuridão. Fiscalizando. E ajudando o (e) leitor, a neste exercício de plena cidadania, a ver com mais transparência.

Esses são os nossos votos.

Bola dentro ou bola fora?

Ginásio Lineu de Moura lotado, com as arquibancadas pulsando ao ritmo da calorosa e barulhenta torcida, que grita o nome de seus ídolos. É o time de São José dentro de quadra, disputando ponto a ponto, lance a lance, mais uma vitória em sua trajetória de triunfos — como, por exemplo, a conquista dos títulos de campeão paulista de 2009 e 2012. E quem está com a bola na mão?

Diante da ávida torcida — antes acostumada com os troféus abundantes erguidos no futebol feminino, futsal ou basquete e atualmente tão ‘órfã’ no esporte –, é o poder público que segura a bola nas mãos, no lance livre, na marca do pênalti, e precisa definir a melhor estratégia, o esquema tático, para o setor no município.

Nas gestões anteriores, como nos governos de Eduardo Cury (PSDB) e de Carlinhos Almeida (PT), a estratégia era investir pesado em esportes de alto rendimento, com contratação de estrelas e a equipes de ponta em determinadas modalidades. Foi assim com o basquete e o futebol feminino.

Hoje, a gestão Felicio Ramuth (PSDB) decidiu modificar a estratégia, incentivando que as modalidades captem os patrocínios por meio da LIF (Lei de Incentivo Fiscal). O projeto orçamentário para 2018, encaminhado pelo governo à Câmara, prevê R$ 4,568 milhões para as equipes de alto rendimento.

O orçamento de 2017, feito no governo de Carlinhos Almeida (PT), previa R$ 18,688 milhões para esta no, mas incluía neste montante o Fadenp (Fundo de Apoio ao Desporto Não Profissional), que cuida do programa Atleta Cidadão.

Na prática, com a mudança de estratégia realizada por Felicio, o governo municipal agora passa a bola para as mãos do mercado, que poderá então abraçar ou não a ideia. O objetivo é economizar, em tempo de crise e rombo nos cofres públicos.

Bola dentro ou bola fora?

Quem vai definir será a torcida. E o placar do jogo.

Pontes contra os muros

Fake news. A expressão, que em português significa notícias falsas, foi escolhida a ‘palavra do ano’ e ganhará um verbete no dicionário britânico. Foi o que trouxe nesta quinta-feira a notícia — verdadeira, diga-se de passagem — publicada em sites de todo o mundo. Trata-se de uma praga global que se dissemina com a velocidade (e a superficialidade) das redes sociais, construindo um muro alto e maciço entre os fatos reais, tão fundamentais em uma sociedade saudável e democrática, e a população humana.

O termo ficou mais popular e ganhou força durante a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos, que terminou com a vitória de Donald Trump, que usa (e abusa) dessa estratégia de manipular fatos, datas, estatísticas e informações.

Em março deste ano, a ONU (Organização das Nações Unidas) definiu o nefasto fenômeno das fake news como sendo uma preocupação mundial, que põe em xeque, frontalmente, a liberdade de expressão. Adaptando frase do saudoso jornalista Joelmir Beting, fake news é a prática de ‘torturar’ os fatos até que eles ‘confessem’.

Para os especialistas, de acordo com a ONU, essa onda — ou melhor, tsunami — de desinformação tem o poder de destruir reputações e também de violentar o conceito de privacidade, além de incitar a violência, a discriminação e atos de hostilidade contra certos grupos de nossa sociedade.

Em 2018, quando os brasileiros vão às urnas para a escolha do próximo presidente, as fake news prometem se tornar ainda mais presentes no dia a dia do debate político no país.

Neste mundo cada vez mais e mais dividido, as fake news são verdadeiros muros de desinformação e de alienação, amordaçando fatos e torturando a verdade. Em um cenário como esse, o jornalismo independente, ético e isento tem um papel fundamental: ele é a ponte entre o público e a verdade..