Pé de moleque no tempo dos corações feitos de capotão

Todo pé de moleque tem coração de capotão, chuta a bola de meia e faz o gol no meu campinho de botão. Ah, aquele tempo… aquele tempo que apesar de se manter presente já é pretérito, ele sim é que era bom.
Tá, a vida tinha lá as suas obrigações (aqui leia-se as tarefas escolares, principalmente exercícios matemáticos), porém a maior parte do tempo era gasta jogando bola na rua (alguém aí se lembra das traves de pedras ou chinelos, improvisadas pela criançada sobre o asfalto quente?), ou brincando aqui e acolá, seja de polícia e ladrão, bandeirinha, pega-pega ou salvando o mundo no esconde-esconde.
Ah, aquele tempo… claro que havia suas preocupações, isso nós não podemos negar. Como conseguir a figurinha que faltava para completar o álbum da Copa? Onde arranjar coragem, então, para derrotar a timidez e, sem desmaiar, trocar duas ou três palavras com a menina mais linda da sua escola?
Nesta época, passar de ano é, certamente, um desafio daqueles, um assustador monstro de sete cabeças. Nos esforçamos (e torcemos, rezamos…) muito para conseguir passar de ano — o mais paradoxal disso tudo é que, com o passar do tempo, os anos se passam com apressada facilidade, por mais que torçamos para ele dar um tempo e diminuir o ritmo.
Mas viveria o tempo em uma constante mutação? Ou, então, seria o tempo o mesmo o tempo todo, só trocando de roupa de uma época para a outra?
Recentemente, lendo o livro  ‘O macaco que se fez homem’,  me deparei com a reflexão do autor, que abriu parênteses no meio de um de seus primorosos contos para explicar o porquê de ser contra os romances de centenas e centenas de páginas. “Uma coisa me espanta: que haja inda hoje, nestes nossos atropelados dias modernos, quem escreva romances! (…) A época é apressada, automobilística, aviatória e cinematográfica (…)”, escreveu Monteiro Lobato, em ‘Marabá’ (1923).
Como se vê, o escritor taubateano estava encantado com a rapidez do mundo, que parecia mais moderno a cada dia. Não te lembra alguém, prezado leitor? Daria uma crônica: ‘você, que tem ideias tão modernas, é o mesmo homem que vivia nas cavernas’, diz o refrão filosófico de ‘Crônica’, composta pelo ‘engenheiro’ Humberto Gessinger e lançada em 1986.
Qual foi a belle epoque?
O homem de hoje, por exemplo, tem saudade do futebol da  década de 1960, quando os craques míticos desfilavam pelos gramados de um intenso verde em preto e branco. Estes dias, lendo o livro ‘11 gols de placa’, vi reportagem sobre a crise no esporte: craques em extinção, baixo nível técnico, falta de público… O texto é de 1969.
Como se vê, em certa medida, o homem, seja a bordo de caravelas ou naves espaciais, parece ser o mesmo. Sorte daquele que preserva, por debaixo das vestes e calçados da época, o pé de moleque e o coração de capotão. Ah, porque aquele tempo é que era bom.

  • Texto publica na edição especial deste fim de semana. Confira o flip digital: http://flip.ovale.com.br/

Um país escravizado

Em 13 de maio de 1888, após séculos de uma desumana exploração, o Brasil viu-se livre da escravidão. Com a assinatura da Lei Áurea, pela princesa Isabel, o país virou a mais obscura e vergonhosa página de sua história, apesar de ainda carregar na pele e na alma as feridas abertas por ter sido o último povo livre das Américas a abolir a escravatura — é espantoso pensar que isso ocorreu só 129 anos atrás. A escravidão é, sem dúvida, um dos símbolos históricos do atraso brasileiro .

Retroceder, porém, mantém-se nos dias atuais um verbo a ser conjugado diariamente, de forma exaustiva, pelos palacianos de um país escravizado.

O mais recente exemplo deste processo que castiga o país, feito chicotadas que rasgavam a pele negra presa ao tronco, é a portaria 1.129 do Ministério do Trabalho. Nela, o governo do presidente Michel Temer, o denunciado por supostamente liderar o ‘quadrilhão’ do PMDB na Câmara, altera a definição do que é trabalho escravo para os fins de seguro-desemprego.

Na prática, Temer afrouxou a definição do que é enquadrado como trabalho escravo, além de aumentar a burocracia para sua fiscalização e impor sigilo para a chamada lista suja, com os empregadores flagrados reduzindo funcionários a condição análoga à escravidão.

Este absurdo, condenado por organismos de todo o planeta, foi um dos afagos do presidente à bancada ruralista, que tem mais de 200 deputados e possui papel decisivo no plenário — o mesmo que vota hoje a denúncia contra Temer, que se acostumou a usar o fisiologismo de Brasília na busca pelos votos que, mesmo por um alto preço, possam lhe salvar o pescoço.

Ontem, felizmente, a ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu o efeito da portaria, por meio de uma decisão liminar.

E hoje, a Câmara deverá barrar — novamente — a apuração contra Temer e seus aliados. Porque, infelizmente, seguimos escravos de um fisiologismo corrupto que acorrenta a pobre democracia brasileira, castigando, dilacerando, sufocando o povo que sente na pele diariamente o açoite dos senhores deste engenho tão engenhoso chamado Brasil.

 

O nosso ‘7 a 1’ de cada dia

Lá vem eles de novo e lá vem eles de novo, que absurdo… é gol da Alemanha. A frase, que entrou para a história do futebol pentacampeão do mundo, ficou famosa na voz de Galvão Bueno e virou um símbolo da derrota acachapante da Seleção Brasileira para a Alemanha no Mineirão, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, pelo vergonhoso placar de 7 a 1. Foi a maior derrota do Brasil, ao lado do revés sofrido no Maracanã em 1950, quando o ponteiro uruguaio Ghiggia bateu o arqueiro Barbosa, virou o jogo e escreveu uma das páginas mais incríveis do esporte: o Maracanaço.
Encastelado no Jaburu, absolutamente isolado da realidade nefasta que assola o Brasil, país em que a corrupção parece dar as cartas em campo e a ética já foi chutada para escanteio, Michel Temer pretende utilizar o futebol em sua próxima jogada de marketing.
A equipe de Temer, presidente acusado de ser líder do quadrilhão, quer vender a imagem de que o peemedebista é como Tite, técnico que conseguiu arrumar a Seleção após a tragédia do Mineirão — aqui, dentro do esquema tático do Planalto, seria feita a analogia de Dilma Rousseff como Felipão.
Antes de mais nada, é preciso recordar: Temer foi vice-presidente da petista, apesar de ter o bizarro hábito de tentar reescrever a história e dissociar-se do governo anterior.
Em uma semana em que Brasília deu uma goleada de péssimas notícias, como o Mineiraço de Aécio Neves no Senado, a tabelinha ultrajante de impunidade e fisiologismo na CCJ (a comissão ignorou as provas do MP, defendendo arquivamento da denúncia contra Temer, que abre os cofres para conquistar a vitória no plenário), e outras.
E Brasília, infelizmente, parece nos escravizar — o retrocesso é tão grande que até mesmo este verbo voltou a ser escalado — em um 7 a 1 moral que não tem fim. E na arquibancada, o silêncio das panelas nos lembra o Maracanã de 1950. E sabe o que é pior? Lá vem eles de novo, que absurdo… todo dia é um gol da Alemanha.