Luz que não se apaga jamais

Profissional experiente, calejado pelos anos de hard news, o fotógrafo seguiu para a pauta. Para mais uma pauta, como tantas outras. O tema? Um acidente de trânsito em uma rodovia nos arredores da cidade, com dezenas de veículos envolvidos, mortos e feridos. Chegando ao local, em meio aquela cena desoladora, ele clicou, clicou, clicou freneticamente, como se a máquina fosse um escudo, capaz de protegê-lo de tudo aquilo, do cotidiano nem sempre feliz que retratava com suas imagens.

Era o tempo do guaraná com rolha, em que máquinas digitais não passavam de ficção científica. Então, depois de chegar à redação, o fotógrafo foi para o laboratório revelar os rolos de filme. Ali, naquela sala com luz avermelhada, o experiente fotógrafo chorou. Foi às lágrimas ao perceber, em uma de suas chapas,  que ali, em meio às vítimas da tragédia, estava seu filho. O próprio filho. E ele não havia percebido.

Esta é uma das histórias que ouvi anos atrás, nos tempos da faculdade de jornalismo. De acordo com a história, o fotógrafo, de tão desolado, desistiu da profissão.

Conheci a repórter Ana Lúcia Innocêncio anos atrás, quando trabalhamos juntos nos jornais Bom Dia São José e Bom Dia Taubaté. Ela, desde sempre, mostrou-se uma profissional com olhar humano, sensível.

Hoje, nesta quarta-feira, Ana Lúcia contou a história do encontro entre Carlos e o menino Pedro. Em meio à tragédia na rodovia Carvalho Pinto, que deixou duas vítimas fatais e envolveu mais de 30 veículos, o menino estava perdido naquele cenário trágico. Seus avós tinham sido socorridos e Pedro ficou só. Quer dizer, só não. Há quem diga que nós nunca estamos sós. O peito de Carlos, um romeiro que seguia para Aparecida, foi o abrigo encontrado pela criança.

“O colo de Nossa Senhora”, postou Ana, que contou a história. Ela hoje cumpre com brilhantismo o papel de repórter da Rádio Mensagem.

O exemplo de Ana mostra que sempre existe espaço para a sensibilidade. E para o amor ao próximo. A foto tirada por Ana Lúcia deixa claro: há no jornalismo uma luz que não se apaga jamais.

Qual é o diagnóstico?

Quais são as causas da violência? Por que o Vale do Paraíba lidera o ranking de homicídios em São Paulo desde 2010?! Por que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes na RMVale é maior que o dobro daquela registrada na capital?!

As forças de segurança pública sustentam que o Vale possui uma série de características peculiares que tornam mais complexo o combate ao crime e favorecem a elevação de índices criminais.

Entre elas estão a localização geográfica (o Vale está situado no meio de São Paulo e Rio de Janeiro, os dois principais centros do país), o perfil econômico (é uma das regiões mais desenvolvidas do país), o fluxo de turistas (em Campos do Jordão, no Litoral Norte), entre outros.

No entanto, é fato que todas essas características já estavam presentes antes de 2010, não é? Por que antes disso, apesar da presença desses agravantes, o Vale era a quinta — e não a primeira — região mais violenta de São Paulo?

De acordo com as forças de segurança, o tráfico de drogas responde por mais e 70% dos homicídios na RMVale. Mas e as outras regiões, como Campinas e a Baixada Santista, por exemplo, também não têm tráfico?  O mesmo vale para o desemprego, outro agravante citado pelas polícias.

Como repórter, cobri durante anos temas relacionados à segurança. Foi numa dessas apurações que revelei que a região havia tornado-se a mais violenta de São Paulo. E até aqui, anos depois, confesso que ainda não ouvi uma resposta convincente sobre o por que estamos no topo da violência. Encontrar a resposta é parte fundamental para que o Vale deixe este triste título para trás.

Sem um diagnóstico preciso fica mais difícil curarmos essa epidemia de violência.

 

Violência em Números — Mapa dos Homicídios em SP

Dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram que a taxa de homicídios por 100 mil habitantes no Vale do Paraíba supera a registrada em São Paulo já há 10 anos. O índice mais recente, como noticiou OVALE, está o dobro — aliás, mais do que o dobro. Nossa região lidera o ranking de violência desde 2010.

Levantamento feito pelo blog, com base nos dados do Estado (http://www.ssp.sp.gov.br/transparenciassp/) entre 2001 e 2017, mostram como o mapa da violência em São Paulo foi se modificando com o passar do tempo. Inicialmente, o Vale ocupava a 5ª colocação, em um ‘Top 5’ dominado ainda pela Capital, Grande SP, Baixada Santista e a região de Campinas.

Focamos nossa análise nessas cinco regiões, que tinham as taxas mais altas no início do século (2001). A partir da metade da década, outras regiões do interior começaram a ocupar o ‘Top 5’. No Estado, de 2001 para 2017, a queda foi de 35,06 vítimas de homicídio por 100 mil habitantes para 8,35. No interior, de 21,05 para 8,49. Na capital, de 51,90 para 6,85. A Baixada Santista, de 45,99 para  8,94. No Vale, a queda foi de 26,84 para 15,71* (hoje, disparada, a maior taxa do Estado, única região acima de 10 — índice que, segundo o Estado, é o limite tolerável pela ONU).

Este é o primeiro post sobre o tema. Na próxima segunda-feira, continuaremos a análise dos dados e o detalhamento dos motivos que deixam o Vale no topo do ranking. Confira abaixo a evolução dos dados ao longo deste século.

Foto de Ismael Rocha, publicada na página da DIG nas redes sociais

Confira a evolução da taxa de homicídios em SP (vítimas por 100 mil habitantes):

2001: Capital (51,90)/ Grande SP (47,58)/ Baixada Santista (45,99)/Campinas (31,06)/ Vale do Paraíba (26,84)

2002: Grande SP (46,37)/  Capital (45,90)/ Baixada Santista (46,53)/ Campinas (27,28)/ Vale do Paraíba (26,51)

2003: Capital (42,08)/ Grande SP (41,54)/ Baixada Santista (33,45)/Campinas (28,42)/Vale do Paraíba (25,63)

2004: 1º Capital (33,27)/ Grande SP (31,28)/ Vale do Paraíba (23,68)/ Campinas (22,56)/ Baixada Santista (22,08)

2005: 1º Grande SP (26,47)/Capital (24,70)/ Baixada Santista (16,58)/ Vale do Paraíba (16,66)/ Campinas (15,35)

2006: 1º Grande SP (23,65)/ 2º Capital (20)/ Baixada Santista (17,53)/ Vale do Paraíba (17,52)/ Araçatuba (15,89)/ 6º Sorocaba (13,21)/ 7º Campinas (12,46)

2007: 1º Grande SP (18,35)/Capital (14,96)/ Baixada Santista (12,80)/ 4º Vale do Paraíba (12,64)/ Campinas (11,64)

2008: 1º Grande SP (17,85)/ Vale do Paraíba (12,81)/ Baixada Santista (12,72)/ 4º Capital (11,92)/ Campinas (10,40) — primeira vez em que a RMVale superou a taxa de homicídios da capital paulista.

2009: 1º Baixada Santista (16,52)/ Vale do Paraíba (16,37)/ Grande SP (15,52)/ 4º Capital (11,62)/Campinas (11,10)

2010: 1º Vale do Paraíba (15,16)/ Baixada Santista (13,59)/ Grande SP (12,99)/ Araçatuba (12,78)/ 5º Capital (11,23)/ 6º Campinas (10,60) — mapa da violência no Estado começa a mudar, com a entrada de outras regiões do interior no ‘Top 5’.

2011: 1º Vale do Paraíba (17,98)/ Baixada Santista (13,62)/ Grande SP (13,41)/ Piracicaba (10,94)/ Araçatuba (10,13)/ 6º Sorocaba (9,53)/ 7º Campinas (9,5)/ 8º Capital (9,45)

2012: 1º Vale do Paraíba (18,23)/ Grande SP (15,12)/ Baixada Santista (14,72)/ 4º Capital (13,16)/ 5º Sorocaba (10,38)/ 6º Campinas (10,32)

2013: 1º Vale do Paraíba (16,45)/ Grande SP (13,74)/ 3º  Baixada Santista (12,88)/ Piracicaba (12,39)/ Capital (10,96)/ 6º Campinas (10,04)

2014: 1º Vale do Paraíba (16,20)/ 2º Grande SP (13,07)/ 3º  Baixada Santista (10,97)/ Araçatuba (10,72)/ Capital (10,40)/ 6º Campinas (10,05)

2015: 1º Vale do Paraíba (16,28)/Grande SP (10,96)/  Araçatuba (10,65)/Baixada Santista (9,63)/ Capital (9,13)/ 6º Campinas (7,62)

2016: 1º Vale do Paraíba (17,80)/ Araçatuba (11,77)/ Baixada Santista (9,01)/ Grande SP (8,87)/ Piracicaba (8,35)/ 6º Ribeirão Preto (7,73)/ 7º Capital (7,62)/ 8º Bauru (7,19)/ 9º Sorocaba (7,06)/ 10º São José do Rio Preto (7)/ 11º Campinas (6,85) e 12º Presidente Prudente (6,31)

2016/ 2017: 1º Vale do Paraíba (15,71)/Grande SP (9,94)/ Araçatuba (9,37)/ Baixada Santista (8,94)/ Piracicaba (8,15)/ 6º Sorocaba (7,84)/ 7º Ribeirão Preto (7,64)/ 8º Campinas (7,34)/ 9º Bauru (7,19)/ 10º São José do Rio Preto (7,10)/ 11º Capital (6,85) e 12º Presidente Prudente (6,52) — dados de agosto de 2016 a julho de 2017.

Brincando com Fogo

Onde há fumaça, há fogo.

Dias atrás, o telefone tocou na redação de OVALE no final da tarde e do outro lado da linha uma fonte sugeriu que a equipe de reportagem investigasse se todos os prédios públicos das principais cidades da região — São José dos Campos, Taubaté e Jacareí — tinham alvará do Corpo de Bombeiros. De acordo com ela, a resposta era negativa.

‘Onde fogo não há, fumo não se levanta’, já dizia sabiamente um velho ditado popular caipira. Nossos repórteres foram às ruas para apurar o caso e o resultado está publicado às páginas 2 e 3 desta edição, em reportagem especial de Hernane Lélis e João Paulo Sardinha. E o resultado é chocante.

‘É fogo na roupa’.

Prédios públicos que diariamente recebem milhares de pessoas, como as unidades de saúde e escolas, entre outros exemplos, funcionam sem ter o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros) — documento emitido pelo Corpo de Bombeiros certificando que, durante vistoria, a edificação apresentava as condições de segurança contra incêndio.

‘É fogo, né’.

O bê-a-bá da administração pública ensina que é uma irresponsabilidade deixar que crianças tenham aula em escolas que não têm alvará. Ou deixar que os pacientes sejam atendidos em unidades hospitalares nestas condições inadequadas. Trocando em miúdos, é brincar com fogo.

E, como ensinam os ditados populares, com sua sabedoria tão peculiar, ‘quem brinca com fogo brinca com a vida’, afinal ‘o fogo dorme sob as cinzas’ e ‘quem desafia o fogo sempre sai perdedor’.

No entanto, ao longo de décadas, o poder público parece ter preferido apostar na sorte. Quer a prova? Nem mesmo as prefeituras de São José e de Taubaté possuem o auto de vistoria. Sim, é isso mesmo. O Paço Municipal e o Palácio do Bom Conselho estão com suas portas abertas, com milhares de servidores lá trabalhando e recebendo multidões de visitantes, estão operando sem ter alvará de funcionamento.

Em 2013, a tragédia na boate Kiss, que matou 242 vítimas no Sul, deixou claro que o Brasil precisa aprender a lição sobre a importância da fiscalização. Ainda não aprendeu. Esta semana, na tragédia do Rio Xingu, 23 pessoas morreram em uma embarcação irregular.

Exemplos não faltam.

Então, aqui na RMVale, o poder público precisa parar de brincar com o fogo. Afinal, dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros.

É a única.

  • Editorial deste fim de semana.
  • O sempre atento Luís Daniel da Silva me lembrou de colocar o link da reportagem, Valeu Luís: http://www.ovale.com.br/_conteudo/2017/08/nossa_regiao/15579-paco-escolas-e-ubss-funcionam-sem-aval-dos-bombeiros-na-regiao.html

 

Prevenir é o melhor remédio, doutor

Prevenir é o melhor remédio, não é? O tão conhecido ditado popular poderia ter evitado uma dor de cabeça daquelas para o prefeito Felicio Ramuth (PSDB) e, principalmente, para milhares de pacientes que precisam de medicamento de alto custo em São José dos Campos.

Inaugurada há 11 dias, como o mais eficiente ‘remédio’ para todos os males que assolavam os pacientes, já tão desgastados depois de ficarem naquele fogo cruzado travado entre os governos de Carlinhos Almeida (PT) e de Geraldo Alckmin (PSDB), a Farmácia Central já começou apresentando sintomas evidentes de que não seria a cura milagrosa do problema.

Na verdade, a aposta do novo governo começou com cara de ‘mais do mesmo’.

Infelizmente, o que se viu, na prática, foram longas filas, desorganização e pacientes criticando a falta de informações claras e precisas. Esse início, como se viu, foi mais confuso do que letra de médico.

Após uma enxurrada de críticas, a administração diagnosticou que havia problemas ali e decidiu alterar a medicação, mudar o tratamento.

A solução foi adotar uma medida emergencial.

A partir de setembro, os 6.797 pacientes atendidos pela Farmácia Central vão ter acesso online à lista dos remédios disponíveis na unidade, criada pelo governo tucano como a solução para a logística de recebimento e distribuição de remédios de alto custo. A relação será disponibilizada no site da prefeitura.

Isso, em tese, vai ajudar a evitar filas. E muita dor de cabeça, afinal a Farmácia cumpre um papel importante, entregando os medicamentos fornecidos pelo Estado, União e município. Os pacientes merecem ter um tratamento digno e isso se faz com planejamento, pensando e criando um sistema ‘saudável’. E, obviamente, conseguindo ter acesso a esses remédios.

A criação da Farmácia é uma boa medida, porém de boas intenções… por isso é importante que a administração tenha o olhar atento ao termômetro, e faça as correções necessárias em caso de febre.

Em alguns episódios, como o da Farmácia ou a contratação de 100 mil consultas, pagando R$ 22 por cada uma (o valor é considerado insuficiente e não atraiu muitos médicos interessados), só para ficar na saúde, deixa impressão de que a gestão Felicio põe o carro na frente dos bois e, depois de anunciar uma medida, é obrigado a corrigir o rumo. Nesses casos, a melhor receita é: planejar.

Afinal, prevenir é melhor que remediar.

 

Mapa da Violência em SP

Levantamento realizado por OVALE, tendo como base dados oficiais da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, mostram que a RMVale tem 8 das 25 cidades com mais homicídios no interior paulista. Ou, se preferir, 11 das 35. São José dos Campos e Taubaté estão no top 5. Os dados são de janeiro a julho. Confira a lista:

1º Campinas (94 homicídios), 2º Sorocaba (30), 3º  São José dos Campos (28), 4º Taubaté (27), 5º/6º Bauru e São José do Rio Preto (empatadas, com 22 vítimas cada), 7º Hortolândia (21), 8º/9º Franca e Ribeirão Preto (19 cada), 10º/11º Praia Grande e São Vicente (18 cada), 12º Sumaré (17), 13º São Carlos (16), 14º/15º Caraguatatuba e Rio Claro (14 cada), 16º ao 18º Jacareí, Guaratinguetá e Americana (13 cada), 19º/20º Lorena e Guarujá (12 cada), 21º ao 26º Pindamonhangaba, São Sebastião, Jundiaí, Limeira, Piracicaba e Araçatuba (11 cada), 27º Paulínia (10), 28º ao 30º Tremembé, Itanhaém e Assis (9 cada), 31º ao 36º Ubatuba, Caçapava, Sertãozinho, Presidente Prudente, Salto do Pirapora e Marília (8 cada).

Na taxa de homicídios por 100 mil habitantes, que é usada para comparar a violência entre lugares de tamanhos diferentes, o Vale tem mais do que o dobro do índice da capital paulista. É o destaque de OVALE nesta quinta-feira. Confira arte abaixo:

Plano de Ação da PM

Na avaliação das forças de segurança, o Vale do Paraíba possui características peculiares (como a localização entre São Paulo e Rio de Janeiro, grande fluxo de turistas, a presença da Via Dutra) que dificultam o combate ao crime. O comando da Polícia Militar ressalta que houve queda dos crimes violentos em 2017 (além dos homicídios e latrocínios, houve redução nos assaltos e roubos de veículo), que são prioridade da PM. A corporação destaca que são nove meses de queda seguida. A atuação é focada em três pontos: parcerias com outras polícias e prefeitura; aproximação com a comunidade; e operação Mão de Ferro, que ataca cirurgicamente focos de violência. Para o delegado Marcos Machado, coordenador de Comunicação da Polícia Civil no Vale, a região mantém tendência de reduzir os crimes contra a vida..

Abaixo, o editoral desta quinta-feira: ‘A violência na RMVale’.

Primeiro a boa ou a má notícia, qual contar primeiro? A má notícia é que a estatística oficial da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo revela que a RMVale se mantém na liderança da violência no Estado.

De janeiro a julho, o Vale teve 203 assassinatos — 187 vítimas de homicídio e 16 de latrocínio (roubos seguidos de morte). É a única região do interior paulista a ultrapassar a marca das duas centenas de vítimas.

As outras são Campinas (167 assassinatos), Ribeirão Preto (163), Bauru (87), São José do Rio Preto (62), Baixada Santista (117), Sorocaba (147), Presidente Prudente (36), Araçatuba (42) e Piracicaba (146).

Já proporcionalmente, a taxa de homicídio por 100 mil habitantes da RMVale é disparada a maior do Estado, a única que está acima de 10. A região tem 15,71 homicídios a cada grupo de 100 mil habitantes — a capital, por exemplo, tem 6,85.

Levantamento também revela que a região tem 8 das 25 municípios com mais homicídios no interior de São Paulo.

E qual é a boa notícia?

O alento é que houve avanço no combate ao crime. O número de homicídios caiu 19,44% e o de latrocínios 11,11% durante o ano, na comparação com o período de janeiro a julho de 2016. No ano passado, em sete meses, eram 252 mortes — são 49 a mais do que em 2017.

Em São José, o índice passou de 42 para 28 mortes (-33,33%), enquanto em Jacareí houve redução de 56,6% (de 30 para 13 vítimas) de janeiro a julho.

Houve redução também nos índices de assalto e de roubos de veículo no Vale — crimes em que há emprego de violência.

De acordo com avaliação do CPI (Comando de Policiamento do Interior), já são nove meses consecutivos de queda nos índices mais violentos, que são a prioridade no combate à violência. A Polícia Militar atribui o resultado a três pontos centrais: a atuação conjunta com outras polícias, unindo as forças contra a violência; aproximação com a comunidade (é o Vizinhança e o Visita Solidária, por exemplo); e a ‘Mão de Ferro’ (cirúrgica operação calcada em inteligência, que emprega efetivo de toda a região em um ponto e horário específico, que precise de maior atenção).

Este é o plano. É a parte que cabe às forças de segurança — e ela está sendo feita, diariamente, pelos heróis anônimos que enxugam gelo no combate ao crime. Falta, infelizmente, o Vale ser visto como prioridade pelo Estado no combate ao crime. Chega de ser o ‘patinho feio’ da segurança. Basta!.

 

Reforma é ‘puxadinho’

(Brasília – DF, 21/07/2017) “Os Candangos”, escultura em bronze de Bruno Giorgi, datada de 1959, localizada na Praça dos Três Poderes. Foto: Marcos Corrêa/PR

Reforma é uma dor de cabeça, na certa. Os principais vilões dos canteiros de obra — invariavelmente — acabam sendo a falta de planejamento, a escolha do material (que não raramente, como todos sabem, rende menos do que o esperado), a demora para finalização da empreitada, a dificuldade para contratação de mão de obra capacitada (há o risco do pedreiro e seus ajudantes abandonarem todo o serviço pela metade) e, por último mas não menos importantes, as falhas de acabamento. Isso quando o dinheiro não acaba no meio e transforma em pesadelo o sonho de reformar ou construir uma casa.

Imagina só quando a reforma em questão é na Casa do povo? Acredite, a dor de cabeça é ainda maior. E custo ainda mais e mais e mais caro.

Em Brasília, a capital afundada até o pescoço pelo profundo lamaçal sem fim, os parlamentares discutem a reforma política. Há a expectativa de que as mudanças sejam votadas nesta quarta-feira, em plenário.

Em tese, esta é a tentativa de arrumar a casa da política brasileira, que virou a casa da mãe Joana nestes últimos anos. Em debate estão propostas polêmicas, como, por exemplo, o chamado ‘Distritão’ e a criação de um fundo de R$ 3,6 bilhões (é isso mesmo, B-I-L-H-Õ-E-S!) para as eleições de 2018.

Essas e outras propostas, que são debatidas na Câmara pelos deputados federais, preveem mudanças drásticas nas regras do jogo político, na forma como os eleitores elegem hoje seus representantes.

É o caso, por exemplo, do Distritão,sistema em que os candidatos mais votados são eleitos, eliminando assim os chamados ‘puxadores de voto’, existentes no sistema proporcional. Isso, por outro lado, segundo oposicionista à ideia, no entanto enfraqueceria os já empobrecidos partidos políticos.

Ele é usado em só quatro países do mundo — Ilhas Pitcairn, Vanuatu , Jordânia e Afeganistão. Não à toa não é, está longe de ser a melhor opção, dificultando o aparecimento (e renovação) de novos políticos e favorecendo a reeleição de quem já tem mandato.

Exemplos à parte, é óbvio que a política brasileira precisa urgentemente de uma reforma. E não somente estrutural, porém principalmente moral. O Brasil precisa construir os alicerces para se reerguer. Triste é que a reforma seja conduzida por políticos que se preocupam, em sua maioria, em apenas salvar a própria pele, mantendo a sua fisiológica relação de incesto e promiscuidade com o poder.

A política brasileira precisava, com urgência, ser reconstruída completamente. No entanto, de Brasília virá apenas um puxadinho. E é capaz dele ser erguido pelas empreiteiras da Operação Lava Jato. Você duvida?

 

Qual é o papel do jornal?

 

Qual é o papel do jornal?
A resposta é: produzir conteúdo, informação de qualidade, independente da plataforma.
Hoje, em meio ao seu contínuo processo de revolução editorial, a equipe de OVALE produz quatro diferentes modelos de notícia: a versão impressa (que aposta em conteúdo exclusivo, além de analítico e aprofundado, que sai das rotativas fresco, inédito e relevante. Ah e com três capas diferentes); o flip digital (que oferece ao leitor a experiência de folhear o impresso em seu computador, tablet ou celular, tendo à disposição todas as ferramentas do online, como vídeos e galerias de fotos); o site, que ganhou um novo aplicativo (já baixou? Vale a pena!) e fica responsável pela cobertura do hardnews, acompanhando sempre em primeira mão o que acontece em nossa região; e as redes sociais, que replica o conteúdo do online e tem ainda uma produção própria, com mais notícias e vídeos.
O trabalho tem dado resultado. Nesta terça, por exemplo, o alcance do jornal nas redes sociais é maior do que a soma de todos os concorrentes — e com uma folga de 30% (tem a soma de todos e mais 30% de audiência). Em determinadas ocasiões, OVALE consegue ter o dobro da soma de todos os demais. Bacana, né?
Mais do que mudar de formato, o jornal se adequou ao novo formato do leitor, cada vez mais multiplataforma. E vem mais mudanças por aí.

Confira abaixo caderno especial sobre os novos formatos de OVALE 😉

http://flip.ovale.com.br/edicao/impressa/106/08-05-2017.html

Moonwalk na Linha Evolutiva?

Diante do discurso de ódio e intolerância, que avança a passos largos aqui e em outros pontos do mundo, fica aquela sensação de que o homem decidiu praticar moonwalk em sua linha evolutiva. Estamos andando para trás?

Abaixo, reproduzo a reportagem especial da excelente Virgínia Silveira sobre o avanço do sentimento de ódio nos EUA. A matéria, apurada e redigida direto dos EUA, foi publicada neste fim de semana. Vale a leitura.

 

“A marcha dos supremacistas brancos, que resultou na morte de uma pessoa e deixou dezenas de outros feridos na pequena Charlottesville, na Virginia, trouxe lições para a nação americana. A principal delas, segundo a ativista política Gina Berko Solomon, é que a sociedade não pode se silenciar diante do ódio e do fanatismo.

“Não podemos permitir que isso aconteça sob os auspícios da ‘liberdade de expressão’, pois não é a mesma coisa quando se causa medo, terror e morte”. Ela ressalta que a população precisa trabalhar junto para mostrar que esses grupos de racismo, intolerância e ódio não têm lugar nos EUA.

De acordo com Gina, ficou claro que o objetivo real dos supremacistas no conflito de Charlottesville não era só protestar contra a retirada da estátua de Robert E. Lee, general do Exército que defendeu a manutenção da escravidão durante a Guerra Civil.

“Isso foi uma desculpa que eles usaram, pois a estátua não seria destruída, apenas removida para outro local. A marcha foi mesmo uma oportunidade para esses grupos falarem sobre suas crenças cheias de ódio e para tentar incutir o medo na comunidade”, declarou a ativista, que é diretora de desenvolvimento da Adult Literacy League, em Orlando, na Flórida.

TERROR.

Para o professor de TI John Hopkins, a América vive uma encruzilhada neste momento. “A desigualdade de renda tem promovido o descontentamento e o ódio. A agenda da extrema direita é aterrorizar o cidadão comum”, explica. Os supremacistas, segundo ele, “oprimem qualquer grupo que não abrace suas visões extremas, assim como os grupos islâmicos radicais que vemos no Oriente Médio”, comentou.

A ativista Gina Solomon criticou a reação do presidente Donald Trump ao não chamar o assassinato da jovem Heather Heyer, que morreu atropelada pelo carro que se lançou contra os manifestantes antifascistas, de um ato de terrorismo. “Este grupo é responsável pela morte desta mulher e pelas lesões causadas em mais de 19 pessoas. Este foi um ato de terrorismo doméstico cometido por terroristas supremacistas brancos”.

O comerciante Rhuppert Toledo, nascido nos Estados Unidos quando seus pais brasileiros viviam no país, defende o protesto de Charlottesville, organizado pelo grupo ‘White Power’, do qual é simpatizante. “Era para ser uma passeata pacífica com o único objetivo de não permitir a retirada dos monumentos. Não podemos destruir a história do país”, argumentou Toledo, que é casado com brasileira.

Ele comenta que dois amigos que participaram dos protestos em Charlottesville foram agredidos pelas costas por negros que integrariam grupos anti brancos e anti semitas. “O atropelamento que resultou na morte de uma pessoa foi um exagero, mas quem começou a atacar primeiro foram os negros e os latinos”, afirmou.

ÓDIO.

A posição de Toledo sobre a preservação dos monumentos históricos é compartilhada pelo republicano Rey Martz, dono da empresa Atlantis Global Tours em Orlando. “Não estou de acordo com a existência de grupos de supremacia racista, mas não sou contra a história. Não se pode apagar a história de um país dessa forma, seja ela boa ou má”, disse ele, venezuelano com cidadania americana.

As minorias afro-americanas, na opinião do comerciante Ruphert Toledo, também têm características de ódio similares aos supremacistas brancos.

“Não somos contra os negros. Somos contra as atitudes das pessoas dessa cor. Não é à toa que a maior parte da população carcerária dos EUA é composta por negros”, disse Toledo, que votou em Trump nas eleições presidenciais e se diz 100% a favor do movimento ‘White Power’.

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Cidade de Deus é aqui

Por entre becos e vielas, ela corre pela vida. Desesperadamente, corre como se não houvesse amanhã, tendo em seu encalço a turba enfurecida. ‘Senta o dedo na galinha’, grita o traficante Zé Pequeno, com sua voz atravessando o samba tocado a poucos metros dali, à beira da churrasqueira naquela tarde. Considerada um clássico do cinema, a cena da fuga da galinha abre o filme Cidade de Deus (2002), do diretor Fernando Meirelles.

O longa narra a violenta história da comunidade homônima do Rio de Janeiro, dominada pelo tráfico de drogas e onde a violência, consequentemente, faz morada.

Dita as regras.

Cidade de Deus (ou CDD) é também o apelido do Jardim São José 2, localizado na zona leste de São José dos Campos, bairro construído no fim de 2003 para abrigar famílias de três favelas — Caparaó, Morro do Regaço e Nova Detroit. Era o programa de desfavelização da cidade — ou higienização?

Antes mesmo da mudança das famílias (a imensa maioria delas de bem), analistas em segurança alertavam: as três favelas tinham, segundo a polícia, forte presença do tráfico e havia um risco iminente de uma verdadeira ‘matança’ na área.

Isso, infelizmente, se concretizou. No início, foi registrada uma série de mortes — havia uma disputa no Jardim São José 2, pelo controle dos pontos de droga. Com o passar do tempo, o bairro começou a ser conhecido e chamado no meio policial como ‘CDD’ ou ‘Cidade de Deus’. Triste.

A fábrica, que foi prometida pela prefeitura para dar trabalho aos moradores, que estavam distantes do centro e não mais poderiam trabalhar com reciclagem, não saiu do papel. Isolados, o bairro parece ter tornado-se uma fábrica de desigualdade. A maioria sobrevive graças a programas de transferência de renda.

Onde o Estado falha, o crime reina. Com mão de ferro.

De tempos em tempos, como em 2009 e 2016, o CDD é palco de guerras do tráfico. Sangue escorre nas ruas — sangue jovem, principalmente. Onde a ausência é tudo o que se tem, não há nada a perder.

Agora, o Pinheirinho dos Palmares — que tem o triplo do tamanho — já está sendo chamado no meio policial como o ‘Grande CDD’. Ao que tudo indica, mais uma vez o filme da Cidade de Deus se repete.

E uma coisa é certa: o poder público tem seu nome grafado nos créditos deste filme.

Em letras garrafais.